Início – Cacos De Um Memorial

 

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Sou o único filho de uma união à moda antiga, ou seja, machismo predominante e condescendência feminina.

Meus pais não estudaram mas, ainda assim, transbordavam conhecimentos. Eram donos de outros saberes. Foram eles meus primeiros professores.

Certa noite, ganhei de presente uma cartilha de nome “Caminho Suave.”  À luz da lamparina descobri uma coisa: o que une gente e livro tem nome – magia. Por isso considero a leitura minha cruz… minha luz… minha delícia.

Vivi em áreas rurais. Lugares longínquos de escolas. Só iniciei o primário, definitivamente, aos dez anos.

Em minha meninice houve períodos difíceis, épocas de privações alimentares, inclusive. Mas, em todo tempo, tive saciada minha fome de literatura. Contudo, quem de fato lançou a semente literária em meu coração foi uma professora de nome  Tania Soares França Martins . Ela formou leitores em minha turma quando pediu que sentíssemos os livros, e, que estes eram ótimos amigos… Ela falara a verdade.

Hoje, minha pele já não tem a mesma elasticidade d’antes, há rugas em torno dos meus olhos e minhas têmporas estão cobertas por cabelos grisalhos.

Já sei… já sei… enquanto muitos profissionais já estão com suas carreiras consolidadas, vidas estabilizadas e muitos sonhos realizados, eu ainda semeio letras nas brisas, cultivo  lavouras de narrativas e alegro-me ao ver germinar, florescer e frutificar  as minhas tantas histórias https://dusoutros.wordpress.com/.

Ah!!! E, por favor, sem essa de dizer: “no meu tempo…” Enquanto houver boas histórias para contar, meu espaço é aqui, e meu tempo,  agora.



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Os Dois

Capítulo 6

Labaredas

A primeira vez que os dois se viram refletidos um no olhar do outro também foi a primeira vez que se sentiram num braseiro. Pensaram em vão que era por causa do tempo abafadiço, mormacento… Bem-aventurado engano.

Mutuamente os corações aceleraram, as bocas ficaram secas e os olhares vidraram. Brotaram nas mentes os bentos pecados. Em outras palavras, era paixão, aquela labareda que, uma vez alastrada incendeia a alma e o resto.

Enquanto se perdia e se achava naquele negríssimo olhar, falou consigo: “Quero essa mulher só pra mim, Deus”.

Ela fingia tranquilidade… Mas, estava à beira do desespero sem entender o sentimento que sentia. E, quando ela se preparou para repetir a mais rotineira das respostas, ou seja: “o custo do programa etc, etc,” aí, de supetão ele perguntou:

Quer morar comigo???

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Os Dois

Capítulo 5 

A visão: Era Anjo ou Demônio?

Ele seguiu o conselho do padrinho, tomou a benção e partiu. Na velha mochila havia quase nada. Porém, a cabeça fervilhava… Eram tantas dúvidas, tantos medos. Pensou em morrer. Imaginou-se em um caixão e sentiu um calafrio.

Entrou no ônibus e seguiu rumo ao centro da cidade. Sentou-se em um banco, acompanhou o voo de um pombo vagabundo que foi pousar na janela da zona. Tanto desacerto havia ocorrido que ele havia perdido as vontades todas.

Levantou-se e rumou para o velho casarão azul colonial… Reduto das putas. Lugar temido pelas as esposas e idolatrado por muitos maridos. Sem expectativa subiu as escadas. Homens e mulheres dançavam  agarradinhos, se esfregando e se controlando. tentavam para não se invadir uns aos outros no meio do abafado salão. As fumaças do cigarro e do incenso de sândalo pesavam o ar.

Ele tinha a mesma mania besta dos homens – parar e ficar olhando para os corpos nus banhados de luzes, ora vermelhas, ora azuis. Entretanto parou petrificado  diante da primeira porta.

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Os Dois

Por: Wilson Albino Pereira

Capítulo 4

A Delicadeza D’uma’Flor

Apesar de tudo, ela era tímida. Sentia vergonha e até nojo de si. Muitas vezes nem olhava nas caras dos caras que perguntavam a toda hora a mesmíssima coisa: “Quanto é?”

Resposta: “dez reais por uma chupa e três posições”.

Ela aprendeu na marra! Sabia como satisfazer os caprichos masculinos. Dizia que homem vira bicho na cama. Em alguns dias, chegava a fazer 25 programas a 10 reais cada. Diante dos sexos eretos, apontados para seu rosto, se algo lhe era perguntado, ela nada falava, apenas fechava os olhos, abria a boca e, os engolia.

