Início – Cacos De Um Memorial

 

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Sou o único filho de uma união à moda antiga, ou seja, machismo predominante e condescendência feminina.

Meus pais não estudaram mas, ainda assim, transbordavam conhecimentos. Eram donos de outros saberes. Foram eles meus primeiros professores.

Certa noite, ganhei de presente uma cartilha de nome “Caminho Suave.”  À luz da lamparina descobri uma coisa: o que une gente e livro tem nome – magia. Por isso considero a leitura minha cruz… minha luz… minha delícia.

Vivi em áreas rurais. Lugares longínquos de escolas. Só iniciei o primário, definitivamente, aos dez anos.

Em minha meninice houve períodos difíceis, épocas de privações alimentares, inclusive. Mas, em todo tempo, tive saciada minha fome de literatura. Contudo, quem de fato lançou a semente literária em meu coração foi uma professora de nome  Tania Soares França Martins . Ela formou leitores em minha turma quando pediu que sentíssemos os livros, e, que estes eram ótimos amigos… Ela falara a verdade.

Hoje, minha pele já não tem a mesma elasticidade d’antes, há rugas em torno dos meus olhos e minhas têmporas estão cobertas por cabelos grisalhos.

Já sei… já sei… enquanto muitos profissionais já estão com suas carreiras consolidadas, vidas estabilizadas e muitos sonhos realizados, eu ainda semeio letras nas brisas, cultivo  lavouras de narrativas e alegro-me ao ver germinar, florescer e frutificar  as minhas tantas histórias https://dusoutros.wordpress.com/.

Ah!!! E, por favor, sem essa de dizer: “no meu tempo…” Enquanto houver boas histórias para contar, meu espaço é aqui, e meu tempo,  agora.



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Os Dois

Por: Wilson Albino Pereira

Capítulo 4

A Delicadeza D’uma’Flor

Apesar de tudo, ela era tímida. Sentia vergonha e até nojo de si. Muitas vezes nem olhava nas caras dos caras que perguntavam a toda hora a mesmíssima coisa: “Quanto é?”

Resposta: “dez reais por uma chupa e três posições”.

Ela aprendeu na marra! Sabia como satisfazer os caprichos masculinos. Dizia que homem vira bicho na cama. Em alguns dias, chegava a fazer 25 programas a 10 reais cada. Diante dos sexos eretos, apontados para seu rosto, se algo lhe era perguntado, ela nada falava, apenas fechava os olhos, abria a boca e, os engolia.

Muitas vezes, no período menstrual, ela estocava dentro de si, chumaços de algodão para conter o sangramento e, apesar das cólicas e dores nos bicos dos seios, dava sequência nos serviços.

Vivia desesperada. Todo santo dia iniciava sua jornada com dívidas acumuladas. São R$ 100,00 pela diária, R$ 20 pelo marmitex, mais R$ 15 pelos preservativos e, por fim, R$ 10,00 por um lençol gasto.

O ambiente é pesado no puteiro. É muito pesado. Nos corredores apertados todo cuidado é pouco. A qualquer momento a carteira pode ser levada e o dono nem sentir.  O mulheril habitante da zona é variado demais. Tem loiras naturais ou negras ou mulatas. Tem altas ou quase anãs; Tem magras ou obesas… Há quem diga que já topou até com puta asiática e europeia.

Algumas moças ficam totalmente nuas. Tentam olhar nos olhos dos homens, mas estes só miram peitos, bundas, ou os centros pulsantes das coxas… Há moças que empunham espelhos e ficam de quatro, viradas de costas para as portas. Quando percebem o reflexo do fregue em potencial,  elas  atraem, provocam,  rebolam bem ‘devarinho’. É a  infalível propagandas e seus variadíssimos produtos.

Calcinha, soutien meia taça e cinta liga com meia, assim era seu uniforme de trabalho. Sempre deixava a porta entreaberta. Não curtia se expor totalmente…

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À meia luz, ela se preparava. E como eram violentos os combates!  Para cada estocada bruta, o retorno era a suavidade e a delicadeza d’uma’flor.

 

 

 

Os Dois

Por: Wilson Albino Pereira

Capítulo 3

As Fontes e as Fontes

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A vida interiorana é cheia de carências. E, porque a lida no terreno exigia esforço redobrado, ele concluiu apenas o primeiro grau com muito sacrifício. Porém, de tanto ver os pais com as caras ‘enfiadas’ nos livros, imitou o gesto. Mais que hábito, ficara viciado em leitura. Levava os livros até para seus sonhos.IMG_0021

A casa era pequena. Boa parte da simplória moradia era ocupada por livros velhos, mofados, empoeirados, porém estimados. As pilhas e pilhas de livros eram resultado das permutas. O pai ficara amigo do proprietário do “Sebo Alfarrábios” – uma ‘lojona’ abarrotada de livros para todos os gostos.

