Início – Cacos De Um Memorial

 

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Sou o único filho de uma união à moda antiga, ou seja, machismo predominante e condescendência feminina.

Meus pais não estudaram, mas ainda assim, transbordavam conhecimentos. Eram donos de outros saberes. Foram eles meus primeiros professores.

Certa noite, ganhei de presente uma cartilha de nome “Caminho Suave.”  À luz da lamparina descobri uma coisa: o que une gente e livro tem nome – magia. Por isso considero a leitura minha cruz… minha luz… minha delícia.

Vivi em áreas rurais. Lugares longínquos de escolas. Só iniciei o primário, definitivamente, aos dez anos.

Em minha meninice houve períodos difíceis, épocas de privações alimentares, inclusive. Mas, em todo tempo, tive saciada minha fome de literatura. Contudo, quem de fato lançou a semente literária em meu coração foi uma professora de nome  Tania Soares França Martins . Ela formou leitores em minha turma quando pediu que sentíssemos os livros, e, que estes eram ótimos amigos… Ela falara a verdade.

Hoje, minha pele já não tem a mesma elasticidade d’antes, há rugas em torno dos meus olhos e minhas têmporas estão cobertas por cabelos grisalhos.

Já sei… já sei… enquanto muitos profissionais já estão com suas carreiras consolidadas, vidas estabilizadas e muitos sonhos realizados, eu ainda semeio letras nas brisas, cultivo  lavouras de narrativas e alegro-me ao ver germinar, florescer e frutificar  as minhas tantas histórias https://dusoutros.wordpress.com/.

Ah!!! E, por favor, sem essa de dizer: “no meu tempo…” Enquanto houver boas histórias para contar, meu espaço é aqui, e meu tempo,  agora.



Os Dois

Capítulo 6

Labaredas

A primeira vez que os dois se viram refletidos um no olhar do outro também foi a primeira vez que se sentiram num braseiro. Pensaram em vão que era por causa do tempo abafadiço, mormacento… Bem-aventurado engano.

Mutuamente os corações aceleraram, as bocas ficaram secas e os olhares vidraram. Brotaram nas mentes os bentos pecados. Em outras palavras, era paixão, aquela labareda que, uma vez alastrada incendeia a alma e o resto.

Enquanto se perdia e se achava naquele negríssimo olhar, falou consigo: “Quero essa mulher só pra mim, Deus”.

Ela fingia tranquilidade… Mas, estava à beira do desespero sem entender o sentimento que sentia. E, quando ela se preparou para repetir a mais rotineira das respostas, ou seja: “o custo do programa etc, etc,” aí, de supetão ele perguntou:

Quer morar comigo???

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Os Dois

Capítulo 5 

A visão: Era Anjo ou Demônio?

Ele seguiu o conselho do padrinho, tomou a benção e partiu. Na velha mochila havia quase nada. Porém, a cabeça fervilhava… Eram tantas dúvidas, tantos medos. Pensou em morrer. Imaginou-se em um caixão e sentiu um calafrio.

Entrou no ônibus e seguiu rumo ao centro da cidade. Sentou-se em um banco, acompanhou o voo de um pombo vagabundo que foi pousar na janela da zona. Tanto desacerto havia ocorrido que ele havia perdido as vontades todas.

Levantou-se e rumou para o velho casarão azul colonial… Reduto das putas. Lugar temido pelas as esposas e idolatrado por muitos maridos. Sem expectativa subiu as escadas. Homens e mulheres dançavam  agarradinhos, se esfregando e se controlando. tentavam para não se invadir uns aos outros no meio do abafado salão. As fumaças do cigarro e do incenso de sândalo pesavam o ar.

Ele tinha a mesma mania besta dos homens – parar e ficar olhando para os corpos nus banhados de luzes, ora vermelhas, ora azuis. Entretanto parou petrificado  diante da primeira porta.

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Os Dois

Por: Wilson Albino Pereira

Capítulo 4

A Delicadeza D’uma’Flor

Apesar de tudo, ela era tímida. Sentia vergonha e até nojo de si. Muitas vezes nem olhava nas caras dos caras que perguntavam a toda hora a mesmíssima coisa: “Quanto é?”

Resposta: “dez reais por uma chupa e três posições”.

Ela aprendeu na marra! Sabia como satisfazer os caprichos masculinos. Dizia que homem vira bicho na cama. Em alguns dias, chegava a fazer 25 programas a 10 reais cada. Diante dos sexos eretos, apontados para seu rosto, se algo lhe era perguntado, ela nada falava, apenas fechava os olhos, abria a boca e, os engolia.

Muitas vezes, no período menstrual, ela estocava dentro de si, chumaços de algodão para conter o sangramento e, apesar das cólicas e dores nos bicos dos seios, dava sequência nos serviços.

Vivia desesperada. Todo santo dia iniciava sua jornada com dívidas acumuladas. São R$ 100,00 pela diária, R$ 20 pelo marmitex, mais R$ 15 pelos preservativos e, por fim, R$ 10,00 por um lençol gasto.

O ambiente é pesado no puteiro. É muito pesado. Nos corredores apertados todo cuidado é pouco. A qualquer momento a carteira pode ser levada e o dono nem sentir.  O mulheril habitante da zona é variado demais. Tem loiras naturais ou negras ou mulatas. Tem altas ou quase anãs; Tem magras ou obesas… Há quem diga que já topou até com puta asiática e europeia.

Algumas moças ficam totalmente nuas. Tentam olhar nos olhos dos homens, mas estes só miram peitos, bundas, ou os centros pulsantes das coxas… Há moças que empunham espelhos e ficam de quatro, viradas de costas para as portas. Quando percebem o reflexo do fregue em potencial,  elas  atraem, provocam,  rebolam bem ‘devarinho’. É a  infalível propagandas e seus variadíssimos produtos.

Calcinha, soutien meia taça e cinta liga com meia, assim era seu uniforme de trabalho. Sempre deixava a porta entreaberta. Não curtia se expor totalmente…

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À meia luz, ela se preparava. E como eram violentos os combates!  Para cada estocada bruta, o retorno era a suavidade e a delicadeza d’uma’flor.

 

 

 

Os Dois

Por: Wilson Albino Pereira

Capítulo 3

As Fontes e as Fontes

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A vida interiorana é cheia de carências. E, porque a lida no terreno exigia esforço redobrado, ele concluiu apenas o primeiro grau com muito sacrifício. Porém, de tanto ver os pais com as caras ‘enfiadas’ nos livros, imitou o gesto. Mais que hábito, ficara viciado em leitura. Levava os livros até para seus sonhos.IMG_0021

A casa era pequena. Boa parte da simplória moradia era ocupada por livros velhos, mofados, empoeirados, porém estimados. As pilhas e pilhas de livros eram resultado das permutas. O pai ficara amigo do proprietário do “Sebo Alfarrábios” – uma ‘lojona’ abarrotada de livros para todos os gostos.

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Dos 10 aos 23 anos o rapaz lera de tudo quanto lhe caiu nas mãos, entretanto, alguns escritores conquistaram espaço em sua alma e coração. Às vezes entregava quatro, cinco livros para conseguir qualquer um de: Jorge Amado, Vinícius de Morais, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, José Lins do Rego, João Cabral de Melo Neto e Graciliano Ramos – seus prediletos. Mas mergulhara também em outras fontes – Asturias, Espanca, Kafka, Neruda, Austen, Poe, Marquez, Llosa, Gandhi, contudo, Bukowiski o arrebatara.

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Certa vez, comprou um livro e recebeu outro, por engano. O conteúdo era diferente. Tratava da vida sustentável. Mas, como nada acontece por acaso… Com o livro aprendera, dentre outras coisas, que o velho bambuzal existente no sítio era uma fonte inesgotável de riqueza. Descobriu como controlar pragas e tornar o terreno mais fértil utilizando para isso matéria orgânica em lugar de pesticidas. Porém, o aprendizado mais importante obtido, foi como manter as nascentes limpas e protegidas de qualquer contaminação.

 

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Ele amava aquele chão. Só deixava a propriedade quando a imaginação falhava e, o punho não mais dava conta da demanda corporal. Aí, ele abandonava as obrigações. Em tempos de voracidade carnal ele aluava, e, saia à caça de carinhos, ainda que… Tivesse de pagar para consegui-los.

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Os Dois

Por:Wilson Albino Pereira

Capítulo 2

ELA

20151031_194503Aos 14 anos ela trocou, obrigada pela mãe, a infância pelo trabalho em casa de família, foi seu prazer e calvário. A patroa era boa demais, em três anos a transformou em uma cozinheira de forno e fogão. Uma  guardiã dos segredos no preparo de doces e salgados. Porém, certa vez,  o desgraçado que se dizia patrão, praticou com ela a pior das violências.

O facínora fez o que quis, e, ainda a ameaçou caso ela piasse sobre o20151031_195355 fato. Mesmo assim, ela contou TU-DO! Primeiro para a patroa, que abriu a porta da sala e berrou: “Some, VAGABUNDA!”. Entretanto, ao contar para mãe, em lugar de apoio, defesa e clamor  por justiça, a mãe, tapou-lhe a boca e a surrou com uma vara de goiabeira.   E, porque teve sufocado o direito ao grito, a filha revoltou-se e, sem prenúncio, abraço ou benção, caiu no mundo… Despencou na vida.

img_20170128_071911_548.jpgNa estrada, primeiro deitou-se com um sujeito asqueroso. o pagamento pelo programa – um prato de comida. Mas… Depois teve mais fome e aconteceu outra vez… e, outra, e mais uma… Daí virou rotina. Por fim, abrir a porta do quarto ou as pernas, tornou-se vício da obrigação. Aí, ela conheceu a ferocidade dos homens.

 

 

… Continua no Capitulo 3.

Os Dois

Por: Wilson Albino Pereira

Capítulo 1

ELE

 

 

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O tempo ajeita tudo… Os mais vividos dizem que não há bem que dure para sempre ou mal que não tenha fim. Ele imaginou que não ia suportar a morte do pai e semanas depois, a morte da mãe. Filho único que era, herdou o “Sítio Sol Nascente” e mais meio mundo de tristezas e solidão. O falecimento dos velhos abriu-lhe uma cratera no peito.

 

 

IMG_6685Para ele, o que não roiu na época, estancou, desbotou, perdeu o cheiro e o gosto. Houve sim, um ‘adjutóriozinho’ pouco… Umas visitinhas minguadas, mas foi só. No fundo, no fundo ele bem sabia que – todo vivente têm lá seus compromissos deles.

 

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Depois das fatalidades ninguém pergunta mais nada. Parece até que uma pedra é colocada em cima dos desacertos. Enquanto esteve enlutado buscou alivio na bebida. E, em função disso, por pouco não se dana.

 

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O que tornou mesmo a vida suportável foram os trabalhos braçais e os mergulhos, ora no rio, ora nos livros. A vida seguiu seguindo.

 

 

 

 

 

…Continua no Capítulo 2

Na “Jega” na Praia, ou na Tia

Por Wilson Albino Pereira

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A coisa se deu mais ou menos assim: ocupei um lugar na fila para aguardar a chegada do ônibus, abri a mochila e saquei meu “Bukowski” capa dura 3 em 1, folhas branquinhas e letras graúdas. Quando mergulhei na leitura, ao meu lado alguém falou: “Moço, saí da cadeia ainda agora. Tô sem nem um ‘puto’ na carteira. Paga minha passagem pra mim?”.

Ao Transferir meu olhar, me deparei com um rosto pálido, ossudo e sério. Tudo bem, pago sim, falei e retomei a leitura. Outras duas vezes o rapaz voltou a me interromper. Aí percebi que ele estava mesmo era afim de conversar. Foi uma decisão difícil, porém fiz o processo inverso. Fechei meu “Bukowski” e o depositei no fundo da bolsa.

O leitor voraz saiu de cena e cedeu espaço ao jornalista, que desconfio, sempre habitou em mim. Perguntei nome, idade, motivo do encarceramento, como são as coisas lá atrás dos muros, e tal. O ônibus estacionou e com ele a dúvida do ex-presidiário promovido à fonte. “Noooossaaaa, você pergunta ‘pra’caraio’, cara, observou. Impressão sua, afirmei.“Você não é jornalista não, né?”, perguntou. Sou quase, respondi. Ferrô! completou ele.

Esclarecido que eu era estudante de jornalismo(na época), ele me perguntou se eu iria escrever sobre o papo. Respondi que sim. Ele pediu que eu preservasse seu nome. Prometi e cumpri. Ele ficou preso por oito anos, porque matou e traficou. Durante este tempo dividiu o sanitário com 31 colegas de cela. Tomou banhos só em água fria e diz ter sofrido injustiças várias. Diz que os representantes dos Direitos Humanos sabem de tudo e nada fazem.“Lá, na cadeia, afirma, quem tem mil reais na mão compra uma ‘jega’ (cama), quem não tem dorme na praia, (chão) quem tem queda pra suicida se enrosca numa tia (corda feita com trapos). Se tiver de voltar, prefiro morrer”, conclui o rapaz que tatuou bem grande no braço direito a palavra “liberdade”.

 

 

 

Desejos

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Os Amantes – René Magritte

Por: Wilson Albino Pereira

“Eu sonhei encontrar uma mulher, num apartamento vazio, um apartamento de ninguém, um lugar sem personalidade e fazer amor com ela sem saber quem é. Queria repetir este ato sexual à exaustão”. Esta fala do cineasta Bernardo Bertolucci é a resposta à pergunta: como surgiu a ideia para realização de “O último tango em Paris?”

Em 14 de outubro de 2016, o filme, eleito pelos críticos como um dos mais eróticos e poderosos da história do cinema, completará 44 anos. A primeira exibição da obra foi no encerramento do Festival de Cinema de Nova York, em 1972. Ao término da sessão, o diretor foi aclamado. No Brasil, o filme foi censurado. A estreia só foi possível dez anos mais tarde.

Exatos dois minutos e quinze segundos é o tempo que dura a primeira cena em que Paul e Jeanne, respectivamente, Marlon Brando e Maria Schneider, parecem atordoados de tesão. (E as outras cenas, as mais longas, depois? O que dizer sobre elas?) Se, na vida real, não havia paixão entre os atores, em cena estavam afinados. Difícil dizer se o que rolou foi apenas a representação de uma “transa casual”. Resfolegantes, gementes e inflamados, ambos ateiam fogo também nos espectadores. 

A beleza do filme não está concentrada apenas nos três elementos – um homem, uma mulher e um apartamento caótico. O encanto da obra não é só o jogo sexual fundamentado na liberdade com preservação do anonimato mútuo. A magia do longa-metragem, definitivamente, é maior que a polêmica envolvendo a manteiga, que além de deixar o pão mais saboroso, no filme serve para outro fim muito mais criativo – imagine!

A grandiosidade desta obra está representada pelo conjunto. Ora no enquadramento, ora na linguagem, orana delicadeza dos gestos ora na violência dos atos, ora em Eros, ora em Psique, ora em cores quentes ora em cores ocres, etc. Afora tudo isso, há um ataque direto ao falso moralismo e ao conservadorismo católico. Em “O último tango em Paris, Bertolucci preparou o terreno para obras ainda mais ousadas, é o caso de O Império dos Sentidosde 1976, do diretor Nagisa Oshima. Abro aqui um parêntese: nos dias atuais, com a facilidade de acessar tudo e muito e além, os filmes citados parecem até ingênuos.

A Objetividade Nossa de Cada Dia

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Por: Wilson Albino Pereira.

Desde que ingressei na faculdade, descobri com a ajuda de livros, aulas e Mestres, que dentre os requisitos para ser jornalista, é importante saber contar histórias e dominar as tecnologias diversas. Ademais, tem os compromissos com a verdade, ética e objetividade e “pa, pa, pa”.

Mas será que as perguntas (descritores) “ O que?, Quem?, Quando?, Onde?, Como? e Por quê?”dão conta de reunir respostas suficientes para esclarecer assuntos mais complexos? Será que a objetividade, um dos considerados pilares do jornalismo, por causa disso, não fica em xeque? “Saber manejar técnicas narrativas” talvez promova um equilíbrio entre os variados níveis de linguagem.