Muitas vezes, no período menstrual, ela estocava dentro de si, chumaços de algodão para conter o sangramento e, apesar das cólicas e dores nos bicos dos seios, dava sequência nos serviços.

Vivia desesperada. Todo santo dia iniciava sua jornada com dívidas acumuladas. São R$ 100,00 pela diária, R$ 20 pelo marmitex, mais R$ 15 pelos preservativos e, por fim, R$ 10,00 por um lençol gasto.

O ambiente é pesado no puteiro. É muito pesado. Nos corredores apertados todo cuidado é pouco. A qualquer momento a carteira pode ser levada e o dono nem sentir.  O mulheril habitante da zona é variado demais. Tem loiras naturais ou negras ou mulatas. Tem altas ou quase anãs; Tem magras ou obesas… Há quem diga que já topou até com puta asiática e europeia.

Algumas moças ficam totalmente nuas. Tentam olhar nos olhos dos homens, mas estes só miram peitos, bundas, ou os centros pulsantes das coxas… Há moças que empunham espelhos e ficam de quatro, viradas de costas para as portas. Quando percebem o reflexo do fregue em potencial,  elas  atraem, provocam,  rebolam bem ‘devarinho’. É a  infalível propagandas e seus variadíssimos produtos.

Calcinha, soutien meia taça e cinta liga com meia, assim era seu uniforme de trabalho. Sempre deixava a porta entreaberta. Não curtia se expor totalmente…

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À meia luz, ela se preparava. E como eram violentos os combates!  Para cada estocada bruta, o retorno era a suavidade e a delicadeza d’uma’flor.

 

 

 

Os Dois

Por: Wilson Albino Pereira

Capítulo 3

As Fontes e as Fontes

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A vida interiorana é cheia de carências. E, porque a lida no terreno exigia esforço redobrado, ele concluiu apenas o primeiro grau com muito sacrifício. Porém, de tanto ver os pais com as caras ‘enfiadas’ nos livros, imitou o gesto. Mais que hábito, ficara viciado em leitura. Levava os livros até para seus sonhos.IMG_0021

A casa era pequena. Boa parte da simplória moradia era ocupada por livros velhos, mofados, empoeirados, porém estimados. As pilhas e pilhas de livros eram resultado das permutas. O pai ficara amigo do proprietário do “Sebo Alfarrábios” – uma ‘lojona’ abarrotada de livros para todos os gostos.

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Dos 10 aos 23 anos o rapaz lera de tudo quanto lhe caiu nas mãos, entretanto, alguns escritores conquistaram espaço em sua alma e coração. Às vezes entregava quatro, cinco livros para conseguir qualquer um de: Jorge Amado, Vinícius de Morais, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto e Graciliano Ramos – seus prediletos. Mas mergulhara também em outras fontes – Asturias, Espanca, Kafka, Neruda, Austen, Poe, Marquez, Llosa, Gandhi, contudo, Bukowiski o arrebatara.

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Certa vez, comprou um livro e recebeu outro, por engano. O conteúdo era diferente. Tratava da vida sustentável. Mas, como nada acontece por acaso… Com o livro aprendera, dentre outras coisas, que o velho bambuzal existente no sítio era uma fonte inesgotável de riqueza. Descobriu como controlar pragas e tornar o terreno mais fértil utilizando para isso matéria orgânica em lugar de pesticidas. Porém, o aprendizado mais importante obtido, foi como manter as nascentes limpas e protegidas de qualquer contaminação.

 

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Ele amava aquele chão. Só deixava a propriedade quando a imaginação falhava e, o punho não mais dava conta da demanda corporal. Aí, ele abandonava as obrigações. Em tempos de voracidade carnal ele aluava, e, saia à caça de carinhos, ainda que… Tivesse de pagar para consegui-los.

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Os Dois

Por:Wilson Albino Pereira

Capítulo 2

ELA

20151031_194503Aos 14 anos ela trocou, obrigada pela mãe, a infância pelo trabalho em casa de família, foi seu prazer e calvário. A patroa era boa demais, em três anos a transformou em uma cozinheira de forno e fogão. Uma  guardiã dos segredos no preparo de doces e salgados. Porém, certa vez,  o desgraçado que se dizia patrão, praticou com ela a pior das violências.

