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Deflagração poética

Por:Wilson Albino Pereira

Já teria assunto suficiente se fosse só para escrever sobre os sentimentos provocados pelo tema musical do filme italiano “O Carteiro e o Poeta”, de l994, dirigido por Michael Radford, e que tem em seu elenco, Philippe Noiret, Massimo troisi e Maria Grazia Cucinotta. Além do período em que Pablo Nerudo viveu exilado por motivos políticos na Itália, o filme aborda outros temas.
Há uma série de assuntos tratados neste drama. A liberdade, a política, o valor da poesia, a luta por direitos sindicais, o desejo de amar e se sentir amado, são questões de importância e interesse universal. Entretanto, tão relevante quanto os anseios humanos são os segredos existentes na força das palavras. E, pelo poder dos vocábulos que o poeta transforma a vida do carteiro.
Por meio das palavras, Mário, o carteiro consegue expressar quanto amor sentia pela bela Beatrice. No filme e porque não dizer na vida, a poesia representa o renovo. A partir do contato de Mário com as metáforas e com outras figuras de linguagem, as coisas permaneceram as mesmas, mas o olhar de Mário se renova, e sob a ótica da poesia a vida em si ganha novo rumo.
O ritmo de produção industrial destes tempos modernos não colabora na educação do olhar. O homem é capaz de inventar formulas, elaborar teorias e decifrar enigmas, mas padece por causa de depressões e outros transtornos. Talvez, quem sabe, tenha chegado a hora de tirar o pé do acelerador e valorizar outras coisas. Por exemplo, uma mar de emoções libertas na leitura de um verso.

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Estígma

Por:Wilson Albino Pereira

Ele rasga o solo, e no pó deposita inférteis sementes. Tão mortas que se mil vezes plantadas, mil vezes não germinam. Acha natural que em certas noites, uns maus sonhos lhe torturem o juízo. Afinal, tem na cabeça uma coletânea de lavouras vãs.
De segunda a sábado, ainda que chova sem trégua ou pareça o sol ainda mais ardente que o habitual, o especialista no cultivo de sementes nulas, oferece de si o máximo, mesmo sabendo que receberá os mínimos: salário e reconhecimento. É consciente de que, para ser agricultor carece de ter conhecimento e coragem, mas antes de tudo, vocação.
Sempre afirma que só vai haver justiça no mundo quando as leis e a morte forem similares. Na hora do vamos ver, o certo seria ignorar cor, credo, sexo, religião ou posição social. Era para ser assim: simples como pingar um “i” ou cortar um “t” e pronto.
Em sua profissão, as materializações do preconceito ocorrem por meio de um olhar enviesado, ou um silêncio capaz de machucar os ouvidos, ou mesmo a ausência total de gestos . Um sem número de vezes, na intenção de cumprimentar a outrem, sua mão ficou estendida, no “vácuo”. Parece que pratica o pior dos crimes quando se apresenta: Prazer, sou Cláudio, o coveiro.

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A Força Das Palavras

Por: Wilson Albino Pereira
Apenas 25 minutos. É este o tempo de duração do curta-metragem “Imminente Luna”. Baseado em um conto de Moacyr Scliar, gravado em 35mm, com roteiro de Marcos Vinícius Camargos e direção de Maurício Lanzara, a obra foi lançada em 2000 e abre espaço para muitas interpretações por causa da riqueza de detalhes.
Percebe-se que a solidão é apenas um dos vários temas tratados no filme. Isto fica evidente quando um pai (interpretado por Luiz Mello) dialoga com seu filho (Bruno Alves) sobre Ulisses e Ciclope, personagens de Odisseia, um poema escrito por Homero no século 9 antes de Cristo e, que conta os feitos de Odisseu em regresso ao lar.
Depois que o pai narra parte da atribulada viagem do herói grego, o filho desenha o sanguinário ciclope. Então, a câmera foca no desenho, mais precisamente no olho do monstro mitológico. Daí por diante é comum identificar elementos unitários. Por exemplo: um gigante, uma caverna, um olho, um homem que se chama Ninguém.
Na sequência a câmera capta imagens de um ambiente sombrio. A atenção do espectador é transferida para um quarto de asilo, ali, objeto nenhum tem par. Há uma só xícara, um só quadro, uma só cadeira, uma só almofada, um só troféu… Quando Matias (Raul Cortez) entra em cena e diz – “a solidão acabou, amigo”, ouve de Ernesto (Emílio Di Biasi), até então único ocupante do quarto: – “quero ficar sozinho”.
Matias, para passar o tempo, informa ao amigo Ernesto, que é acamado, tudo o que “vê” através da única janela existente no quarto. A solidão se faz presente em todos os relatos. Matias narra a história de um menino que, está sentado na sarjeta e chora a morte do avô. Depois relata sobre uma esposa que vai embora e deixa o marido espera-la eternamente. Quando Matias pronuncia a palavra abandono, a câmera foca em uma gaiola cheia de cartas, correspondências que ele nunca enviara. Matias revela que não tinha familiares.
A surpresa maior é a vista proporcionada pela única janela do quarto… Só assistindo para saber.