Tais dúvidas surgiram depois que entrevistei uma garota de programa que saiu da Bahia e de zona em zona chegou à Capital das Alterosas. Em 20 min. de conversa sem reservas, lacunas ou reticências falou-me de tudo: de psicotrópicos que toma para dormir, dos 30 programas que faz diariamente,  relatou-me também sobre calotes, agressões verbais e físicas que sofre, contou-me sobre a ferocidade de alguns homens durante o ato sexual, disse-me inclusive que fora violentada aos 14 anos pelo próprio pai, e que fugira de casa aos 16, depois resistir à violência sexual praticada pelo homem que devia defender-lhe ao invés de surrá-la. A mulher também revelou-me seus maiores sonhos – “deixar de ser mulher da vida e formar família”. Mas… Estes fatos… São recorrentes na vida de quem é puta. As repostas sufocam as perguntas (os descritores). Trocando em miúdos, fogem à objetividade.

Se você regressar

 

Por: Wilson Albino Pereira

Meu amor;

Se você regressar na primavera

Vou festejar sua chegada

com a força do abraço multicor.

Então, a gente vai se banhar

nas veludosas  fragrâncias e nas pétalas d as flores  diversas,

todas reunidas e dispersas

pelas mesmas brisas primaveris.

Se você regressar no verão,

Vou celebrar sua chegada

com a força do abraço de um sol nascente

que se derrama quente em toda direção.

Atravessaremos prados verdejantes,

transformaremos sonhos em diamantes,

faremos dos nossos corações um só altar

no qual reinará a cumplicidade.

O céu será nosso espaço,

nosso tempo a eternidade.

Se você regressar no outono,

sua vinda vou aclamar

com a força do abraço gostoso,

feito um fruto doce,

tenro, maduro e formoso.

Um novo sabor vai viciar seu paladar.

Mas, se você regressar

na estação mais fria do ano,

serás recebida com a força do abraço acolhedor,

apaixonante e abrasador.

Há de encontrar em meus braços 

a fonte do aconchego e 

a morada do calor,

e mesmo no inverno mais rigoroso

não hibernará nosso amor.

Se você regressar, ah!

Vou beijar-te intensamente

seu brilho vou contemplar.

Vou misturar-me ainda mais contigo,

vou preencher-te comigo,

há de me guardar consigo

e em cada recanto de mim

só de ti hei de me transbordar.  

Além da Aparência

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Por: Wilson Albino Pereira

“Ah, você quer dinheiro? Vá trabalhar, vagabundo!”, berrou a mulher com um rapaz, que trajava camisa xadrez cheia de remendos, jeans descorado e calçava sapatos tão velhos, tão velhos que já não era mais possível identificar-lhes a cor. Em resposta, o moço juntou as mãos, em sinal de oração, e disse: “Obrigado! Thanks! Merci!”. E saiu.

O fato aconteceu em Contagem, na estação do metrô. Era sexta-feira e passava de 18h horário de pico. No meio daquele inferno sonoro, pensei que minha audição havia me enganado. Parti atrás de provas. Distraí-me e o perdi de vista. Encontrei-o, literalmente, na sarjeta. Contava moedas, as que, muito a contragosto, algumas pessoas lhe doaram.

Mesmo sem combinar, cumprimos cada qual o seu papel – entrevistado e entrevistador. Em lugar de dizer “Pode se identificar para mim, por favor?”, falei: “Ei amigo, tudo bem?”. Antes de sorrir e responder que sim, me olhou nos olhos. Em minutos, me falou seu nome e me contou sua vida. Era nigeriano, professor de idiomas, porém, aluno em português. (Aliás, vocês sabiam que, na Nigéria, há 521 idiomas?!)

White, de 34 anos, veio ao Brasil em busca de melhorias, mas nada fluiu. Dormia na rua há tempos. Não me pediu dinheiro. Mesmo assim, ofereci. Ele recusou. A justificativa? Apesar das humilhações, conseguira o bastante para café da manhã, almoço e jantar, no dia seguinte, em um restaurante popular. A quantia? R$ 3,75.

“Sítio Buganvile” – Hospedagem Para Cavalos: Um Paraíso Equino

Por: Wilson Albino Pereira

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Os variados tons de verde invadem o olhar das gentes. No “Sítio Buganvile” a vida rural está representada em tudo. Tanto nos sons lamentosos de pássaros e das violas enluaradas, quanto no fogão à lenha e na serpentina, tanto na fartura do pomar zelado sem agrotóxico, quanto na criação de galinhas e cães, todos de estimação, tanto nos telhados coloniais e nos janelões que expõe a intimidade da cozinha, quanto na hospitalidade de Marcel Marzano e Camila Ferreira, o casal proprietário da “Hospedagem Para Cavalos”. Os jovens empreendedores acolhem hospedes e visitantes do mesmo jeitinho. Ou seja, com humanismo, estima e uma excelência profissional sem comparações.

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Além de alugar animais muito, muito mansos, são alugados também baias e piquetes no “Sítio Buganvile”, e, as instalações para quem deseja hospedar seus cavalos são confortáveis e seguras. “Aqui, o tratamento é diferenciado. Supervisionamos a alimentação e temos convênios com veterinários. Cuidamos dos animais com dedicação, respeito e amor”, afirma a zootecnista Camila Ferreira.

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 No “Sítio Buganviles” também são ministrados cursos para quem deseja aprender a arte domar cavalos. De acordo com Marcel Marzano, que é um domador profissional, “violência nada tem a ver com doma. É preciso conhecer, conquistar a confiança e respeitar o limite do animal. É importante entender que cada cavalo requer um método diferente”. Marzano ainda alerta: “cuidado, não vá deixar seu animal nas mãos de pessoas que podem causar ferimentos e traumas irreparáveis”.

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LINDA ASSIM : @Nickemanuellyoficial

 

 

Por: Wilson Albino Pereira

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Nicolly Emanuelly

Ela chegou sorridente e se apresentou – “Oi! Boa tarde! Meu nome é Nicolly Emanuelly”. O que mais me impressionou foi a naturalidade da modelo do Projeto Talentos Mirins Kids. Ela iniciou a carreira aos seis meses de vida.

Foi selecionada para um ensaio fotográfico na revista “Mamãe Bebê” por ser uma criança esperta e carismática. Hoje, aos quatro anos de idade, sonha em ser além de modelo, médica e atriz. Em poucos minutos falou-me que ama brincar, nadar, estudar e fazer ballet.

Em seu trabalho na TOP AGENCY, ela desfila, posa para fotos e decora textos com uma facilidade incrível. A mãe de Nicolly Emanuelly, Angélina, acredita que ao matricular a filha para estudar e fazer ballet no Instituto Débora Rocha e nas aulas de Teatro do Espaço Cênico, a menina, que também fez o Curso de Modelo e Manequim Nilton Mattos e desfilou na abertura do Concurso Miss Vargem das Flores, ficou mais confiante, desenvolveu-se muito mais.

Há poucos dias, Nicolly Emanuelly venceu um concurso para participar de um comercial de TV. Prova de que o investimento em educação faz toda diferença. Nicolly Emanuelly Rodrigues Gonzaga que também fotografa para a Loja Nick Jeans nasceu em Belo Horizonte – MG, é filha do casal Alexandre de Souza Gonzaga e Angélina Lopes Rodrigues. Conheça o Trabalho de Nicolly Emanuelly. (@Nickemanuellyoficial)

Nicolly Emanuelly é Semifinalista no Concurso Miss & Mister Top que vai rolar no Shopping Contagem dia 27/01/2018 a partir de 11h30, ( Av. Severino Ballesteros Rodrigues – 850 – Cabral – Contagem-MG).

Apoio/Contato: NICK JEANS 31 – 9 99500-6817 (Whatsapp)
Crédito da foto: Garagem S4

 

No Caminho da Serra Tem Um Terreno

 

Por: Wilson Albino Pereira

 

 

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Dr. Luis Gonzaga Valarini

A pessoa que trilhar lá pelas bandas do Povoado Campo Alegre, há de encontrar um terreno na encosta de uma serra verdejante.                                                                                                                   O lugar é preenchido por belezas tais que, mesmo as palavras mais apropriadas mal dão conta de contar.

Logo na entrada de uma das várias propriedades que rodeiam o verde monte, lê-se: “Seja bem-vindo. Mantenha as porteiras fechadas. Preserve a natureza. Obrigado”.

Ao entrar no ambiente, é como se o visitante atravessasse um mágico “portal”, e, sem perceber, mergulha os olhos da alma e da mente “No Caminho da Serra”.Serpenteada, simples e enfeitada à direita e à esquerda por mudas de ipê, (árvores ainda muito “moças”, porém grávidas de sementes e de sonhos):  assim é a estrada que conduz a uma varanda de telhado colonial.

 Ali, “os de fora” encontram sombra, rede, água fresca para saciar as ambições do corpo e

um bom pedaço de harmonia. É possível Assistir margaridas, dálias, girassóis, tucanos,

seriema, cabras, porcos e cavalos, enfim, a vida sustentável pulsante entregue ao sabor

da liberdade.

Uma atração à parte é a trilha que conduz as gentes ao cerne de uma preservação

ambiental. Além se exercitar, quem aceita o desafio de trilhar a verde mata, aspira ar

pura, experimenta um silêncio entrecortado ora pela brisa e pelo canto dos passarinhos,

ora pelo farfalhar de folhas secas revolvidas por calangos ou cobras, já que ali é o habitat

de centenas de espécies.

No alto estão as recompensas maiores – um cruzeiro feito com toras de eucaliptos, que

fica iluminado noite após noite pela energia captada do sol e armazenada numa placa. O

outro prêmio? Tem a ver com um dos cenários mais lindos: um prado tão variado em

tons de verde, e, tão gigantesco em sua extensão, que céu e terra parecem topar lá onde o

olhar alcança. Se não acredita, aceite o convite do proprietário – Dr. Luis Valarini – e conheça o lugar.

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A Natureza Presente No Caminho da Serra, Esmeraldas – MG,

Expresso Daqui – Esmeraldas

Por: Wilson Albino Pereira

Que tal conhecer Andiroba, Cachoeirinha, Melo Viana, Urucuia, Vista Alegre e outras Regiões? A ideia é simples assim: apresentar Esmeraldas aos esmeraldenses, porém com o auxílio luxuoso de um ônibus de época. Talvez, quem sabe, alguém se pergunte – Mas… O que há de tão especial antes, durante e depois do embarque?
Antes do ingresso no ônibus a expectativa é quem dá o tom. Promessas do tipo: uma viagem segura, renovadora e agradável, um intercambio capaz de valorizar e promover a cultura, a economia e o empreendedorismo local e, por fim, as lembranças que se conquista – impossíveis de serem perdidas no esquecimento.
Durante o passeio se curte as belezas verdejantes de variadas e viçosas paisagens. As veredas serpenteadas, as distantes e incontáveis serras azuladas e as criações diversas, formam o cenário de uma abençoada cidade interiorana. Descortina-se, diante dos olhos nativos e forasteiros, o mais gracioso dos panoramas, porque muita gente que vive em Esmeraldas conhece o centro, mas não faz ideia de como são os lugarejos às margens da área central.
Depois do desembarque é tempo de celebração. Festeja-se a amizade, os saberes e os sabores. É hora de experimentar delícias que viciam qualquer paladar. É o momento da broa, queijo e café adoçado com rapadura. É a vez dos biscoitos de nata e dos doces que levam, em sua matéria prima, as poupas mais coloridas e suculentas do mundo. É o instante de escutar bons “causos” – histórias de amedrontar ou de fazer sonhar o ouvinte, ainda que este esteja de olhos bem abertos. Enquanto isso, na cozinha, prepara-se, em um fogão à lenha, o frango com quiabo, a galinha ao molho pardo ou a costelinha com “lobrobrô” (ora-pro-nóbis) e, também o feijão tropeiro…

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Deflagração poética

Por:Wilson Albino Pereira

Já teria assunto suficiente se fosse só para escrever sobre os sentimentos provocados pelo tema musical do filme italiano “O Carteiro e o Poeta”, de l994, dirigido por Michael Radford, e que tem em seu elenco, Philippe Noiret, Massimo troisi e Maria Grazia Cucinotta. Além do período em que Pablo Nerudo viveu exilado por motivos políticos na Itália, o filme aborda outros temas.
Há uma série de assuntos tratados neste drama. A liberdade, a política, o valor da poesia, a luta por direitos sindicais, o desejo de amar e se sentir amado, são questões de importância e interesse universal. Entretanto, tão relevante quanto os anseios humanos são os segredos existentes na força das palavras. E, pelo poder dos vocábulos que o poeta transforma a vida do carteiro.
Por meio das palavras, Mário, o carteiro consegue expressar quanto amor sentia pela bela Beatrice. No filme e porque não dizer na vida, a poesia representa o renovo. A partir do contato de Mário com as metáforas e com outras figuras de linguagem, as coisas permaneceram as mesmas, mas o olhar de Mário se renova, e sob a ótica da poesia a vida em si ganha novo rumo.
O ritmo de produção industrial destes tempos modernos não colabora na educação do olhar. O homem é capaz de inventar formulas, elaborar teorias e decifrar enigmas, mas padece por causa de depressões e outros transtornos. Talvez, quem sabe, tenha chegado a hora de tirar o pé do acelerador e valorizar outras coisas. Por exemplo, uma mar de emoções libertas na leitura de um verso.

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Estígma

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Foto: Wilson Albino Pereira

Por: Wilson Albino Pereira

Diariamente, ele rasga o solo e no pó deposita inférteis sementes. Tão mortas que se mil vezes plantadas, mil vezes não germinam. Acha natural que em certas noites, uns maus sonhos lhe torturem o juízo. Afinal, tem na cabeça uma coletânea de lavouras vãs.

De segunda a sábado, ainda que chova sem trégua ou pareça o sol ainda mais ardente que o habitual, o especialista no cultivo de sementes nulas, oferece de si o máximo, mesmo sabendo que receberá os mínimos: salário e reconhecimento. É consciente de que, para ser agricultor carece de ter conhecimento e coragem, mas antes de tudo, vocação.

Sempre afirma que só vai haver justiça no mundo quando as leis e a morte forem similares. Na hora do vamos ver, o certo seria ignorar cor, credo, sexo, religião ou posição social. Era para ser assim: simples como pingar um “i” ou cortar um “t” e pronto.

Em sua profissão, as materializações do preconceito ocorrem por meio de um olhar enviesado, ou um silêncio capaz de machucar os ouvidos, ou mesmo a ausência total de gestos . Um sem número de vezes, na intenção de cumprimentar a outrem, sua mão ficou estendida, no “vácuo”. Parece que pratica o pior dos crimes quando se apresenta: Prazer, sou Cláudio, o coveiro.

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A Força Das Palavras

Por: Wilson Albino Pereira
Apenas 25 minutos. É este o tempo de duração do curta-metragem “Imminente Luna”. Baseado em um conto de Moacyr Scliar, gravado em 35mm, com roteiro de Marcos Vinícius Camargos e direção de Maurício Lanzara, a obra foi lançada em 2000 e abre espaço para muitas interpretações por causa da riqueza de detalhes.
Percebe-se que a solidão é apenas um dos vários temas tratados no filme. Isto fica evidente quando um pai (interpretado por Luiz Mello) dialoga com seu filho (Bruno Alves) sobre Ulisses e Ciclope, personagens de Odisseia, um poema escrito por Homero no século 9 antes de Cristo e, que conta os feitos de Odisseu em regresso ao lar.
Depois que o pai narra parte da atribulada viagem do herói grego, o filho desenha o sanguinário ciclope. Então, a câmera foca no desenho, mais precisamente no olho do monstro mitológico. Daí por diante é comum identificar elementos unitários. Por exemplo: um gigante, uma caverna, um olho, um homem que se chama Ninguém.
Na sequência a câmera capta imagens de um ambiente sombrio. A atenção do espectador é transferida para um quarto de asilo, ali, objeto nenhum tem par. Há uma só xícara, um só quadro, uma só cadeira, uma só almofada, um só troféu… Quando Matias (Raul Cortez) entra em cena e diz – “a solidão acabou, amigo”, ouve de Ernesto (Emílio Di Biasi), até então único ocupante do quarto: – “quero ficar sozinho”.
Matias, para passar o tempo, informa ao amigo Ernesto, que é acamado, tudo o que “vê” através da única janela existente no quarto. A solidão se faz presente em todos os relatos. Matias narra a história de um menino que, está sentado na sarjeta e chora a morte do avô. Depois relata sobre uma esposa que vai embora e deixa o marido espera-la eternamente. Quando Matias pronuncia a palavra abandono, a câmera foca em uma gaiola cheia de cartas, correspondências que ele nunca enviara. Matias revela que não tinha familiares.
A surpresa maior é a vista proporcionada pela única janela do quarto… Só assistindo para saber.