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Dos 10 aos 23 anos o rapaz lera de tudo quanto lhe caiu nas mãos, entretanto, alguns escritores conquistaram espaço em sua alma e coração. Às vezes entregava quatro, cinco livros para conseguir qualquer um de: Jorge Amado, Vinícius de Morais, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto e Graciliano Ramos – seus prediletos. Mas mergulhara também em outras fontes – Asturias, Espanca, Kafka, Neruda, Austen, Poe, Marquez, Llosa, Gandhi, contudo, Bukowiski o arrebatara.

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Certa vez, comprou um livro e recebeu outro, por engano. O conteúdo era diferente. Tratava da vida sustentável. Mas, como nada acontece por acaso… Com o livro aprendera, dentre outras coisas, que o velho bambuzal existente no sítio era uma fonte inesgotável de riqueza. Descobriu como controlar pragas e tornar o terreno mais fértil utilizando para isso matéria orgânica em lugar de pesticidas. Porém, o aprendizado mais importante obtido, foi como manter as nascentes limpas e protegidas de qualquer contaminação.

 

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Ele amava aquele chão. Só deixava a propriedade quando a imaginação falhava e, o punho não mais dava conta da demanda corporal. Aí, ele abandonava as obrigações. Em tempos de voracidade carnal ele aluava, e, saia à caça de carinhos, ainda que… Tivesse de pagar para consegui-los.

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Os Dois

Por:Wilson Albino Pereira

Capítulo 2

ELA

20151031_194503Aos 14 anos ela trocou, obrigada pela mãe, a infância pelo trabalho em casa de família, foi seu prazer e calvário. A patroa era boa demais, em três anos a transformou em uma cozinheira de forno e fogão. Uma  guardiã dos segredos no preparo de doces e salgados. Porém, certa vez,  o desgraçado que se dizia patrão, praticou com ela a pior das violências.

O facínora fez o que quis, e, ainda a ameaçou caso ela piasse sobre o20151031_195355 fato. Mesmo assim, ela contou TU-DO! Primeiro para a patroa, que abriu a porta da sala e berrou: “Some, VAGABUNDA!”. Entretanto, ao contar para mãe, em lugar de apoio, defesa e clamor  por justiça, a mãe, tapou-lhe a boca e a surrou com uma vara de goiabeira.   E, porque teve sufocado o direito ao grito, a filha revoltou-se e, sem prenúncio, abraço ou benção, caiu no mundo… Despencou na vida.

img_20170128_071911_548.jpgNa estrada, primeiro deitou-se com um sujeito asqueroso. o pagamento pelo programa – um prato de comida. Mas… Depois teve mais fome e aconteceu outra vez… e, outra, e mais uma… Daí virou rotina. Por fim, abrir a porta do quarto ou as pernas, tornou-se vício da obrigação. Aí, ela conheceu a ferocidade dos homens.

 

 

… Continua no Capitulo 3.

Os Dois

Por: Wilson Albino Pereira

Capítulo 1

ELE

 

 

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O tempo ajeita tudo… Os mais vividos dizem que não há bem que dure para sempre ou mal que não tenha fim. Ele imaginou que não ia suportar a morte do pai e semanas depois, a morte da mãe. Filho único que era, herdou o “Sítio Sol Nascente” e mais meio mundo de tristezas e solidão. O falecimento dos velhos abriu-lhe uma cratera no peito.

 

 

IMG_6685Para ele, o que não roiu na época, estancou, desbotou, perdeu o cheiro e o gosto. Houve sim, um ‘adjutóriozinho’ pouco… Umas visitinhas minguadas, mas foi só. No fundo, no fundo ele bem sabia que – todo vivente têm lá seus compromissos deles.

 

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Depois das fatalidades ninguém pergunta mais nada. Parece até que uma pedra é colocada em cima dos desacertos. Enquanto esteve enlutado buscou alivio na bebida. E, em função disso, por pouco não se dana.

 

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O que tornou mesmo a vida suportável foram os trabalhos braçais e os mergulhos, ora no rio, ora nos livros. A vida seguiu seguindo.

 

 

 

 

 

…Continua no Capítulo 2

Na “Jega” na Praia, ou na Tia

Por Wilson Albino Pereira

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A coisa se deu mais ou menos assim: ocupei um lugar na fila para aguardar a chegada do ônibus, abri a mochila e saquei meu “Bukowski” capa dura 3 em 1, folhas branquinhas e letras graúdas. Quando mergulhei na leitura, ao meu lado alguém falou: “Moço, saí da cadeia ainda agora. Tô sem nem um ‘puto’ na carteira. Paga minha passagem pra mim?”.

Ao Transferir meu olhar, me deparei com um rosto pálido, ossudo e sério. Tudo bem, pago sim, falei e retomei a leitura. Outras duas vezes o rapaz voltou a me interromper. Aí percebi que ele estava mesmo era afim de conversar. Foi uma decisão difícil, porém fiz o processo inverso. Fechei meu “Bukowski” e o depositei no fundo da bolsa.

O leitor voraz saiu de cena e cedeu espaço ao jornalista, que desconfio, sempre habitou em mim. Perguntei nome, idade, motivo do encarceramento, como são as coisas lá atrás dos muros, e tal. O ônibus estacionou e com ele a dúvida do ex-presidiário promovido à fonte. “Noooossaaaa, você pergunta ‘pra’caraio’, cara, observou. Impressão sua, afirmei.“Você não é jornalista não, né?”, perguntou. Sou quase, respondi. Ferrô! completou ele.