O facínora fez o que quis, e, ainda a ameaçou caso ela piasse sobre o20151031_195355 fato. Mesmo assim, ela contou TU-DO! Primeiro para a patroa, que abriu a porta da sala e berrou: “Some, VAGABUNDA!”. Entretanto, ao contar para mãe, em lugar de apoio, defesa e clamor  por justiça, a mãe, tapou-lhe a boca e a surrou com uma vara de goiabeira.   E, porque teve sufocado o direito ao grito, a filha revoltou-se e, sem prenúncio, abraço ou benção, caiu no mundo… Despencou na vida.

img_20170128_071911_548.jpgNa estrada, primeiro deitou-se com um sujeito asqueroso. o pagamento pelo programa – um prato de comida. Mas… Depois teve mais fome e aconteceu outra vez… e, outra, e mais uma… Daí virou rotina. Por fim, abrir a porta do quarto ou as pernas, tornou-se vício da obrigação. Aí, ela conheceu a ferocidade dos homens.

 

 

… Continua no Capitulo 3.

Os Dois

Por: Wilson Albino Pereira

Capítulo 1

ELE

 

 

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O tempo ajeita tudo… Os mais vividos dizem que não há bem que dure para sempre ou mal que não tenha fim. Ele imaginou que não ia suportar a morte do pai e semanas depois, a morte da mãe. Filho único que era, herdou o “Sítio Sol Nascente” e mais meio mundo de tristezas e solidão. O falecimento dos velhos abriu-lhe uma cratera no peito.

 

 

IMG_6685Para ele, o que não roiu na época, estancou, desbotou, perdeu o cheiro e o gosto. Houve sim, um ‘adjutóriozinho’ pouco… Umas visitinhas minguadas, mas foi só. No fundo, no fundo ele bem sabia que – todo vivente têm lá seus compromissos deles.

 

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Depois das fatalidades ninguém pergunta mais nada. Parece até que uma pedra é colocada em cima dos desacertos. Enquanto esteve enlutado buscou alivio na bebida. E, em função disso, por pouco não se dana.

 

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O que tornou mesmo a vida suportável foram os trabalhos braçais e os mergulhos, ora no rio, ora nos livros. A vida seguiu seguindo.

 

 

 

 

 

…Continua no Capítulo 2

Na “Jega” na Praia, ou na Tia

Por Wilson Albino Pereira

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A coisa se deu mais ou menos assim: ocupei um lugar na fila para aguardar a chegada do ônibus, abri a mochila e saquei meu “Bukowski” capa dura 3 em 1, folhas branquinhas e letras graúdas. Quando mergulhei na leitura, ao meu lado alguém falou: “Moço, saí da cadeia ainda agora. Tô sem nem um ‘puto’ na carteira. Paga minha passagem pra mim?”.

Ao Transferir meu olhar, me deparei com um rosto pálido, ossudo e sério. Tudo bem, pago sim, falei e retomei a leitura. Outras duas vezes o rapaz voltou a me interromper. Aí percebi que ele estava mesmo era afim de conversar. Foi uma decisão difícil, porém fiz o processo inverso. Fechei meu “Bukowski” e o depositei no fundo da bolsa.

O leitor voraz saiu de cena e cedeu espaço ao jornalista, que desconfio, sempre habitou em mim. Perguntei nome, idade, motivo do encarceramento, como são as coisas lá atrás dos muros, e tal. O ônibus estacionou e com ele a dúvida do ex-presidiário promovido à fonte. “Noooossaaaa, você pergunta ‘pra’caraio’, cara, observou. Impressão sua, afirmei.“Você não é jornalista não, né?”, perguntou. Sou quase, respondi. Ferrô! completou ele.

Esclarecido que eu era estudante de jornalismo(na época), ele me perguntou se eu iria escrever sobre o papo. Respondi que sim. Ele pediu que eu preservasse seu nome. Prometi e cumpri. Ele ficou preso por oito anos, porque matou e traficou. Durante este tempo dividiu o sanitário com 31 colegas de cela. Tomou banhos só em água fria e diz ter sofrido injustiças várias. Diz que os representantes dos Direitos Humanos sabem de tudo e nada fazem.“Lá, na cadeia, afirma, quem tem mil reais na mão compra uma ‘jega’ (cama), quem não tem dorme na praia, (chão) quem tem queda pra suicida se enrosca numa tia (corda feita com trapos). Se tiver de voltar, prefiro morrer”, conclui o rapaz que tatuou bem grande no braço direito a palavra “liberdade”.