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A Intimidade do Chão de Fábrica

Por: Wilson Albino Pereira

Sob a direção de Leon Hirszman e baseado na peça de Gianfrancesco Guarnieri produziu-se uma jóia cinematográfica: Eles não usam Black Tie. No elenco, Fernanda Monte Negro, Gianfrancesco Guarnieri, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Milton Gonçalves, Francisco Milani entre outros. O filme venceu em 1981, todos festivais na França, Itália, Cuba, Espanha, Colômbia e Brasil.
O gênero é drama, tem 120 minutos de duração e promove uma gama de debates devido os múltiplos assuntos imbricados na mesma obra. O filme traz para discussão assuntos importantes, como a formação de caráter do indivíduo que, nasce no seio da família nuclear, aquela constituída por pai, mãe e filhos. Também são discutidas questões relacionadas à gravidez não planejada e aborto.
Outros temas contextualizados no filme são estes: as péssimas condições de moradia nas favelas sem qualquer infraestrutura, a falta de dinheiro por causa da recessão, a violência urbana representada nos latrocínios, a industrialização e o poder capital das empresas multinacionais, a tortura física praticada pela polícia contra trabalhadores e moradores das comunidades carentes, e, talvez o ponto mais importante – a dialética entre membros da classe trabalhadora considerada “chão de fabrica.”
O profissionalismo do elenco enriquece os personagens envolvidos nos temas de relevância universal. O sindicalismo, por exemplo, que tem a greve como uma forma essencial de luta do proletariado, no filme, sofre a influência das paixões. Nascem, a partir disso, sucessivos embates, nos quais a alienação e a coletividade estão presentes todo o tempo. Há conquistas no filme? Sim. Mas, tal qual na vida real, às vezes, quem promove transformações ao semear esperança de que dias melhores virão, se sacrifica, paga com a própria vida tais ousadias.

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A Sua Bênção, Madrinha Minha

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Certa vez, Maria das Graças, a madrinha minha, passou uma temporada em minha casa. Três meses, se tanto. Não me recordo de alegria maior, JU-RO. Era o amor residindo lá em casa. Guardo as melhores lembranças deste período. Aí… A vida seguiu. E, a madrinha minha tornou-se mãe e depois avó. Aí… Os loucos tempos modernos não promoveram a arte do encontro. Porém, a última vez que me vi refletido naquele carinhoso olhar, um mar de ternura invadiu-me. Disse quase tudo que precisava ser dito. Não falei o resto porque não achei palavra que expressasse o amor ‘prá lá de maior de gigante’ que sinto por ela. Aí… Vi aflorar diante de minha gratidão o sorriso… ‘Iguaizin’ como d’antes. Por fim Ó: Me veio u’a nostalgia ‘dãnada’… “Tempo bão/ Não volta mais”.

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Em Louvor de Jorge

Por: Wilson Albino Pereira
O ônibus estacionou, ingressei. E, tão logo transpus a roleta, ocupei um lugar e saquei um livro. É rotina, levo meus livros até para meus sonhos. Antes que eu iniciasse a leitura, uma mulher que estava sentada ao meu lado exteriorizou um pensamento: “Jorge Amado? Ai, que preguiça!”
Cogitei a hipótese de ignorar as duas, a opinião e a pessoa que a emitira, mas ao invés disso, “me vesti e me armei com as roupas e as armas de Jorge”. Perguntei: “qual é problema, hen?”, surpresa com minha reação, ela respondeu minha pergunta com outras: “Ãh?” “Problema?” Notei que nem ela havia se dado conta de que fora preconceituosa.
Não demorou nadinha até eu principiar um discurso em louvor de Jorge Amado. Apoderei-me da palavra e não deixei vãos que permitissem confrontos. Em meia hora defendi que Jorge Amado, em seus romances, preocupara-se em eternizar tipos marginalizados, dentre os quais, prostitutas, alcóolatras, loucos, analfabetos etc
Há críticos que não curtem a literatura de Jorge Amado – paciência, só lamento. Contudo, ninguém pode negar que, este baiano nascido em 1912 fora perseguido, exilado e preso por causa de seu posicionamento político. Ninguém pode negar que ele denunciou barbáries praticadas pelos coronéis latifundiários das fazendas cacaueiras contra os trabalhadores rurais e seus familiares mantidos na mais absoluta miséria. Os Relatos de crimes como estupros, incestos, homicídios, compra e venda de gente, abuso de autoridade, torturas físicas e psicológicas, roubos, invasões de divisas foram traduzidos para mais de trinta idiomas.
Quando tomei fôlego, também afirmei que Jorge Amado fora o primeiro romancista a escrever sobre crianças que viviam nas ruas de Salvador em situação de risco social, “veja bem”, falei: “isto, lá em 1937, no livro Capitães da Areia”, Eurídice Campos, professora pós-graduada em filosofia pela PUC-Minas, suspirou fundou e exteriorizou outro pensamento: “Ai que saco. Não sei pra que fui tocar nesse assunto, viu?!!

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Um Buzão pra África?

Por: Wilson Albino Pereira

Um dia, no centro de Belo Horizonte, li “ÁFRICA” no letreiro de um ônibus. Endoidei! Meu Deus, pensei, como é que um coletivo saído de Beagá vai parar lá onde Judas perdeu o juízo? Porém, meu espanto chegou ao fim quando o “buzão” estacionou para embarque. O destino era FÁBRICA, não África como imaginara. Às vezes, ainda comento a respeito disso com alguns amigos e rimos muito. Daí, explico as circunstâncias do ocorrido – passava de 23h, e,eu estavava acordado desde 4h da madruga, o ponto estava apinhado, chovia, eu estava faminto, e o centro, para variar, tornara-se um pandemônio… É necessário acrescentar, além de tudo isso, cinco graus e meio de miopia em cada olho. A propósito: visualizar pedaços de tardes e noites como sendo, respectivamente, doses generosas de Claude Monet ou Vincent Van Gogh é uma das recompensas  por ser míope. Outra glória é a seguinte: se desejo  que alguém suma, imediatamente, das minhas vistas, basta tirar os óculos…

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Peruano indica Peruano

Por: Wilson Albino Pereira
Mario Pedro Vargas Llosa nasceu em 28.3.1936 em Arequipa, Peru. Porém, já morou em Paris, Londres, Madri e Barcelona. O jornalista, ensaísta e romancista é considerado um dos mais importantes escritores da América Latina por causa de sua facetada técnica literária. Llosa abusa do estilo ao expressar toda sua consciência social.
O nome de Mario Vargas Llosa fez morada em minha vida em 15.9.2013. Foi, inclusive, indicação de leitura dada por outro peruano, que emigrou para a Capital das Alterosas, “a terra prometida”, e, trouxe consigo a família, a esperança e a infinita saudade do torrão natal. Mas… Deixe estar. Este é um assunto para outro texto.
Já assisti Llosa em programas de entrevista, li extensas matérias a respeito dele e, comprei algumas de suas obras, como, por exemplo, A Verdade das mentiras, Peixe na Água, Quem Matou Palomino Molero? e O elogio da Madrasta. São livros primorosos, contudo, senti algo especial pelo A Linguagem das Paixões.
Pense em um livro no qual está presente a diversidade humana. Pense em um livro no qual o autor expõe seus pontos de vista onde a coletividade se vê refletida. Imagine um livro no qual não se poupa críticas a “ditadorezinhos”, aos horrores da guerra ou a mania de classificar tudo como arte. Trata-se de: A linguagem das paixões.
Llosa escreveu, em Domingos alternados, entre l992 e 2000, a coluna “Piedra de Toque” no jornal “El País”. A Linguagem da Paixão agrupa parte destes ensaios. As análises lúcidas feitas por Llosa abrangem assuntos variados. São, na realidade, convites irrecusáveis à reflexão sobre racismo, intolerância religiosa e outras mazelas sociais.
A leitura de A Linguagem da Paixão surpreende a cada frase. Quem sem aventurar pelas páginas deste livro vai se emocionar com perfis de pintores como Frida khalo e Monet. Ou vai se indignar com os relatos sobre Hebron, a terra de ninguém como afirma Vargas Llosa. Ou vai se compadecer com os detalhes referentes ao cárcere de Maldela.

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Aquilo deu nisso

22.3.17… Uns minutos para formatura… E, uma vida para formação.

 

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Joia do *CHA

Por: Wilson Albino Pereira


Iniciativa, segundo o “Dicionário Aurélio”, é um substantivo feminino, e significa: 1. Ação de quem é o primeiro a propor e/ou empreender algo. 2. Empreendimento. 3. Qualidade de saber agir. Tudo a ver com Aline Assis, 33 anos, professora de Gestão no Centro de Formação Profissional Divina Providência – unidade Rafael Zica Geo.

Além de lecionar Logística, Secretariado, Departamento Pessoal, Arquivo, Marketing Pessoal, Empreendedorismo e Contabilidade, Aline, na hora do intervalo, ajuda a vender tudo que é produzidos pelos alunos do curso de alimentação.

Em dias chuvosos ou ensolarados, Aline divulga os cursos profissionalizantes ministrados por ela e seus colegas professores.
A propaganda, que é feita boca a boca nas ruas, becos e vielas, alcança muita gente porque Aline explica, de modo simples, porém detalhado, qual é a importância de se profissionalizar. “O estudo no Divina Providência é coletivo, mas o convite é pessoal, e, caso seja aceito, um curso pode transformar sonhador em gestor de sucesso”, afirma.

A busca por parcerias capazes de contribuir para a formação dos alunos, como transporte, visitas técnicas em empresas de grande porte, ou palestras, por exemplo, são frutos da boa vontade de Aline. “Sou teimosa. Mando e-mail, ligo ou deixo recados. Insisto. A certeza de que vou conseguir é o detalhe que faz toda diferença”, conclui.

Senhoras e senhores leitores, abro aqui um parêntese para informar que além de professora, esposa, empreendedora, gestora e artesã, Aline também é uma fonte inesgotável de humanismo. Certa vez, aqueceu, alimentou e fortaleceu os corações e almas de uma família inteira, que de uma hora para outra, passou a morar na rua.

Ao recolher da sarjeta e abrigar em sua casa aquelas pessoas desconhecidas, que estavam em situação desesperadora, Aline fez mais que resgatar e promover a dignidade humana, “amou o teu próximo, como a si mesmo”. Só a título de curiosidade: protetora, nobre, reluzente e resplandecente são alguns dos significados do nome Aline. Será por acaso ou de propósito?

Ela não nega afeto, sorrisos e abraços aos órfãos, aos asilados ou a quaisquer outras classes consideradas “invisíveis” sociais. Aline é uma joia teimosa, e prova seu valor, diariamente, quando faz o máximo para melhorar sua comunidade, e, nunca desanima, ainda que receba em troca de seus esforços o mínimo reconhecimento. Quem traz a esperança na cor dos olhos, não podia ser diferente.
⃰*CHAConhecimento, Habilidade & Atitude

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Resistente Flor

Por: Wilson Albino Pereira

Guardiã de vidas, almas e corações

Esperança de dias melhores 

Gota de luz 

Templo sagrado 
Caminho suave 

Um olhar que tem ímã, amor, poesia, calor, forma,  graça e resplendor                                                 

Mulher Independente 

Delicada flor resistente


                                 

       

                                                                                           

                                                                
                                                                                                                                     
       

                                                        

                                                                                                                    

                                                  

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Meu tipo inesquecível

Por: Wilson Albino Pereira

Em certos dias, miro-me no espelho. O que vejo sempre são os traços de meu pai. Em 13 de março de 2017, completará cinco anos de falecimento do velho. A dor já cedeu lugar à saudade, mas a lembrança é diariamente avivada, já que sonho sempre com ele.

É impressionante como alguém acumula tanto conhecimento sem nunca ter lido um único livro. Assim era ele. Sabia muito sobre a vida e sobre a roça. Fato é que tinha dificuldade para demonstrar sentimentos, porém expressava por gestos e olhares quanto afeto sentia.

Não me recordo de vê-lo fingir só para agradar. Falava o que pensava. É por causa de seu caráter e de suas inúmeras virtudes é que considero meu pai meu tipo inesquecível.

Entre uns e outros paus amigos

Por: Wilson Albino Pereira“Um pau amigo tem de saber como é que se pega uma mulher de quatro, e falar no ouvido dela: ‘você é minha, ouviu?’. ‘VOCÊ–É–MINHA! Entendeu agora’?’”. “Um pau amigo tem que ter pegada firme… Sem aquelas frescuras”. “Eu adoro ser beijada e agarrada enquanto faço sexo.” Todas estas são declarações de Flor de Maria, que também revelou em entrevista ao Jornal Impressão, ter perdido a virgindade quando faltavam quatro dias para completar 16 anos e, que apreciou muito a novidade. 

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Hoje, aos 30, funcionária pública, Pós graduada em Gestão Pública, afirma que, “da primeira transa, para cá, não fez outra coisa que se doar”. Ela própria se considera uma alma muito caridosa, tanto, que já até ensinou a um amigo como se faz sexo… Direito”, conclui. 
Quando se interessa por alguém não olha nível social. “Curto muito mais a essência que a aparência”, afirma. Contudo, Flor de Maria impõe condições: “Não saio com homens casados, não transo sem preservativo e não faço sexo anal, em hipótese alguma. São regras minhas, e delas não abro mão”, ressalta. 

Quando perguntada sobre o “yin-yang” entre sexo e amizade, sua boca miúda e sorridente disse: “saí com alguns rapazes que já conhecia de vista, saí com gente que tomei conhecimento por acaso mas, também fui para cama com homens que conheci por meio de aplicativos de celular. “Vivi loucamente, tanto que, não sei precisar com quantos parceiros/amigos já dormi”, informa.  A princípio, minha aproximação, ela diz, “era mesmo só para trocar umas ideias, porém a coisa evoluía e acabava em baixo dos lençóis”. 

As práticas sexuais diárias com tanta gente diferente tornou Flor de Maria cheia dos saberes, dona de suas vontades e indiferente ao palavrório alheio. “A vida é minha e o corpo também. Portanto, faço o que quero e pronto”, declara. Os encontros marcados apenas para transar fluíam muito bem só porque tudo era alicerçado em sexo e amizade. “Às vezes só em sexo, mesmo”, reforça. 

Flor de Maria cerra seus olhos negros e muito vivos enquanto rememora fatos ligados às inúmeras aventuras. “Já transei com homens de farda e com tipos. E, com estes fiz sexo em lugares desertos, em quartos e dentro de carros. Às vezes o perigo de ser flagrada era melhor que o ato sexual, em si”, admite. Após as traquinagens, sair e se despedir como se nada além do banal tivesse ocorrido, tinha lá uma vantagem – zero de cobranças. 

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Ela fingiu orgasmo muitas vezes, e até deixava o desacerto passar se, depois de transar, o pau amigo não vomitar a idiotice: “foi bom pra você meu bem?”, “aí é  hora da verdade”, categoriza.  “Já falei para um cara: seu pau, amigo, é pequeno demais. Não senti absolutamente nada. Falei para outro: ei, você só tem papo, não entende nada de mulher. Alguns aceitaram a critica, outros a chamaram de puta, na cara. Ela retruca, “Puta? Não. Putas cobram e nunca beijam na boca” Mas, quando o amigo é legal, rolam elogios recíprocos.“ Gostava de dizer para um determinado  cara que, me sentia bem ao lado dele na cama. E, algumas vezes, ele me disse que eu chupava gostoso demais”, confessa. 

Quando perguntada se tinha sonho e qual era, ela respondeu: “sossegar”. Flor de Maria quer levar uma vida distante “das baladas dessa vida de solteira” e das camas e companhias incertas, se tornar esposa e constituir família. Inclusive, entre uns e outros paus amigo, conheceu alguém diferente. “Era para ser só uma dose de sexo e um bocado de amizade, mas a coisa está mudando de rumo. Se der tudo certo, me caso no ano que vem, como manda o figurino”, diz esperançosa. 