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A Intimidade do Chão de Fábrica

Por: Wilson Albino Pereira

Sob a direção de Leon Hirszman e baseado na peça de Gianfrancesco Guarnieri produziu-se uma jóia cinematográfica: Eles não usam Black Tie. No elenco, Fernanda Monte Negro, Gianfrancesco Guarnieri, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Milton Gonçalves, Francisco Milani entre outros. O filme venceu em 1981, todos festivais na França, Itália, Cuba, Espanha, Colômbia e Brasil.
O gênero é drama, tem 120 minutos de duração e promove uma gama de debates devido os múltiplos assuntos imbricados na mesma obra. O filme traz para discussão assuntos importantes, como a formação de caráter do indivíduo que, nasce no seio da família nuclear, aquela constituída por pai, mãe e filhos. Também são discutidas questões relacionadas à gravidez não planejada e aborto.
Outros temas contextualizados no filme são estes: as péssimas condições de moradia nas favelas sem qualquer infraestrutura, a falta de dinheiro por causa da recessão, a violência urbana representada nos latrocínios, a industrialização e o poder capital das empresas multinacionais, a tortura física praticada pela polícia contra trabalhadores e moradores das comunidades carentes, e, talvez o ponto mais importante – a dialética entre membros da classe trabalhadora considerada “chão de fabrica.”
O profissionalismo do elenco enriquece os personagens envolvidos nos temas de relevância universal. O sindicalismo, por exemplo, que tem a greve como uma forma essencial de luta do proletariado, no filme, sofre a influência das paixões. Nascem, a partir disso, sucessivos embates, nos quais a alienação e a coletividade estão presentes todo o tempo. Há conquistas no filme? Sim. Mas, tal qual na vida real, às vezes, quem promove transformações ao semear esperança de que dias melhores virão, se sacrifica, paga com a própria vida tais ousadias.

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A Sua Bênção, Madrinha Minha

Certa vez, Maria das Graças, a madrinha minha, passou uma temporada em minha casa. Três meses, se tanto. Não me recordo de alegria maior, JU-RO. Era o amor residindo lá em casa. Guardo as melhores lembranças deste período. Aí… A vida seguiu. E, a madrinha minha tornou-se mãe e depois avó. Aí… Os loucos tempos modernos não promoveram a arte do encontro. Porém, a última vez que me vi refletido naquele carinhoso olhar, um mar de ternura invadiu-me. Disse quase tudo que precisava ser dito. Não falei o resto porque não achei palavra que expressasse o amor ‘prá lá de maior de gigante’ que sinto por ela. Aí… Vi aflorar diante de minha gratidão o sorriso… Iguaizinh como d’antes. Por fim Ó: Me veio u’a nostalgia dãnada… “Tempo bão/ Não volta mais”.

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Em Louvor de Jorge

Por: Wilson Albino Pereira
O ônibus estacionou, ingressei. E, tão logo transpus a roleta, ocupei um lugar e saquei um livro. É rotina, levo meus livros até para meus sonhos. Antes que eu iniciasse a leitura, uma mulher que estava sentada ao meu lado exteriorizou um pensamento: “Jorge Amado? Ai, que preguiça!”
Cogitei a hipótese de ignorar as duas, a opinião e a pessoa que a emitira, mas ao invés disso, “me vesti e me armei com as roupas e as armas de Jorge”. Perguntei: “qual é problema, hen?”, surpresa com minha reação, ela respondeu minha pergunta com outras: “Ãh?” “Problema?” Notei que nem ela havia se dado conta de que fora preconceituosa.
Não demorou nadinha até eu principiar um discurso em louvor de Jorge Amado. Apoderei-me da palavra e não deixei vãos que permitissem confrontos. Em meia hora defendi que Jorge Amado, em seus romances, preocupara-se em eternizar tipos marginalizados, dentre os quais, prostitutas, alcóolatras, loucos, analfabetos etc
Há críticos que não curtem a literatura de Jorge Amado – paciência, só lamento. Contudo, ninguém pode negar que, este baiano nascido em 1912 fora perseguido, exilado e preso por causa de seu posicionamento político. Ninguém pode negar que ele denunciou barbáries praticadas pelos coronéis latifundiários das fazendas cacaueiras contra os trabalhadores rurais e seus familiares mantidos na mais absoluta miséria. Os Relatos de crimes como estupros, incestos, homicídios, compra e venda de gente, abuso de autoridade, torturas físicas e psicológicas, roubos, invasões de divisas foram traduzidos para mais de trinta idiomas.
Quando tomei fôlego, também afirmei que Jorge Amado fora o primeiro romancista a escrever sobre crianças que viviam nas ruas de Salvador em situação de risco social, “veja bem”, falei: “isto, lá em 1937, no livro Capitães da Areia”, Eurídice Campos, professora pós-graduada em filosofia pela PUC-Minas, suspirou fundou e exteriorizou outro pensamento: “Ai que saco. Não sei pra que fui tocar nesse assunto, viu?!!

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Um Buzão pra África?

Por: Wilson Albino Pereira

Um dia, no centro de Belo Horizonte, li “ÁFRICA” no letreiro de um ônibus. Endoidei! Meu Deus, pensei, como é que um coletivo saído de Beagá vai parar lá onde Judas perdeu o juízo? Porém, meu espanto chegou ao fim quando o “buzão” estacionou para embarque. O destino era FÁBRICA, não África como imaginara. Às vezes, ainda comento a respeito disso com alguns amigos e rimos muito. Daí, explico as circunstâncias do ocorrido – passava de 23h, e,eu estavava acordado desde 4h da madruga, o ponto estava apinhado, chovia, eu estava faminto, e o centro, para variar, tornara-se um pandemônio… É necessário acrescentar, além de tudo isso, cinco graus e meio de miopia em cada olho. A propósito: visualizar pedaços de tardes e noites como sendo, respectivamente, doses generosas de Claude Monet ou Vincent Van Gogh é uma das recompensas  por ser míope. Outra glória é a seguinte: se desejo  que alguém suma, imediatamente, das minhas vistas, basta tirar os óculos…