Esclarecido que eu era estudante de jornalismo(na época), ele me perguntou se eu iria escrever sobre o papo. Respondi que sim. Ele pediu que eu preservasse seu nome. Prometi e cumpri. Ele ficou preso por oito anos, porque matou e traficou. Durante este tempo dividiu o sanitário com 31 colegas de cela. Tomou banhos só em água fria e diz ter sofrido injustiças várias. Diz que os representantes dos Direitos Humanos sabem de tudo e nada fazem.“Lá, na cadeia, afirma, quem tem mil reais na mão compra uma ‘jega’ (cama), quem não tem dorme na praia, (chão) quem tem queda pra suicida se enrosca numa tia (corda feita com trapos). Se tiver de voltar, prefiro morrer”, conclui o rapaz que tatuou bem grande no braço direito a palavra “liberdade”.

 

 

 

Desejos

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Os Amantes – René Magritte

Por: Wilson Albino Pereira

“Eu sonhei encontrar uma mulher, num apartamento vazio, um apartamento de ninguém, um lugar sem personalidade e fazer amor com ela sem saber quem é. Queria repetir este ato sexual à exaustão”. Esta fala do cineasta Bernardo Bertolucci é a resposta à pergunta: como surgiu a ideia para realização de “O último tango em Paris?”

Em 14 de outubro de 2016, o filme, eleito pelos críticos como um dos mais eróticos e poderosos da história do cinema, completará 44 anos. A primeira exibição da obra foi no encerramento do Festival de Cinema de Nova York, em 1972. Ao término da sessão, o diretor foi aclamado. No Brasil, o filme foi censurado. A estreia só foi possível dez anos mais tarde.

Exatos dois minutos e quinze segundos é o tempo que dura a primeira cena em que Paul e Jeanne, respectivamente, Marlon Brando e Maria Schneider, parecem atordoados de tesão. (E as outras cenas, as mais longas, depois? O que dizer sobre elas?) Se, na vida real, não havia paixão entre os atores, em cena estavam afinados. Difícil dizer se o que rolou foi apenas a representação de uma “transa casual”. Resfolegantes, gementes e inflamados, ambos ateiam fogo também nos espectadores. 

A beleza do filme não está concentrada apenas nos três elementos – um homem, uma mulher e um apartamento caótico. O encanto da obra não é só o jogo sexual fundamentado na liberdade com preservação do anonimato mútuo. A magia do longa-metragem, definitivamente, é maior que a polêmica envolvendo a manteiga, que além de deixar o pão mais saboroso, no filme serve para outro fim muito mais criativo – imagine!

A grandiosidade desta obra está representada pelo conjunto. Ora no enquadramento, ora na linguagem, orana delicadeza dos gestos ora na violência dos atos, ora em Eros, ora em Psique, ora em cores quentes ora em cores ocres, etc. Afora tudo isso, há um ataque direto ao falso moralismo e ao conservadorismo católico. Em “O último tango em Paris, Bertolucci preparou o terreno para obras ainda mais ousadas, é o caso de O Império dos Sentidosde 1976, do diretor Nagisa Oshima. Abro aqui um parêntese: nos dias atuais, com a facilidade de acessar tudo e muito e além, os filmes citados parecem até ingênuos.

A Objetividade Nossa de Cada Dia

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Por: Wilson Albino Pereira.

Desde que ingressei na faculdade, descobri com a ajuda de livros, aulas e Mestres, que dentre os requisitos para ser jornalista, é importante saber contar histórias e dominar as tecnologias diversas. Ademais, tem os compromissos com a verdade, ética e objetividade e “pa, pa, pa”.

Mas será que as perguntas (descritores) “ O que?, Quem?, Quando?, Onde?, Como? e Por quê?”dão conta de reunir respostas suficientes para esclarecer assuntos mais complexos? Será que a objetividade, um dos considerados pilares do jornalismo, por causa disso, não fica em xeque? “Saber manejar técnicas narrativas” talvez promova um equilíbrio entre os variados níveis de linguagem.

Tais dúvidas surgiram depois que entrevistei uma garota de programa que saiu da Bahia e de zona em zona chegou à Capital das Alterosas. Em 20 min. de conversa sem reservas, lacunas ou reticências falou-me de tudo: de psicotrópicos que toma para dormir, dos 30 programas que faz diariamente,  relatou-me também sobre calotes, agressões verbais e físicas que sofre, contou-me sobre a ferocidade de alguns homens durante o ato sexual, disse-me inclusive que fora violentada aos 14 anos pelo próprio pai, e que fugira de casa aos 16, depois resistir à violência sexual praticada pelo homem que devia defender-lhe ao invés de surrá-la. A mulher também revelou-me seus maiores sonhos – “deixar de ser mulher da vida e formar família”. Mas… Estes fatos… São recorrentes na vida de quem é puta. As repostas sufocam as perguntas (os descritores). Trocando em miúdos, fogem à objetividade.