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Jeito simples 

Por: Wilson Albino Pereira

O céu nublado estava para desabar. Eu rumava para estágio na redação do Jornal Hoje Em dia quando, de repente, avistei Margarete… Ao me aproximar me identifiquei como sendo “um quase jornalista”, e, ali, mesmo sem pauta, perguntei se ela me concedia entrevista. “Sim, sim”, cordial ela respondeu.

Há cinco décadas ela vive na capital das Minas Gerais. Há 30 anos que ganha a vida varrendo as vielas do Parque Municipal. Embora Margarete Maria da Silva resida na cidade grande, sua alma ainda é sertaneja demais. O jeito simples contrasta com a aparência exótica. Feito um imã, ela atrai a atenção de todo passante,  espalha sorrisos, acenos e abraços a todo o momento.

Perguntei se a popularidade a incomodava. Sua resposta remeteu-me ao livro de Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas – “Nada. Gosto. Sô diferente de todo mundo”, afirma.

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Margarete cuida das criações em seus momentos de folga. “Noveleira” que é, diz que distração melhor “tá pra inxistí”. Já perdeu a conta de quantas vezes as pessoas perguntam qual a razão de se enfeitar tanto, e se não dói transpassar o rosto daquela forma. “Coloquei uns brincos quando tinha oito anos. Imitei uns índios que vi em um filme. Num doeu e nem dói não. Nada, nada, nada”, reforça. Quando perguntei se lhe faltava algo para alcançar a felicidade, ela olhou-me nos olhos e disse: “Já sou muito feliz e muito grata porque tenho de um tudo”, explica. Nos despedimos e antes que eu retomasse meu rumo ouvi ela dizer: “ei, jornalista… Boa sorte! Tomara que seja feliz na sua profissão”. Ela nem imagina qué’sá’porra” já é minha vida…

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Antes do ‘BBB’

Por: Wilson Albino Pereira                         

Dez anos antes de Pedro Bial se tornar apresentador de um reality show ele lançou um livro. O “Crônicas de Repórter – o correspondente internacional conta todo que não se diz no ar”. Muitos vão discordar, mas quanta técnica Bial concentrou em cada um destes pequenos textos! 

Pedro Bial em  seus textos, na maioria das vezes, utiliza uma linguagem muito simples. Sabe aquela construção de pensamento alcançável por todos? Pois bem, é exatamente isso. Além da técnica, Bial adiciona ingrediente que confere aspecto  mágico às crônicas – emoção.

O jornalista, repórter e escritor Pedro Bial em seu livro fala de algo que transpassa os limites do medo comum. Há relatos, inclusive, de momentos em ele e sua equipe estiveram sob a mira de fuzis AK-47 e pistolas ponto 40. Em outra situação ele diz, que em meio às rajadas de metralhadora e ribombar de granadas, por pouco não fora assaltado.
Se você der uma chance a este livro, talvez encontre o Bial que vi entrelinhas. Um escritor viajado. Um homem do mundo, que faz uso de sua técnica apurada para aproximar-se ou trazer para junto de si o leitor distante, antes só no sentido geográfico. Hoje, porém, além do espaço, as crônicas escritas por Pedro Bial rompem também com tempo. 

O homem da imprensa, dono de uma visão humanista mesclou poesia, jornalismo e literatura em sua produção textual. Nem de longe lembra este, que  atualmente recebe uma fábula para narrar fofoquinhas e ficar à espreita, junto com “meio mundo”, louco para saber quem é que vai tentar comer quem debaixo do edredom.
          

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Quase Pai da Mãe 

Por: Wilson Albino Pereira

Por causa do diabetes minha mãe ficou cega aos 55 anos. Na mesma época enviuvou-se de meu pai. Hoje, às vésperas de completar 62, dependente de uma série de medicações indispensáveis para seguir seguindo, ela evoca, diariamente, lembranças cercadas de esquecimentos por todos os lados.

Às vezes, leio trechos de meus livros favoritos para minha mãe, que fecha os olhos, abre os ouvidos e viaja com Guimarães Rosa, Autran Dourado, Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda e outros de meus incontáveis heróis. 

Em determinados, dias acomodados no sofá, minha mãe e eu papeamos.  Submerso no palavrório fecho meus olhos. E, ali, sigo cego temporário, voluntário e ajustado ao breu tateio a voz de minha genitora, que ora rememora um pouco, ora confunde um tanto, mas sempre dá vazão a uma cachoeira de historias.
As boas falas de minha mãe chegam bordadas com fatos associados, recheadas e temperadas com palavras simples, mas que formam saborosas imagens. Assim, detalhes da vida interiorana vêm à tona. Aí, o gosto do frango com quiabo, ou da broa-de-fubá, ou do canjicão  brotam e rebrotam enquanto as bocas das gentes transbordam’d’agua.

Após os derradeiros dizeres sobrevém-nos a pausa. É aquele momento que só os mais chegados sabem e entendem. Palavra cessada não é falta de assunto. O silêncio, entre pessoas amigueiras, também é sinal de harmonia. Abro os olhos sempre que as palavras se ausentam… A claridade que fere minhas vistas é a mesma que me situa no tempo e espaço – filho único que sou, cuido da alimentação, aplico insulina para controlar a glicose, separo e abasteço minha mãe de medicações para controlar a pressão arterial, o sono, a ansiedade, o humor… Diariamente me pergunto: como minha mãe suportou esta barra? Sinceramente, não sei se eu suportaria.
 

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O que aprendi com o livro ‘O Estrangeiro’

Wilson Albino Pereira
As frases “[…] Meu delírio é a experiência com coisas reais”, ou “[…] Eu sou o início, o fim e o meio” e ainda, “[…] Que pena daquele que pensa da sua exata continuação”, respectivamente são trechos de canções compostas por Belchior, Raul Seixas e Gonzaguinha. Mas o que estes fragmentos musicais têm a ver com o livro “O estrangeiro”? – A visão objetiva do mundo, o existencialismo.

“O estrangeiro” foi escrito pelo argelino Albert Camus em 1942 e apresenta a importância da razão durante o passo a passo no processo do conhecimento. Em outras palavras, Camus fala pelos lábios do indiferente personagem Merseault , que viver não vale à pena e que após morte é um “nada” o que nos aguarda.

Outras questões muito amplas, universais e complexas também são apresentadas no livro. Dentre as quais, angústia, liberdade e paixão, neste caso, sua inutilidade. O ganhador do prêmio Nobel de 1957 traz registros literários de um pensador, que de certa forma nutria uma revolta contra os males que as circunstâncias da vida provocam ao homem.

“[…] Tanto faz morrer aos 30 ou aos 70 anos. […] Afinal nada mais claro”, este é um trecho do livro que tem apenas 122 páginas e inspirou gerações. Aprendi com esta obra que certas leituras deixam ressacados os pensamentos. Porque o romance trata de uma questão crucial, como a amargura que brota da relação do homem com o mundo.

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Tecnológicos eles são, cautelosos não. 

Por: Wilson Albino Pereira

Segundo a Organização Mundial de Saúde, de 2000 a 2014, o número de infectados pelo vírus HIV no mundo caiu 35% e passou de 3,1 milhões para 2 milhões de pessoas contaminadas. Mas no Brasil foi diferente. No mesmo período, entre jovens de 13 a 19 registrou-se um aumento de 53% nos casos de contaminação.

Em maiores de 13 anos, a transmissão prevalece pela forma sexual. Em 2012, 86,8% dos casos de contágio registrados entre mulheres ocorreram em relações heterossexuais com pessoas infectadas pelo HIV. Entre homens, 43,5% dos casos foram por relações heterossexuais, 24,5% por relações homossexuais e apenas 7,7%, bissexuais.

Como a infecção pelo HIV alcançou dígitos alarmantes se os jovens tem acesso à informação e formas para evitar a infecção por doenças sexualmente transmissíveis? A resposta é da Psicóloga e Referência Técnica da Coordenação da Saúde Sexual e Atenção as DST/HIV e Hepatites Virais P/BH Priscila de Moura Franco.

De acordo com Priscila, estudos comprovam que a primeira relação sexual, geralmente é praticada com uso de preservativo. Mas as demais relações ocorrem se ele, pois, os jovens imaginam que estão em relacionamentos sérios. O que ocorre uma banalização, já que entre os jovens é comum a afirmativa – “vim no pêlo (nasceu de um ato sexualidade sem camisinha), vou no pêlo”, lamenta.

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Loucos, quase mansos e cheios de tesão 

Por: Wilson Albino Pereira
“Eu sonhei encontrar uma mulher, num apartamento vazio, um apartamento de ninguém, um lugar sem personalidade e fazer amor com ela sem saber quem é. Queria repetir este ato sexual à exaustão”. Esta fala do cineasta Bernardo Bertolucci é a resposta à pergunta: como surgiu a ideia para realização de O último tango em Paris?
Em 14 de outubro de 2016, o filme, eleito pelos críticos como um dos mais eróticos e poderosos da história do cinema, completou 44 anos. A primeira exibição da obra foi no encerramento do Festival de Cinema de Nova York, em 1972. Ao término da sessão, o diretor foi aclamado. No Brasil, o filme foi censurado. A estreia só foi possível dez anos mais tarde. 

Exatos dois minutos e quinze segundos é o tempo que dura a primeira cena em que Paul e Jeanne, respectivamente, Marlon Brando e Maria Schneider, parecem atordoados de tesão. (E as outras cenas, as mais longas, depois? O que dizer sobre elas?) Se, na vida real, não havia paixão entre os atores, em cena estavam afinados. Difícil dizer se o que rolou foi apenas a representação de uma “transa casual”. Resfolegantes, gementes e inflamados, ambos ateiam fogo também nos espectadores.  

A beleza do filme não está concentrada apenas nos três elementos – um homem, uma mulher e um apartamento caótico. O encanto da obra não é só o jogo sexual fundamentado na liberdade com preservação do anonimato mútuo. A magia do longa-metragem, definitivamente, é maior que a polêmica envolvendo a manteiga, que além de deixar o pão mais saboroso, no filme seve para outros fins.

A grandiosidade desta obra está representada pelo conjunto. Ora no enquadramento, ora na linguagem, ora na delicadeza dos gestos ora na violência dos atos, ora em Eros, ora em Psique, ora em cores quentes ora em cores ocres, etc. Afora tudo isso, há um ataque direto ao falso moralismo e ao conservadorismo católico. Em O último tango em Paris, Bertolucci preparou o terreno para obras ainda mais ousadas, é o caso de O Império dos Sentidos de 1976, do diretor Nagisa Oshima.  Nos dias atuais, com a facilidade de acessar tudo e muito e além, os filmes citados parecem até ingênuos.   

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Leitura: meu papo nem é tão chato assim 

Por: Wilson Albino Pereira

De novo não! Pô véio… Segura sua onda. É só a gente se descuidar um minuto e você chega com esses ‘papo chato’, disse, certa vez, meu amigo Lúcio Faustino. Imagino que, para quem não curte literatura, cinema, poesia etc ouvir conversas relacionadas a tais assuntos, deve mesmo ser uma tortura. Eeeei! Tranquilidade, man, brinquei.   
Teimoso que sou, ignorei o sinal de alerta dado pelo amigo. Depois de uma pausa redirecionei o diálogo até desembocar nos mesmíssimos assuntos, literatura, cinema, poesia… Aí entrecortei o palavrório: Duvido que você leia O diário de Ana Cristina, provoquei. “Não e não seu sacana, não caio mais nessa armadilha”, contrapôs Lúcio. 
Mas passarinho atraído por mira de cobra sabe sua sina. Cessei palavra, maneirei respiração, armei bote e esperei a interrupção do silêncio. “Você tem o tal Diário de sei lá quem? É ‘Grossão’ demais? Quem escreveu?”, Lúcio questionou e entendeu que, uma vez acionado o gatilho, a munição não mais regressa ao ponto de partida. 
Que grosso o que nada! Prossegui sem dizer a quantia exata de páginas. O diário de Ana Cristina é sobre a filha de um pastor e foi escrito por José Calos Leal, afirmei. Lúcio, ela é LIN-DA, disse, mas sabe de nada a inocente! Acha que tudo que é certo, bom e gostoso só existe na religião dela. Mas, ao descobrir umas tretas erradas do pai, a moça ‘dispiroca’, completei. Agora, alertei, vem a melhor parte… Lúcio Faustino atalhou-me: “OK! DEU! CHEGA! Será que antes de me contar o final da história, DÁ PRA VOCÊ ME EMPRESTAR O LIVRO?”. ​

O futuro é a morte

Certa noite, um morcego invadiu meu quarto e atrapalhou meu sono. Os rodopios ininterruptos e os voos rasantes potencializaram minha imaginação. Por alguns segundos me senti em um poema de Augusto dos Anjos. Os quirópteros que violaram as intimidades dos nossos dormitórios são muito diferentes. No texto do poeta, o bicho é a consciência humana, cuja qual o escritor tenta, sem sucesso, exterminar a poder de cacete. Em meu texto, bem mais modesto, trata-se apenas de um mamífero de hábitos noturnos que, neutralizei com uma boa travesseirada.  

Pela manhã, me lembrei do episódio e passei o dia pensando na linguagem que o poeta paraibano utilizou para compor seu livro, Eu e Outras Poesias. O único publicado em vida que, se analisado apenas por causa dos versos rimados e decassílabos, já representa um feito artístico e estético grandioso.

O vigor dos versos tecidos por Augusto dos Anjos põe fim às ilusões terrenas, pois sequestra o pensamento. Depois de enclausurada a imaginação do leitor fica refém e vai, a reboque, quer seja para além da podridão dos cemitérios, quer seja para além dos sêmens depositados nas vulvas das mulheres públicas. É impossível ler o Eu e Outras poesias e não ser inundado por sensações atribuladas, asquerosas e melancólicas. 

Não fico admirado se, de repente, alguns visitantes do mundo sombrio construído pelo cientificismo, naturalismo e lirismo de Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos regressarem chocados por causa da condição humana limitada, finita e frágil demais. 

Na obra do poeta “Filho do carbono e do amoníaco”, a acumulação de bens, proezas sexuais, consumo de cultura, mudanças nas estações do ano e muitas outras coisas estão ligadas ao espetáculo do horror, direcionadas para uma realidade apavorante e atreladas ao futuro. E o futuro, para qualquer vivente… É a morte.         
 
                

Além da aparência

Wilson Albino Pereira

“Ah, você quer dinheiro? Vá trabalhar, vagabundo!”, berrou a mulher com um rapaz, que trajava camisa xadrez cheia de remendos, jeans descorado e calçava sapatos tão velhos, tão velhos que já não era mais possível identificar-lhes a cor. Em resposta, o moço juntou as mãos, em sinal de oração, e disse: “Obrigado! Thanks! Merci!”. E saiu.

O fato aconteceu em Contagem, na estação do metrô. Era sexta-feira e passava de 18h horário de pico. No meio daquele inferno sonoro, pensei que minha audição havia me enganado. Parti atrás de provas. Distraí-me e o perdi de vista. Encontrei-o, literalmente, na sarjeta. Contava moedas, as que, muito a contragosto, algumas pessoas lhe doaram.

Mesmo sem combinar, cumprimos cada qual o seu papel – entrevistado e entrevistador. Em lugar de dizer “Pode se identificar para mim, por favor?”, falei: “Ei amigo, tudo bem?”. Antes de sorrir e responder que sim, me olhou nos olhos. Em minutos, me falou seu nome e me contou sua vida. Era nigeriano, professor de idiomas, porém, aluno em português. (Aliás, vocês sabiam que, na Nigéria, há 521 idiomas?!)

White, de 34 anos, veio ao Brasil em busca de melhorias, mas nada fluiu. Dormia na rua há tempos. Não me pediu dinheiro. Mesmo assim, ofereci. Ele recusou. A justificativa? Apesar das humilhações, conseguira o bastante para café da manhã, almoço e jantar, no dia seguinte, em um restaurante popular. A quantia? R$ 3,75.

A colisão no beijo da mulher aranha

Por Wilson Albino Pereira

Se não estou enganado, no quarto período de Jornalismo, li um texto de Bruno Souza Leal sobre o poder das narrativas. Parafraseando o autor, trata-se de uma forma de explicar, compreender, agrupar e interligar emoções que se encontram não só em espaços e tempos diferentes, como, também, em mundos existentes só na imaginação.

O filme “O beijo da mulher aranha”, dirigido por Hector Babenco, explora muito bem os limites (ou a falta de limites) da narrativa. Foi muito premiado, inclusive, com prêmios no Oscar e no Festival de Cannes, na categoria “melhor ator”, para William Hurt, em 1986. A ideia, contudo, é comentar não só o enredo do filme, mas, também, a narrativa. Ela explicita que ali se passa uma trama dentro de uma trama.

Realizado em São Paulo, o longa tem cenário simples e orçamento modesto, mas a atuação de William Hurt (no papel de Molina) e Raul Julia (na pele de Valentin) é mesmo emocionante. E pensar que ambos aceitaram, como pagamento, apenas as passagens e estadias, pois se apaixonaram pelo roteiro.

Parte da história é assim: Molina é gay e foi condenado por corrupção de menores. Valentin é prisioneiro político, machista e sarcástico. Os dois estão encarcerados na mesma cela. O choque de opiniões entre eles é inevitável. Molina usa a imaginação para fugir da realidade. Mesmo tão diferentes, será que um ou outro personagem vai parafrasear Guimarães Rosa e dizer, em algum momento, “[…] pois eu morro e vivo sendo amigo seu!”? Para saber esta e outras coisas, é preciso assistir ao filme.

Para servir de agradecimento aos professores e amigos

 

A jornada foi longa. O caminho, irregular e as batalhas, intensas demais. Porém, meu reflexo no espelho me mostra contra quem venci a guerra.  Dormir às 23h, acordar às 4h da madruga e depois ser “ensardinhado” por pelo menos uma hora e meia em um ônibus de segunda a sexta-feira… A louca rotina à qual me submeti é inalcançável só por meio de palavras.  O combate foi contra minhas incertezas, medos e cansaços, mas também foi contra quem é #racista, #homofóbico ou #fanático  – tiranos sociais.

As orientações, atitudes e projeções precisam mesmo de um campo onde o diálogo seja em favor do #equilíbrio. A concretização desta ideia é a #faculdade, o palco da #liberdade. Um espaço onde #opiniões apaixonadas e certezas absolutas se chocam quando postas à prova. Em quatro anos adotei uma coleção de mudanças, e boa parte delas foram resultados de #confrontos diários. Estes educaram meu olhar, que agora é mais #contemplativo, #humanizado e #lacrimoso. E está dito o necessário.

Gonzaguinha, ídolo meu

O ano é 1981. O local, Teatro Fênix lotado com uma plateia em transe. Muitos olhares marejados miram no rumo do palco, local em um que um artista se doa sem cuidados ou reservas. Quem assistir ao DVD com o show de Gonzaguinha vai ver um cantor corajoso e que evidencia do primeiro ao último minuto que está ao lado do povo.

No repertório, canções conhecidas como Ponto de interrogação, Sangrando e Não dá mais pra segurar. Um momento reflexivo no espetáculo ocorre na hora em que Gonzaguinha diz: “Violência não é só quando um policial bate o cassetete na cabeça da gente. Violência também é não ter direito à cultura, à saúde, à felicidade ou a liberdade”.

Passados 35 anos desde a gravação deste show, aprendi com as canções de Luiz Gonzaga do Nascimento Junior que o sentimento transformado em palavras é uma arma poderosa contra desigualdade, contra a ignorância, e sobretudo contra a tirania. A letra de Pequena memória para um tempo sem memória provoca emoção e traz para o presente um passado que não conheci, mas traduz o pavor de quem viveu ou morreu nos mil vezes desgraçados porões da ditadura.  

O Velho Braga

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A construção de sentido nas crônicas de Rubem Braga é facilmente alcançada pelos leitores por causa do nível de linguagem, por causa dos assuntos abordados e, sobretudo, por causa dos posicionamentos do cronista diante das adversidades da vida.

A linguagem que Rubem Braga utiliza em seus textos é muito simples, entretanto, além de um incrível poder de síntese, algumas frases remetem à ideias ora filosóficas, ora antropológicas, ora humorísticas, ora dramáticas, mas tudo com muita responsabilidade, poesia e leveza.

Os textos reunidos em (BRAGA, Rubem. AI DE TI, COPACABANA!. 1ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1962)  possuem quase meio século de existência e, ainda assim, parecem atualíssimos.  O autor se propõe a falar sobre o mundo que o rodeia. Os textos ora exaltam a beleza feminina, ora expressa o amor do jornalista à natureza. Nada escapa aos olhos do escritor. O velho Braga, como era chamado por seus amigos dava vazão aos sentimentos, mas, não permitia que a poesia se sobrepusesse à razão.

Uma das crônicas reunidas no livro Ai de ti, Copacabana intitula-se “A corretora de mar”.  O autor “pinta com palavras” a sedução (involuntária ou não) de uma mulher, que consegue, apesar da resistência do cronista, vender-lhe um pequeno terreno no Chile. Na crônica, Braga a descreve com tanta poesia que o charme da chilena invade os olhos e os poros de quem a lê.   

Ação e reação

Na cabeça, dúvidas. Na mão direita, caneta Bic azul. Na esquerda, caderninho espiralado, e, na primeira folha, uma anotação: Cemitério do Bonfim, rua Bonfim, 1.120, entrevista com Sr. Luiz Carlos Zaidan (coveiro), às 15h. Perguntei na administração sobre o dono do nome escrito na caderneta. Apontaram-me o homem.

Ao aproximar-me do sr. Luiz, saudei-o, e ele, desconfiado, saudou-me de volta. Notei que estava com as mãos nos bolsos. Disse-lhe que pretendia escrever sobre a profissão tão estigmatizada que ele exerce. Apresentei-me, e, ao lhe estender a mão, houve, da outra parte, uma leve recusa e, na sequência, a frase: “Não, não, filho, minha mão ‘tá’ suja”.

Com a mão deixada no vácuo, disse-lhe que o motivo de minha ida era colher informações para escrever sobre aquela profissão, a fim de que as pessoas deixem de ser tão preconceituosas e respeitem o ofício e seus trabalhadores. “Além disso, meu camarada”, falei, “um dia, também seremos só pó no pó”.

O olhar do sr. Luiz ficou lacrimoso. Segundos depois, não só me estendeu a mão, como também me abraçou e disse: “Ah, você é simples, né? É igualzinho a mim”. Depois, ele me relatou que, ali, já fora achincalhado e humilhado pelos parentes dos mortos. Enquanto caminhávamos por entre lápides de mármore e monumentos de bronze, pensei na quantidade absurda de pessoas orgulhosas, que se consideravam insubstituíveis e, agora, abreviam-se a ossos que repousam em covas, ou agrupados em pequenas caixas de zinco, esquecidas no fundo do ossuário geral.

“Você estuda o que, mesmo?”, perguntou-me. “Jornalismo”, respondi. “Vigia”, aconselhou-me. “Não permita que a vaidade faça com você o que fez com muita gente que agora mora aqui”, advertiu.

 

Entre céu, terra e corda

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Segredos e paixões de um rappeleiro

Para a primeira entrevista, ele escolheu a Praça Sete às 15h, em plena sexta-feira. Enquanto o aguardava, acabei emboscado por uma cacofonia infernal. O palavrório e as buzinas que soavam em timbres, durações e intensidades diversas promoviam o pandemônio.

Ele chegou cinco minutos adiantado. Para minha surpresa ou decepção, preferiu ficar ali, naquele furdunço, a buscar um lugar menos barulhento. Pronto – pensei – danou-se o áudio. Mas segui o fluxo.

Aos 64 anos, Humberto de Vasconcelos, funcionário público, está apto, disposto e capaz para desempenhar qualquer atividade. Sua pressão arterial nunca passa de 120/80. Ou seja, normal. Também estão normais as frequências cardíaca e respiratória, e todos os hemogramas. Detalhe – ele não faz uso de nenhuma medicação. Seu abdômen está plano, braços e pernas exibem grande vigor. Em resumo – é um menino.

Algum segredo para uma vida longa, ativa e saudável? Ele respondeu que um segredo apenas não, mas vários: alimentar-se sem exageros, dormir apenas o suficiente, consumir o mínimo de bebidas alcoólicas, e, talvez, as duas dicas mais importantes: leituras diversas e atividades físicas regulares.

Humberto considera a leitura indispensável ao espírito. “Leio de tudo, principalmente textos relacionados à tecnologia”, revela. Nascido e criado em BH, é apaixonado pela história da cidade. Visitou mais de 50 sebos em Minas, São Paulo e Rio, à caça de livros raros, como dicionários toponímicos e obras que detalhassem a vida dos primeiros moradores, emigrantes e políticos que ajudaram a edificar a provinciana Curral Del-Rei.

Assunto puxa assunto. Depois de um determinado momento, não mais me lembrei que estava naquele “randevu” de sonoridades simultâneas. Entre uma e outra confabulação, lancei a palavra “rapel” no meio de uma pergunta e, de repente, as seis letrinhas surtiram um efeito mágico. Foi como se um “abretecésamo” iluminasse os olhos e o rosto do entrevistado.

Rappeleiro maluco

“Você disse rappel? Ah, é a outra parte de mim”. Instrutor de rapel, Humberto encheu os pulmões de ar e principiou uma aula. Segundo ele, todo aspirante à prática do rapel precisa, antes de tudo, fazer um curso para aprender noções de escalada e escotismo. É o momento de entender mais sobre o uso de equipamentos, como cordas (que suportam 2.500 kg), freio, cadeirinha, capacete, mosquetões, luvas.

Atividade de aventura e esporte radical, o rapel não possui regras definidas. Pode ser praticado em áreas urbanas, em prédios e viadutos. Nas áreas rurais, a escolha é por cachoeiras, cavernas e picos elevados. No instante exato em que ele falaria dos vários estilos de rapel, uma interjeição entrecortou a linha de raciocínio. “Ah! Você sabe onde fica a pedreira Santa Rita? Os caras do ‘Morcegos Adventure’, grupo de rapel do qual amo fazer parte, vai brincar um pouquinho, no domingo… Aparece lá”, convidou.

De frente pro abismo

No dia marcado, todos nos reunimos na praça da Cemig. Humberto trajava camiseta personificada com a logo do grupo, calça e coturnos com camuflas que lembram a estampa do exército. Mariana, candidata a rapeleira, vestida toda de preto, e Adamastor. Esse último é um Fusca 1981, que além de trava e vidro elétricos, também tem página no face. Inseparável companheiro de aventuras, transporta os equipamentos para a prática de rapel, ciclismo e corrida, já que seu dono tem por esportes um apetite do tamanho do mundo.

Às 9h chegamos à tal pedreira. De acordo com Humberto, grande parte das pedras utilizadas nas construções do bairro Eldorado foi dali extraída. Há ainda, no lajedo, marcas onde eram depositadas as dinamites. O cenário impressiona pela dimensão. É largo demais, acidentado demais e assustador demais. O resultado da exploração de recursos naturais é uma chapada que, de altura mede 45 metros, e que tanto o povo do rapel, quanto o da escalada, fazem de “playground”, desejosos de tornar o inóspito ambiente em lar doce lar. Uns “mano” que curtem os “benefícios” da erva natural há tempos fazem o lugar de morada.

Na pedreira, encontramos mais um estreante no esporte, outro Humberto, o filho. Enquanto os veteranos não chegavam, Humberto, o pai, livrou Adamastor das parafernálias. Aproveitou verificar os equipamentos. Alguém perguntou por que o instrutor trazia uma pena afixada no capacete. “É uma pena do rabo. E, quem tem pena do rabo…”

Enquanto repassava as instruções, Humberto volta e meia olhava em meus olhos e dizia: “Wilson, preste bastante atenção, tá legal, meu caro?” Além de equipamentos para ele, para o filho e para Mariana, vi que havia mais um, sobressalente. Por curiosidade ou inocência, perguntei a necessidade de quatro equipamentos, se só três desceriam o pedregoso paredão? “É pra você descer, meu chapa”, revelou.

Levei uns alguns segundos medindo com os olhos aquele chapadão. Imaginei-me grudado na pedrona, amedrontando feito Prometeu. Retruquei: “Eu? Não vou descer porra nenhuma!” Só percebi o quanto havia falado alto quando o instrutor e seus alunos caíram na gargalhada.

Minutos depois chegou o restante da trupe. Disfarçados de motociclista, vigilante, enfermeiro, advogado, administrador, médico, são todos, a bem da verdade, rappeleiros e se dizem amantes do que existe entre céu e terra – liberdade. Praticantes há mais de uma década, foram unânimes ao afirmar que o friozinho na barriga, sentido na primeira vez, ainda é o mesmo.

Humberto de Vasconcelos, até então contente, descansou sorriso ao lembrar-se dos amigos ausentes. “Pô, só achei ruim que nem todos vieram se reunir com a gente hoje, inclusive, o Osnam (fundador dos Morcegos Adventure)”, lamentou enquanto se preparava para descer a pedra colossal mais uma vez.

Ah, e antes que me esqueça: ali, cara a cara com os obstáculos naturais, “os dois alunos receberam dez com louvor”.

#dusoutros.wordpress.com

 

O “cale-se” de cada alma

E pensar que tudo começou por causa de uma reprimenda policial a uma moça que vestira roupa curta lá no ano de 2011, em Toronto, no Canadá… Daí por diante, o movimento ganhou força e fama. “A marcha das vadias” alastrou-se pelo planeta. No Brasil, desde 2012, ao menos 20 capitais já promoveram o evento, que, em todas as ocasiões, superou a expectativa de público. Durante a manifestação, praças e ruas são preenchidas por “um mar de gente”. Reunido, o povo celebra o livre-arbítrio. Empoeiradas e adormecidas, a liberdade, a igualdade e a fraternidade são polidas e têm suas chamas avivadas.

A toda hora, trocam-se abraços, que sintonizam frequências, fortalecem correntes e sincronizam pensamentos. O que reina ali é o humanismo. Algumas manifestantes trajam apenas shorts. A ausência quase completa de roupas expõe, também, frases que as moças, em sinal de sororidade, escrevem umas nos corpos das outras. As palavras grafadas com batom vermelho atraem os olhares porque fazem transparecer algo ainda mais íntimo que a nudez: as expressões revelam o “cale-se” de cada alma.

Livres, organizadas e decididas, as mulheres atraem simpatizantes. E, para protestar contra as barbáries como feminicídios e estupros, integrantes do grupo LGBT apoiam e reforçam a passeata. De maneira cadenciada e ordeira, “A marcha das vadias” segue, e, por caminhos vários, semeia a esperança, a fim de colher frutos menos amargos e preconceituosos em futuros não tão distantes.

Confiar…

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Mistura fina!

Por: Wilson Albino Pereira

Acho que a gente se conhece desde… Sempre?
Sim! Sempre fomos confidentes, parceiros e cúmplices.
Sempre fomos um para o outro o melhor amigo. Sempre.
A-MI-GO, no sentido mais nobre da palavra.
Um sem número de vezes exaltou minhas qualidades.
Também à queima roupa falou dos meus defeitos e erros.
Agi igual contigo. Elogiei seus acertos e apontei sua falhas.
Até censurei seu modo de pensar, suas opiniões e escolhas.
Você procedeu de maneira idêntica comigo.
Éramos grandiosos feito meninos.
Ao longo de nossas vidas já festejamos conquistas.
Já amargamos derrotas.
Já choramos de tanto rir.
Já lamentamos perdas irreparáveis.
Já discordamos, brigamos, rompemos e reatamos.
Com tudo  isso blindamos com aço o laço
que ainda hoje nos une.
Entretanto, engano-me totalmente ou
seu rosto expressa algo contrario aquilo que realmente sentes?
Bem sei que um só riso forçado poupa tempo e explicação.
Porém, amigo meu, guarde bem o vou te ofertar:
– CONFIAR é…
Cessar o som.
É vazar a voz.
É tatear o tom.
É desfazer o nó.
É entregar-se plenamente.
É nunca render assunto.
É ter certeza mesmo sem por à prova de que
quem “tá” junto “tá” junto, não precisa atuar.
Contudo, se em seu entendimento o  essencial é representar,
ouvir ou não conselhos é direito seu,
mas, como amigo é dever meu sempre e sempre o aconselhar.
                                     

Nem tudo é arte

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Por meio de uma linguagem acessível, a professora e doutora Anne Cauquelin torna comum dois assuntos profundos e complexos, o primeiro, arte, o segundo, seu  comércio. Mesmo leitores inexperientes captam as principais ideias do texto.

Em CAUQUELIN, Anne. Arte Contemporânea: Uma Introdução [tradutora Rejane janowitzer]. – São Paulo: Martins, 2005, a autora discute questões importantes. Quem é o produtor de arte? Quem a consome? Quem a coleciona? Quem a comercializa ou define o que é ou o que não é arte? São perguntas feitas e respostas dadas pela autora.

E, “Pode alguém fazer obras que não sejam ‘de arte’?” Quem levantou esta questão é o enxadrista, pintor e artista plástico Marcel Duchamp. E como está no livro CABANNE, Pierre. Marcel Duchamp: engenheiro do tempo perdido. São Paulo: Perspectiva, 2002,  pg 11, representa a desobediência às teorias e orientações lógicas. “Toda sua existência [ o escritor refere-se  a duchamp] foi assinalada por esse “por que” e esses “como” sempre resolvidos por um “talvez” ou “para que”.

Mas, “Pode [ou não] alguém fazer obras que não seja de arte?” Se for levado em conta que é muito auto o preço a ser pago quando quase tudo é considerado arte, a resposta  pode ser um sonoro “sim”. O mundo está repleto de picaretas que se julgam artistas e desandam a fazer idiotices que nada tem a ver com arte.

Por exemplo, em LLOSA, Mario Vargas. A linguagem das paixões, São Paulo: Arx, 2002. 343pg,  o autor categoriza: “[…] Essa maneira de ”eleger-se artista” parece perdida para sempre entre os jovens impacientes e cínicos de hoje que aspiram tocar a glória de qualquer maneira, mesmo que seja empinando-se em uma montanha de merda paquidérmica.” Llosa refere-se a um artista que usa estrume de elefantes para compor suas obras.

Em GULLAR, Ferreira. Sobre arte sobre poesia (uma luz no chão). Rio de Janeiro: José Olympio. 2006, o autor deixa claro que  “O artista plástico […] quando está concebendo a obra, não a pensa como parte de uma exposição, muito menos como parte de um evento; pelo contrário: a obra é um fim em si mesmo, expô-la é apenas o modo possível de torná-la pública”.

Porém, atualmente,  o que  está em cena é uma inversão de valores. Cada dia copia-se mais, expõe-se mais obras,  para ganhar mais e mais dinheiro. Ninguém mais se surpreende se no meio de alguma exposição “rolar barracos”. Até baixarias são utilizadas como estratégias de marketing na busca por visibilidade.

O primeiro desejo de um coração civil

Foto de divulgação

Milton Nascimento é o real ouro negro que brota nos veios das Gerais.  Sua música Coração Civil, que esta no CD Caçador de mim, revela o desejo dos cidadãos brasileiros: liberdade.Esta música foi lançado em 1981, contudo, três décadas e meia mais tarde faz mais sentido que nunca, principalmente em épocas de magistrados deslumbrados, delação premiada e Presidente atraiçoada. “Querer que a justiça reine no país”, talvez seja algo utópico. Talvez seja pedir demais. E será que é possível viver sem “policia e nem milícias”? Vá saber. É direito do povo “querer liberdade, vinho, pão, amizade, amor e prazer”. Os mil tons de Milton quiseram “tudo [isso] e [muito] mais”. A suavidade vocal, a seriedade no palco e o posicionamento politico são provas de que Milton Nascimento, tal qual a todo artista protesta de forma individual, mas proporciona conquistas coletivas. Portanto, “o poeta é (mesmo) o que sonha o que vai ser real”.

Nossa Linda Juventude

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Foto: Pedro Lucas

    
       
 

         Wilson Albino Pereira

Eles chegam fascinados. Às vezes ficam eternos minutos mirando tudo com olhar de contemplação… Passados os tramites da matrícula as faculdades sempre acolhem uma nova safra de alunos. Ainda bem, porque essa galera empolgada oxigena, “dá um gás”, renova o ambiente acadêmico.

Seus risos fáceis se assemelham à alegria dos pássaros que ensaiam os primeiros voos… Eis o Período de adaptação. Momento de fazer as primeiras amizades e quem sabe formar um time campeão. Aquele que além de arrasar nas tarefas e apresentações grupais, ainda protege o emocional de seus integrantes… Fez sentido não “néh?” Então, aguarde os próximos TIGs (Trabalho Interdisciplinar de Graduação) e confira.

Quando jovem, muitas vezes aconselhei aos mais chegados a não me aconselharem.  Por causa disso, “trinquei” amizades que até hoje, cola nenhuma deu jeito. Mas o propósito deste texto é compartilhar umas experiências, que talvez sejam úteis.

Tente ser responsável. A vida acadêmica exigi dedicação. Portanto, você terá de fazer escolhas. Infelizmente não há como assistir a todas as séries, ir a todos os  shows e paralelo a isso cumprir todos os horários, ler todos os textos e fazer todas as resenhas… É humanamente é impossível.

A segunda dica é simples: respeite seus professores. Demonstre que seus pais cumpriram o papel – educaram você. 

Abrir a mente para um universo de conhecimento faz-se necessário. Você há de encontrar pessoas que pensam e são diferentes. A terceira dica é: não seja preconceituoso(a).

A última dica… Não permita que paixão que arde em seu peito carbonize. Ao término do curso, talvez você não terá mudado o mundo, mas há de se surpreender com as transformações ocorridas dentro de você.

Mergulho Literário

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          Ao sabor das palavras

                       Wilson Albino Pereira

A pessoa que ainda não “mergulhou” em um livro nem imagina quanta delícia está ao seu alcance. Feliz é quem toma coragem e lê as primeiras linhas. Este há de sentir, no cerne de si, a revelação de outros mundos, outros sentimentos.

Fato é: ler é arriscado demais, falo com conhecimento de causa. Apaixonar-se loucamente por uma personagem é apenas um dos incontáveis riscos ao qual, quem lê, está sujeito. Outro risco são os sustos recorrentes provocados por escritores, estes arteiros que sempre aprontam e, às vezes, quase levam a óbito àquela, que, até então, era o dispositivo que dava corda no coração da gente.

Quando um personagem morre, as mentiras escritas nos livros soam como verdades. Não é vergonhoso admitir que uma ou outra lágrima fujona escapa-nos de verdade por causa das mentiras. Mas quando o escritor consegue reverter o jogo e faz ressuscitar a quem dávamos por finado, há risco de novo choro, porém, de felicidade.

Há comprovações cientificas de que enquanto se lê, ativa-se a memória, mantém-se sob controle a frequência cardíaca, frequência respiratória e alivia-se o estresse. Desde o período ginasial agarrei-me ao conselho dado por minha professora  Tania Soares França Martins – “Leia sempre. Quem lê, promove em si muitas mudanças ”.

Certas canções que ouço

Wilson Albino Pereira

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O último trabalho de Gonzaguinha intitulou-se “Cavaleiro Solitário” e seu lançamento foi póstumo. Motivo – numa manhã da segunda-feira, dia 29 abril de 1991, o cantor dirigia seu Monza SE, cor Bordô, ano 1990 em alta velocidade (de acordo perícia) na BR 280, quilômetro 181 e colidiu com uma caminhonete F400 branca, ano 1980.

O CD leva o mesmo nome do show e contém apenas 12 faixas. A maior parte das músicas são sucessos consagrados por intérpretes bastante conhecidas, tal qual Elis Regina, Maria Bethânia e Simone. Algumas canções remetem a dilemas e paixões, outras exaltam o humanismo, o que provoca a sensação de que foram compostas ontem.

“Certas canções que ouço” traduzem pessoas. É o caso de ‘Um homem também chora’, (faixa 3). A letra aponta o carinho e o trabalho como sendo coisas indispensáveis à vida de qualquer ser humano. Porém sinto que esta música é a “radiografia da alma de meu pai”. Aquele que mal sabia escrever o próprio nome, e talvez, por isso achava tão bonito alguém “atracado” a um livro. Mesmo sem ter leitura, era ele cheio de sabedorias. Quem lhe pedia opinião, ainda que fosse padre, policial ou professor ouvia do velho a franqueza no total.

“Meu filho, um homem não chora, ainda que lhe arranque pedaços”, dizia meu progenitor. É… Só eu sei como foi triste ver “meu homem guerreiro menino” chorar por causa de múltiplas internações. Mas antes do fim do fim a enfermidade não foi de tudo má. No caso do meu velho, a doença que atacou-lhe os rins também possibilitou-lhe experimentar tudo de bom que é cantado na canção do Gonzaguinha. “Carinho, ternura, abraço, candura, colo e por fim, descanso…”. meu pai, herói e tipo inesquecível teve tudo isso e muito mais.

Catraca Livre

Aqui estão alguns textos que foram publicados graças a uma parceria celebrada entre Uni-BH & Catraca Livre.

 

O que aprendi com Ricardo Noblat

Ação e reação

 

A educação do olhar

 

Confabular é preciso

 

Sempre no comando

 

Tecnológicos, mas nada cautelosos

 

Deflagrações poéticas

Tipo assim: bem-‘di boa’

 

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Aprendi com o Rodney!

Simples no falar, vestir e agir.  Ele é assim:  sempre ‘di’boa’. Por isso todo mundo curte este cara… Pelo menos até a hora da prova. Mas depois… Também fica tudo legal. Boa praça, não faz distinção. É amigo de todo mundo.

A aula mais aguardada era a dele. O espaço da liberdade. Quem empunhava a câmera, já se sentia quase jornalista. De acordo com o Rodney: “Fotografar é mais que aperta o botão da máquina. É preciso pensar antes”.

Não conheço nenhum aluno que não amava as aulas dele. Afora tudo isso, ainda tinha uns documentários que… Poxa vida… Provoca os olhares  e a mentes da moçada. 

Os alunos que tiverem a sorte fazer aula com este cara… Vão aprender a fotografar porque ele sabe o jeito certo para ensinar – “Bem di boa” 

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Mano ‘Véio’

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Bons amigos trocam ideias, mas se necessário, falam verdades um na cara do outro.

Bons camaradas segredam, aconselham-se, defedem seus iguais, ainda que seus semelhantes sejam diferentes, desiguais, principalmente, nos gostos, crenças ou descrenças.

Manos bons… Não temem falácias e maledicências. Ambos sabem que a língua alheia potencializa mágoas.

Um bom amigo sabe a hora de falar tudo e, prevê quando é  instante de nada dizer.

Talvez, justamente por isso, não faço amizades… Reconheço os companheiros meus, e ‘pra’ estes, não conto tempo, favor ou dinheiro. 

Porém, se a confiança se esgotar, tem briga não, amigos meus… sigamos o bom proceder – o silêncio mútuo e conversão  de sentindos são formas justas… Guardam a gente da gente.

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AS RETINAS DA SOCIEDADE

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"Viver é muito perigoso" (Guimarães Rosa)

Wilson Albino Pereira
 

As câmeras fotográficas dos fotojornalistas são as retinas da sociedade.  Este é apenas um dos incontáveis pontos de vista sob o qual pode ser analisado o documentário “Abaixando a Máquina: Ética e Dor no Fotojornalismo Carioca. O filme produzido pelo fotógrafo Guilherme Planel e pelo jornalista Renato de Paula em 2008, tem como cenário o Rio de janeiro. E, mostra como é a rotina dos fotógrafos que arriscam a vida por um objetivo – registrar os fatos enquanto estes acontecem.  

Hostilizado ou acolhido, ele, o fotojornalista sabe o quanto é custosa a lida de quem vive das imagens. Faz-se necessário ressaltar que, embora o filme apresente variações na qualidade audiovisual, ainda assim acerta, pois, dá voz e vez aos profissionais da imprensa e  aos cidadãos.  

A subjetividade é outro fator bem presente no filme. Os jornalistas atuantes no fotojornalismo analisam o ofício por ângulos distintos. Enquanto uns afirmam que, independente de qualquer coisa, ou circunstância, tudo precisa e deve ser fotografado. outros defendem a ideia de  que acima do registro de uma imagem é imprescindível que prevaleça a ética, e, principalmente o humanismo.   

Muitas qualificações são dadas aos fotógrafos que se empenham a serviço do fotojornalismo. Uma parrte da sociedade afirma que eles são “os olhos de todos”, há outra que diz “os fotojornalistas são uns urubus”. Há, também os consideram kamikazes. Alguns se dizem devotos de São Jorge, o “Cavaleiro da flor”.  Entretant, a bandidagem considera que quem atua no fotojornalismo  tem ligação direta com a polícia.  

Aplaudido ou vaiado, amado ou detestado, fato é que este trabalhador é imprescindível, pois, pode mudar o rumo de toda história ao acionar um botão.

Além de emocionar os expectadores, o filme também apresenta o fotógrafo como alguém que exerce seu ofício e guerreia sozinho contra o resto. Todos os dias, tais profissionais partem para um duelo no qual é vital ser o primeiro a sacar a máquina e, acionar o click antes que do outro lado algum facínora puxe o gatilho.   

BOAS, BONITAS E GOSTOSAS

Se eu sentir o cheiro ou vir rastros delas… saio imediatamente à caça, independente de hora, lugar ou local. Mas, também, quem manda serem, além de lindas, deliciosas?

Sou mesmo viciado nelas. Quero todas bem presentes em minhas histórias. Qualquer um que já sentiu na língua o universo de sabores e sensações que as danadinhas provocam, procedem do mesmo jeito que eu.

Porém, muitos ainda não sabem que as fofas desbancam a sedução existente no lamento de qualquer sereia.

Só um aviso – as línguas que ignoram os segredos do fino trato, favor manter distância, pois, estas sapequinhas são realmente perigosas. Antes da boca permitir que elas partam, é bom redobrar o cuidado com as mordidinhas mais intensas. Pois, se no momento de ganhar a liberdade elas sofrerem maus tratos… “Vixi”,  saem por este mundo de meu Deus triturando corações e almas alheias…

Boas, bonitas e gostosas são as palavras, ok?
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NAQUELA MANHÃ

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Naquela manhã,  a turma mergulhou numa luz que não era a do sol, mas  que brilhou e aqueceu como se o próprio astro rei fosse.

O olhar da professora iluminava o ambiente e percorria a sala de modo panorâmico.

Ali, diante de  vários gêmeos olhos hipnotizados, parecia que toda gente era “amigueira” dela. E,  era mesmo, logo vi… HÁ, NA ROSA-MENINA-FLOR presentes futuros…

E, De repente,   em seu rosto floreceu um só riso… Na sequência,  a mesmíssima boca risonha  concedeu asas a uma expressão que,  nunca d’antes havia escutado -“Tashi delek!”

Segundos antes de invadir os ouvidos das gentes, a sonoridade daquelas palavras resvalaram em paredes, portais e janelas… Depois fizeram ninho nas caxolas várias e, toda boca libertou a nova delícia frasal… Daí ‘pra’ diante não há vocábulos capazes de descrever a parceria de Ana Rosa Vidigal no primeiro semestre de 2013.

ATÉ O “JEITIN” DELA É DE MÃE… “BENÇA”, MÃE!

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OLHAR DE MÃE

Seu olhar, gestos e falas são de mãe. Também são de mãe as histórias que ela conta. Sabe aqueles fatos marcantes? Uns engraçados, outros tristes, mas todos com o mesmo tom de aconselhamento. São experiências importantes que Wanir Campelo  vivenciou e faz questão de compartilhar tudo com todos, mesmo com aqueles que não demonstram interesse nenhum… “Igualzin” mãe.

O jeitinho dela de mãe aflora, “di vera”, diante de alunos que fazem trabalhos mal feitos, ou que entregam as tarefas fora do prazo combinado, ou que chegam atrasados no dia das apresentações em grupo, ou que tentam culpar um colega por causa de um erro coletivo… Caso estes fatos que acabei de citar ocorram mais de um vez…  “Nóóóó fiiiii!!! AÍ ZÉ, VAI DÁ B.O.”. Em outras palavras, lubrifiquem os ouvidos – lá vem bronca.

Há situações mais extremas. Por exemplo, quem comete a doidice, a bestagem e o descaramento de plagiar…  Hummm… Aí “JÃO…” “É hora do cerol. É hora do traçado”. Mesmo se a moça da meteorologia disser que o dia será ensolarado, o tempo FE-CHA!  A nota zero vem a jato e, chega acompanhada de uma chuva de bronca.  É bronca monstro, bronca power, bronca ultra… Fala sério – bronca homérica é ou não é coisa de mãe?

Ao final de cada período o jeitinho de mãe fica ainda mais evidente. Zelosa, terna e sincera ela distribui abraços e sorrisos. Bem sabe que exerceu um papel importante, deixou indeléveis marcas no processo de formação da moçada. Já, nas almas de muita gente, pelo menos uma lição ficou tatuada… “Ser profissional é imprescindível”.

“JORNALISMO NÃO É UM CURSO SÉRIO”

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Entrevista com Emanuel Carneiro (Itatiaia)

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Minhas histórias dusoutros

Os diálogos surgem a partir de qualquer assunto. A demora do ônibus, o clima (quente, frio, seco), a crise financeira… São ganchos vigorosos.

Certa vez, em um desses papos que iniciam do nada e rendem de tudo, um rapaz perguntou-me que curso eu fazia. Disse-lhe que cursava jornalismo. Ele fez uma cara!  Disse-me em seguida que Jornalismo não é um curso sério. Na hora pensei – Esse cara… Só pode ‘tá’ doido, né? Depois de uma pausa, falou-me que curso sério é medicina…. Engenharia….  Direito… Perguntei-lhe porquê, e, ele reposndeu-me, porque tratam de coisas importantes.

Tentei explicar-lhe que, as coisas só são importantes porque atribuímos importância às coisas. Ele não entendeu… Findou-se aquela conversa ruim.

☆ Na fotografia – Warley Carvalho, Emanuel Carneiro (Rádio Itatiaia) e eu.

☆ Creditos: Christian Sima.

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UM OURO LITERÁRIO

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Memórias… alegrias, tristezas e apuros de um estudante.

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Não estabeleço metas para leituras.  Entretanto, tento ler um livro por semana.

Sou amante de livros antigos. Frequento sebos há tempos. Fiquei feliz ao encontrar o livro “Cazuza” do escritor Viriato Corrêa. (Era um sonho).

Em apenas 188 páginas o autor descreve minuciosamente tudo que se passa na vida familiar e estudantil de  Cazuza.

Cazuza é uma criança cheia de amigos.  Ele e sua turma vivenciam dias repletos de aventuras. A vida rural, vista através dos olhos do menino, é pura magia.

No livro há relatos muito ingraçados como a “A Morte do Velho Meregido”, pg 47 e, “O Circo de Cavalinhos”,  pg 88. Mas, também há textos que capazes de emocionar os leitores.  É o caso de ” Tia Mariquinhas, pg 21, e “Pinguinho”.

Viriato Corrêa afirma que apenas organizou o material, e que não conhece o verdadeiro autor do livro.

Há um versão em pdf…  E, quem se arriscar na leitura não vai se arrepender, garanto.

CORRÊA, Viriato. Cazuza. São Paulo: Ed. Nacional, 1978.

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SÓ UM RESUMO

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Minhas histórias dusoutros

Marcos Bagno expõe  em seu livro, “Preconceito Linguistico”, (Loyola -2003) o choque entre a língua e gramática normativa.

De acordo com o autor, quem não domina a gramática é considerado pelos estudiosos como “os sem língua”.   Ou seja, trata-se de um tipo de discriminação contra muitos brasileiros que não falam ou não escrevem “corretamente”.

Qual é o papel da linguística no ensino da língua? Existe erro de português? O Brasil é uma unidade linguística? São questões desta natureza que o autor aborda.

Em tempos de crise, atropelos e tropeços, não custa lembrar que educação é um direitos de todos, e, que se esxiste as pessoas consideradas “sem língua” é por causa de gente perversa… Uns e outros, gananciosos e politiqueiros que, quando alcançam o poder contribuem para o fortalecimento da ignorância.

Valorizar o trabalho do professor e promover a cultura são passos importantes que podem virar este jogo.

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ILUSÕES PERDIDAS OU MAIS DO MESMO

 

Até parece filme. O candidato chegou ao cair da tarde. E atrás de si  trouxe um comboio… Coisa grandiosa. Mais de cem veículos nos quais os motoristas buzinavam sem interrupção,  e as pessoas, penduradas nas janelas dos carros, agitavam bandeiras e gritavam como se loucas fossem.

Enquanto ele sorria, acenava e agradecia, foguetes espocavam no céu. Afinal, era ele o escolhido, o iluminado, o eleito democraticamente para cuidar dos interesses do povo. Mas, fez uma lambança. Beneficiou amigos, contratou parentes e usufruiu o quanto pode do cargo exercido.

O tempo passou, e nem meia das mil e uma promessas feitas foram cumpridas.  Em lugar de atitude, velhas desculpas esfarrapadas e sempre acompanhadas de frases assim:  “O povo precisa ter paciência…” Ou esta  clássica – “as coisas não são bem assim como eles pensam…” Isso, para não falar das vezes em  que os eleitores inocentes que são, procuravam o candidato, e tal qual a um rato, ele se escondia.

Fiquemos atentos, amigos, pois, em breve virão outras eleições e, consequentemente, candidatos que distribuirão ‘tapinhas nas costas’ e mais um caminhão de promessas que, você, eu e meio mundo sabemos – nunca serão realizadas.

Percebi, há tempos, que neste meio político, as bocas que mais adulam, juram e prometem, são as mesmas que mentem, enganam e traem.

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“QUEM TE MATOU, CAVEIRA?”

Por Wilson Albino Pereira

A língua é um músculo e está localizada na cavidade bucal. Isso, enquanto substantivo, claro. Sendo assim, serve para falar, degustar, engolir e também para funções mais carnais que, não vem ao caso no momento. Enquanto “conjunto de palavras faladas ou escritas utilizada por uma nação”, ela é classificada pelos estudiosos como um sistema.

Alguns escritores acompanham-na bem de pertinho. É o caso de Fernando Veríssimo no texto “O Gigolô das Palavras.”

Em seu livro “Português Passo a Passo”, o gramático Pasquale Cipro Neto faz a língua marchar  elegantemente. Bom, também, se ela não for subserviente, o homem dá-lhe de laço dobrado, além de diminuir-lhe as rédeas que já são curtíssimas.

Mas, Há, também, quem deixa a língua completamente nua. Este é o proceder de Marcos Bagno que, sem o menor esforço a despi dos mitos. Não estou inventando isso. Quem quiser conferir… Está escrito no livro “Preconceitos Linguisticos.” Assim, com o auxílio dos linguístas e, aos olhos de todos, a língua baila peladona, livre e ‘gostoza’. Ops! Digo, GOSTOSA.

Trocando em miúdos, a língua é viva, pois, representa o mais poderoso instrumento de interação social, político e cultural. Se bem articulada serve de ponte do indivíduo com o mundo. Entretanto, quem faz mau uso dela encontra gigantescas muralhas ou abismos de profundezas incalculáveis. Tudo isso por causa de um único motivo – falha na comunicação.

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AQUELA PROFESSORA TERÁ O QUE MERECE

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Por Wilson Albino Pereira

A primeira vez que experimentei foi em fevereiro de 1993. Importante frisar que a professora incentivou. “Ela chegou meio que chegando” para a turma e disse:

– Em suas respectivas casas, primeiro escolham e depois sintam.

No princípio a classe ficou assustada, mas, depois veio o alvoroço. Contudo, nada sei dos outros. Só posso falar por mim.

Confesso – não tentei, não pude e nem quis me segurar.
Também não sei ao certo se escolhi ou fui escolhido, mas, ao encontrar o que buscava, usei imediatamente. Entreguei-me ao vício.

Foi como se um portal me puxasse. E, uma vez ingressado naquela outra ‘dimensão’, fome, sede e sono deixavam de existir.

Opa! Pensou que a professora ofertara substâncias ilícitas, néh ??? ERROU!!! Ela apresentou-nos a boa literatura.

Por meu gosto escolhi “Alexandre e os Outros Heróis”, uma adaptação do folclore realizada por Graciliano Ramos.
Sem violência ou imposição, Tania também trouxe “Vivendo o Amor”, escrito por Marlene Del Guerra, e, por fim, “O Diário de Ana Cristina”, de José Carlos Leal.

No ano seguinte, 1994, ela apresentou-nos “O Seminarista” de Bernardo Guimarães, posteriormente foi a vez de “Mar Morto”, do escritor Jorge Amado. Já, no terceiro bimestre lemos “Vidas Secas”, e, por fim, “Memórias do Cárcere”, ambos de Graciliano Ramos.   

Desde aquela época meu amor pela leitura só aumenta… Por exemplo, hoje, domingo, 7 de fevereiro de 2016 acabei de ler “Ciranda de Pedra”. Um livro que foi escrito por Lygia Fagundes Telles e que aborda temas como traição, loucura e crise existencial de um modo bem humanista.

Na semana passada li “O Estrangeiro”, outra joia literária que, entre outras coisas, também trata deste mar revolto de mistérios chamado ser humano.

Já, na semana antecedente, li do escritor Hermann Hesse, “Demian”, um romance transbordante de provocações.

P.S:. Tania Soares França Martins sempre terá o que merece. Em outra palavras, ela merece todo o respeito, as devidas honrarias e, os meus mais sinceros agradecimentos porque lançou as sementes literárias que germinaram em minha alma sedenta por leitura.
     

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É Culpa do Tempo

Encontrei, por acaso, um álbum com fotos minhas e de colegas do período escolar.  Poxa! O tempo passou tão rápido que nem percebi… Ainda mantenho contato com alguns camaradas daquela época. Os poucos, às vezes, noticiam sobre os demais. Soube, por exemplo, que alguns se casaram e tiveram filhos. Outros, por motivos diversos preferiram a vida de solteiro mesmo. Soube também que dois amigos, tal qual afirma Rolando Boldrin, “viajaram fora do combinado,” morreram jovens demais. Enquanto olhava as fotografias evoquei o passado.  Rememorei pedaços desconexos de fatos, falas e expressões faciais… Resquícios da vida estudantil. Nossos corações valentes tinham sonhos e temores. Mal sabíamos que, problemas de verdade ainda estavam por vir. Em 20 anos mudei muito. meu riso ficou mais contido, meu olhar mais lacrimoso, meus dizeres mais dosados… Ainda bem que isso não vale para todos. Bom… Sei que em duas décadas mudei tanto que, se a gente se esbarrar qualquer dia desses e, não nos reconhecermos mutuamente… É tudo culpa do tempo.

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Trabalho de Português… Tocamos a música Indignação do Skank

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3º Ano do 2º grau…

Lágrimas Itálicas

Wilson Albino Pereira

Certa vez, vi um estrangeiro perdido em BH. Ele era italiano.  os olhos úmidos pediam ajuda. Percebi seu medo…  Perguntei-me: será mesmo que no princípio o mundo inteiro falava a mesma língua, com as mesmas palavras? E, se falava, erros eram evitados? Conflitos mediados? Vidas poupadas? impossível saber… Prefiro crer ao menos que a língua era ponte ao invés de barreira.

O italiano assustado me fez pensar em alguns de seus compatriotas ancestrais.  Estes sim vivenciaram um drama na capital das alterosas. Foram atraídos por viagem gratuita e ajuda de custo. Vinham iludidos, e, acabavam arrebanhados no Curral del-Rei. Que pena! Muitos acabaram traídos por seus próprios sonhos.

Os recém-chegados ficavam desconfortáveis em “hospedarias de emigrantes”.  A condição ruim piorou muito. A crise financeira impediu o governo de apoiar estrangeiros. Findadas as obras na cidade jardim, os italianos possuidores de capital iniciaram negócios. Quem era pobre partiu rumo às áreas rurais, ou foram residir em aglomerados.

Até tentei. Entretanto, não consegui imaginar o que poderia ser pior: Deixar a terra natal sem esperança de regressar um dia, ou abandonar-se em solo estrangeiro, e, trava diariamente a batalha das línguas, como se o mundo fosse uma  interminável torre de babel.

P.S:. Tardou quase nada até que,Liberdade_em_equilíbrio_-_monumento_construído_por_Mary_Vieira_(1)[1] o italiano perdido fosse encontrado.

O Mesmíssimo Destino

 

 

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“Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; […]”

 1 Coríntios 13:11

 

Náusea. Foi isso que senti ontem, 29 de novembro de 2015, ao assistir a uma reportagem sobre atos desumanos. O tema era violência, mas havia entre uma cena e outra racismo, xenofobia, intolerância e estupidez.

É repulsivo demais… é triste demais saber que um grupo de seres humanos esfaquearam, apedrejaram e açoitaram outro ser humano até a morte.

Ao tomar conhecimento sobre o caso de um haitiano que sofreu agressões em Santa Catarina, e,  os carrascos, em sua maioria, eram jovens que, não completaram 18 anos ainda, senti medo, indignação e vergonha destes meus compatriotas idiotas…

Quanta ignorância! Quanta ferocidade! Estes e muitos outros jovens fingem não saber que, após a morte, se, antes não forem cremados, os corpos passarão pelo mesmo processo de decomposição, e, depois dos ossos descarnados é quase impossível realizar certas identificações.

Que bom seria se o povo se conscientizasse de uma vez por todas que, brasileiros, haitianos, palestinos, israelenses, ou indivíduos de qualquer outra nacionalidade, gentes endinheiradas, ou paupérrimas, após o desenterro, inevitavelmente terão o mesmíssimo destino – ficar amontoado dentro do ossuário geral de um cemitério qualquer.

Na encruzilhada dos sentimentos

foto de arquivo

Por Wilson Albino Pereira

Cavaleiro solitário, último trabalho de Gonzaguinha, e sua segunda produção independente, teve lançamento póstumo, pois o artista morreu durante uma turnê pelo sul do Brasil, em abril de 1991. O motivo: uma caminhonete Chevrolet F400 no meio do caminho.

Ao final do texto, talvez você sinta vontade de ouvir as músicas deste CD, há ‘aboios’ e letras que fogem ao padrão gramatical. Portanto, despir-se dos preconceitos linguísticos, rítmicos e poéticos é condição essencial a quem se dispuser a mergulhar fundo nesse mar, ora agitado, ora estável, mas, sempre repleto das mais controversas emoções.

Depois que se aperta o play, ouve-se três segundos de aplausos, e, nos 50 minutos subsequentes, a sensação que se tem é de que o som ganha cor, sabor e fragrância. A voz de Gonzaguinha e a sonoridade do violão se entrelaçam, e dessa cumplicidade brotam louvores ao amor, ao humanismo e à vida. O disco reúne partes de dois shows, um realizado em Belo Horizonte, outro em Brasília.

O CD contém apenas 12 faixas, a maior parte feita de sucessos consagrados por intérpretes bastante conhecidas, como Maria Bethânia e Simone. Algumas canções remetem a dilemas e paixões, o que provoca a sensação de que foram compostas ontem. É o caso de ‘Um homem também chora’, faixa 3, cuja letra aponta o carinho e o trabalho como sendo coisas indispensáveis à vida de qualquer ser humano.

Na faixa 3, há mais duas canções atemporais. ‘É’, por exemplo, deixa transparecer o ponto de vista político, o que o artista considerava primordial para favorecimento da coletividade. “Gonzaguinha era um companheiro das esquerdas”, tal qual, afirmou o ex-presidente Lula. A outra música ‘O que é o que é’, tem a ver com o significado e a importância da vida para cada um.

Já, em ‘Gentileza’, canção que ocupa a faixa 5, Gonzaguinha, antes de cantar, explica ao público por que fez a música. Trata-se de uma homenagem a um pai de família que perdeu esposa e filhos em um incêndio, e que depois do ocorrido, viveu para apenas para distribuir flores e pregar o amor a toda gente.

Fotografia é o nome da faixa de número 7. É mesmo um retrato das lembranças infantis. As imagens evocadas pela letra contrapõem alegrias e tristezas, já que o Morro de São Carlos, lugar onde Gonzaguinha passou parte da meninice, era o espaço da liberdade, mas também, era um lugar onde ocorriam violências diversas.

“[…] chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar, e se perder e se achar […]” este é um trecho de ‘Não dá mais para segurar’, também conhecida como ‘Explode coração’, faixa 11. Nesta canção, dúvidas e certezas se defrontam e, entrecruzam-se, e por vezes colidem-se. Talvez, seja esta a encruzilhada de sentimentos que nos revele um Gonzaguinha diferente daquele vencedor de  festivais universitários e militante político. O artista que foi capaz, inclusive, de realizar shows no ABC Paulista, a fim de arrecadar fundos para fortalecer as lutas sindicais.

Os fãs de Gonzaguinha, ao ouvirem o bolero nostálgico e suave ‘Começaria tudo outra vez’, faixa 12, a última música do CD, talvez, perguntem: e se naquela manhã de segunda, 29 abril, Gonzaguinha não tivesse assumido a direção do Monza SE, cor bordô, ano 1990? E se tivesse escolhido outra BR, que não fosse a 280, quilômetro 181? E se a velocidade do veículo na hora da batida não fosse 150 km/h? E, se uma caminhonete F400, branca, 1980, não tivesse cruzado o seu caminho?  E se a colisão de frente não tivesse causado a fratura da primeira e da segunda vertebras da coluna cervical? E se as costelas quebradas não tivessem lhe perfurado os pulmões? E se a causa mortis não tivesse sido secção de medula e traumatismo craniano? Será que Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o Gonzaguinha, completaria 70 anos no dia 22 de setembro de 2015?

‘E’ e ‘Se’, são dois operadores argumentativos. O primeiro é de adição, soma a favor de uma mesmo conclusão. O segundo é de condição, indica uma hipótese para a realização ou não de um fato qualquer. São sinais gráficos pequeninos, mas, lado a lado auxiliam na criação de perguntas, às quais, provavelmente, nunca ninguém obterá respostas.

 Minhas histórias dusoutros,

Em algum lugar do passado

Minhas histórias dusoutros,

Minhas histórias dusoutros,

Por:Wilson Albino Pereira

O humor inteligente e brasileiríssimo é quem dita o tom na terra estrangeira.  Talvez, por isso, o livro Trançando New York, escrito por Luis Fernando Veríssimo seja importante. Os textos reunidos neste volume foram escritos entre agosto de 1980 e fevereiro de 1981, quando Veríssimo era correspondente internacional do jornal Zero Hora.

Algumas crônicas apresentam os aspectos arquitetônicos, sociais ou culturais relevantes na metrópole. Tanto a vida particular dos cidadãos nova-iorquinos – pg 60, quanto cotidiano daqueles que emigraram em busca da terra prometida – pg 57, nada escapa à curiosidade do jornalista. O escritor descortina o dia a dia de alguns dos moradores de Nova York, que, no fundo, como o próprio escritor afirma na última linha da página 15 – “é uma cidade pequena.”

Nenhuma das 37 crônicas têm o mesmo nome que o livro. Na verdade, o que justifica o título são as 56 ilustrações que o artista plástico e também jornalista Joaquim da Fonseca fez utilizando apenas papel uma caneta esferográfica. Ainda que a técnica e os materiais utilizados por Fonseca sejam simples, os traços formam figuras ricas em detalhes.

Não é exagero afirmar que a linguagem utilizada por Veríssimo possui um misto de visgo e laço. A ótica pela qual alguns assuntos delicados são abordados, os desfechos inimagináveis das crônicas e o jeito de escrever pouco e conseguir dizer muito entre linhas, tudo é muito convidativo.

Veríssimo tenta fazer-se entender por meio de uma linguagem bem familiar. Porém, para que haja sucesso na comunicação, o conhecimento de mundo que o leitor traz consigo, ou seja, sua bagagem cultural, é imprescindível. Os elementos lingüísticos, como as intertextualidades e os implícitos, apenas “são flagrados” se o leitor entender que o encadeamento de ideias existentes no interior texto é coerente.

O escritor sempre “avizinha-se” de seu leitor. Principalmente daquele não faz parte da elite. Isso ocorre, por exemplo, quando o jornalista utilizou o gerúndio do verbo “traçar”. Numa linguagem menos formal, o que não significa desobediência às regras gramaticais, traçar e comer são equivalentes. É bom lembrar que tais palavras também podem estar ligadas ao sentido sexual, dependendo do contexto evidentemente.

Os leitores percebem que Veríssimo é um jornalista que ouve as fontes, interpreta os fatos e organiza as informações. Quem está lendo essa resenha agora deve estar pensando: Poxa! Mas isso é o mínimo que se espera de um jornalista! Contudo, ao contrário dos outros profissionais da informação, Veríssimo é sutil quando exerce em seus textos, os seus escassos e imaginários momentos de poder.

Qual show está em cartaz? Quais são os restaurantes mais luxuosos? Quais os cafés mais chinfrins? Qual é a variação de preços? É de tais assuntos que trata a crônica da página 17 – Espetáculos. A tipologia (guia) o e gênero (crônica) aparecem fundidos no mesmo texto.  Durante uma leitura agradável, o leitor quase não se dá conta de que está diante de uma agenda cultural.

Em certos momentos, o cronista descansa o humor e foca em acontecimentos perturbadores e tristes, como “um ‘esfaqueador’ louco no meio da multidão” – pg 105, ou coisas belas como o inverno, que segundo Veríssimo, é tão rigoroso que quem sai à rua desprotegido, “corre o risco de perder as orelhas” – pg101, ou o outono, época do ano na qual “a cor das folhas das arvores vão do verde limão ao mais escandaloso rosa” – pg 71.

Na página 134, a crônica – Até O Próximo, deixa o leitor ainda mais íntimo do cronista. Meio à invencionices do escritor como a – que Frank Sinatra não mais seria embaixador na Itália, mas, que um dueto com o Papa já estava confirmado, Veríssimo chega a revelar que sua filha mais velha é babá, e que seu filho mais novo jura que entendeu tudo o que disse papai Noel ao telefone– Rô, rô, rô.

O universo estrangeiro que Veríssimo constrói por meio das palavras sintoniza o leitor e a estação climática numa mesma frequência. Por meio das narrativas é quase possível tocar as árvores que semanas antes chegaram a exibir copas majestosas, no outono transmutaram as cores, no inverno se abreviaram resumindo-se a caules e galho despidos. Já a violência urbana e o centro de múltiplos acontecimentos culturais daquela época, ainda hoje seguem inabaláveis.

As críticas e as preocupações do escritor à cerca de maníacos à solta nas ruas em 1980 são ingênuas, se comparados aos atos terroristas praticados por fanáticos e loucos atualmente. Além do humor inteligente que dita o tom em terra estrangeira, talvez, o livro escrito por Veríssimo seja importante porque aviva as memórias de quem viveu, ainda que por algum tempo, na cidade mais populosa dos Estados Unidos. Ao trazer para o presente as recordações dos outonos e invernos que, de tão distantes, não passam hoje de pó no pó, o livro de crônicas de Veríssimo deixa como legado ao menos uma dúvida – será que há 35 anos os habitantes da Big Apple não eram mais felizes?

AMORES ILEGAIS

Minhas histórias dusoutros,

Por:Wilson Albino Pereira

Depois que uma labareda se alastra não tem mais solução. Nesse aspecto, paixão e fogo se assemelham. Talvez seja por isso que arrebatados pelo desejo, homem e mulher se entregam frenéticos e insaciavelmente ao sexo.

Nessas loucas relações só uma regra prevalece: não há regras. Porém, tudo que é celebrado entre quatro paredes, pode nascer e acabar pelos mesmos motivos – interesses, mentiras e omissões.

Tornar-se eternamente a ‘outra’, pode ser a sina de quem assume o complexo papel de amante. Sob pseudônimos, algumas mulheres revelaram pedaços felizes e cacos “perfuro-cortantes” de suas histórias. Os sorrisos, as vozes embargadas e as lágrimas durante as entrevistas são provas de que recordar é mesmo viver.

VOU TIRAR VOCÊ DESSE LUGAR

Glaura, 30 anos, foi a primeira entrevistada. Ocupação: garota de programa.  Ela acreditava que profissionais do sexo só, prestavam serviços, até se apaixonar por um cliente. “Ele era diferente. Tão gentil e cheiroso!” Vestidos no quarto, falavam de tudo.

Glaura disse que ele pagou algumas vezes só para conversar. “Um dia, me deu flores e chocolate. Nessa ocasião ficamos abraçados e mudos durante um tempão. Nesse mesmo dia que ele me chamou para ir a Ouro Preto. Aceitei, pois eu já estava a fim dele”.

Mesmo fazendo de 30 a 35 programas por dia, nos fins de semana, Glaura era exclusiva de seu bem.  “Eu topava fazer o que ele pedisse. A seu lado eu me sentia amada, cuidada, protegida…”

O relacionamento chegou ao fim depois de dois anos. “Ele me falou que morava com uma pessoa havia tempos, que estávamos errados, e, por fim, que iria se casar em breve. Me senti um lixo, humilhada, trocada e traída. Propus que ficasse com ela e comigo, mas, ele rejeitou. Implorei, chorei, ameacei contar sobre a gente, mas,  não adiantou… Depois disso me desiludi”,  relata com olhos lacrimejados.

TRÊS É DEMAIS

Marília, 26 anos, é a segunda entrevistada. Formada em Letras, trabalha hoje como assistente administrativa. Ao tomar um táxi no sentido Centro\bairro, o motorista puxou conversa, mas ela não rendeu assunto. Notou que durante o trajeto ele a espionava pelo retrovisor.

Marília achou estranhou quando passou a vê-lo frequentemente. Mais tarde descobriu que ele era casado e morava a  cinco  quarteirões de sua casa. “Numa sexta-feira, enquanto  esperava ônibus, ele estacionou o táxi e perguntou se eu estava indo para casa. Disse que estava. Então entra aqui, ele falou.

Entrei receosa, e, um minuto depois começou o interrogatório. Ele perguntou meu nome, minha idade, se eu tinha namorado, se eu bebia.  Pensei – que chatice!”.

“De repente  parou o carro e me tacou um beijo na boca… Fiquei sem fôlego”, conta  de olhos fechados. “Naquela mesma noite ele quis sair comigo. Pensei na mulher dele, imaginei que isso podia dar rolo. Eu disse ‘não’, mas, querendo dizer ‘sim’.

Ela se considerava Inexperiente na cama. E  cheia de pudores. “Tive medo de não corresponder às expectativas” afirma. Dias depois recebeu novo convite, e, dessa vez aceitou e não se arrependeu.

Foi a primeira vez que ela sentiu seu sexo tocado pela língua de um homem. “Senti prazer como nunca! Ele fazia umas coisas comigo… Bom demais fazer amor com ele viu?!”, comenta saudosa.

Como não há mal que nunca se acaba ou bem que dure  eternamente, depois de um ano, tudo chegou ao fim. “Descobri que ele tinha se envolvido com uma terceira mulher. Quando o questionei, ele deu de ombros, disse que nunca havia me prometido nada. Sofri calada. Mas, aprendi a lição.”

DUPLAMENTE ENGANADA

Aos 40, e no auge. Assim se sente Rosa. Ela procura se manter ocupada, malha, trabalha e estuda de segunda a sábado. E, está a um passo de realizar um de seus maiores sonhos, tornar-se advogada.

Rosa fala sobre um relacionamento conturbado. “Nós nos conhecemos numa festa. Fomos apresentados por um amigo em comum. Varamos a madrugada conversando. Se eu dizia que gostava de uma  música, comida ou filme,  ele dizia que nossos gostos eram idênticos… falsidade pura!” diz admirada.

“Hoje, tenho consciência de que ele atuava todo tempo. Mas, quando a gente se apaixona, enlouquece”,  afirma.  “Ele foi o meu primeiro. Ir para cama nem era lá essas coisas… O que me agradava era a companhia dele, o cheiro, a voz, o toque, o riso” relembra.

“Depois de uns meses, o amante começou a me pedir dinheiro emprestado. Como imaginava ter encontrado minha alma gêmea, nunca fiz objeções. Eu sempre ouvia dele promessas de que nos casaríamos, teríamos filhos e seríamos felizes”. Contudo, o tempo foi passando e nada de casório.

“Um dia vi uma foto em sua carteira, pressionei, e ele confessou.  Fiquei furiosa quando descobri que  já era casado e tinha filhos,”  diz. “Ele sempre dizia que estava mobiliando um apartamento para gente… ‘Vai ser nosso cantinho, amor’. Perdi a conta de quantos empréstimos eu fiz e entreguei em suas mãos.

Depressiva, fiquei meses sem sair de casa. Não pude contar para minha família. Se a sociedade vê a ‘outra’ como vadia, vagabunda e destruidora de lares, imagina o que meus pais pensariam?”, conclui.

O fato de não poder desabafar aumentou a angústia de Rosa.  Eu pensava 24 horas no ocorrido. Por pouco não perco o juízo. Se eu pudesse retroceder no tempo, faria diferente.

As poucas coisas boas que vivenciei foram apagadas.  Senti tanta dor! Nem sei  como suportei. Por um longo período, a música Andança; foi meu tema. Sabe aquele trecho? – “Por onde for que ser seu par”. Pois é. Era impossível ouvir sem desabar no choro. Hoje, mantenho corpo, mente e espírito ocupados, afirma esperançosa.

Amador¹

Minhas histórias dusoutros,

Minhas histórias dusoutros,

O Sr. José Geraldo Amaral é sereníssimo e cauteloso, sobretudo, com os dizeres. Desconfio que ele escolha por peso suas palavras, e nelas meta rédea, sela e espora. Governa sua língua, pois não gosta de ofender quem quer que seja.

Acostumado aos rigores da vida no campo, se desdobrou ora na capina, semeadura e colheita, ora na ordenha e fabricação de queijos meia cura.

Hoje, aos setenta e oito anos, se dedica a algo que ama, ouvir comodamente seu rádio, independente de dia e hora.

Já dialogamos muito, e, em nossas intermináveis confabulações, ouço, de quando em vez, umas histórias repetidas. Ouço atento e me surpreendo toda vez, porque coleciono detalhes.

Fala-me de aventuras sertanejas, nas quais, já teve a rótula direita partida ao meio por causa do coice de uma vaca teimosa. Já contou-me que, quase já foi ofendido por cobras, porém, não teve a mesmo sorte com escorpiões. revelou umas injustiças ocorridas nos confins de Araçauaí, seu interior, tal qual sempre afirma, e, de como a vida no campo exige disposição ‘du cabocô’.

Sr. José só exita em falar dos mortos. Diz: Quem vai, é pra ‘discansá’. Assim seno – qui discasa em paiz!

Segredou-me que não há do que se arrepender, inclusive, se, lhe fosse dada outra chance no amanhecer da vida… talvez aceitaria cuidar de novo do chão. Talvez, até andaria, mais vezes, entre serpentes, escorpiões e bem-te-vis.

1 – a.ma.dor(ô)

Adjetivo.
1. Amante (1).
2. Que se dedica a arte ou ofício por prazer, não por profissão.
3. Diz-se da arte ou ofício praticado por amadores: teatro amador.

Um Tal de Pascoal

Por: Wilson Albino Pereira

Milton Teodoro da Silva, o Pascoal*,  estreou na vida na sexta-feira, 5 de Fevereiro de 1960. É fruto da união entre o Sr. Francisco Teodoro da Silva e Dona Sebastiana Maria da Silva.  Nasceu em Lavras, sul de Minas Gerais, onde viveu até a adolescência.

O humorista, quando criança, adorava imitar as personagens da “Praça da Alegria”, hoje “A Praça é Nossa”. Cresceu vendo na TV, Renato Aragão e O Gordo E O Magro. Acompanhou a época áurea dos festivais de música, e, vivenciou os tempos sufocantes da ditadura militar.

Dirigir é sua terapia. Já foi caminhoneiro, motorista de ambulância e instrutor de autoescola. Pascoal acredita que ao volante surgem  boas ideias.  Afirma que dirigir é automático e prazeroso.

Pela leitura, Milton Teodoro da Silva, revela que tem amor, pois desde criança lê muito. Afirmou que acumula conhecimentos e, que, depois de absorver os saberes dispostos nos materiais, faz questão de doar tudo para bibliotecas píblicas.

O inicio de sua carreira se deu após ouvir no rádio uma piada mal contada. Em seguida ele ofereceu-se para repetir na rádio, a mesma anedota, entretanto, adicionou emoção à história.  Foi um sucesso. Em pouco tempo tornou-se operador  da mesa de som.

Tempos depois, Milton foi convidado para trabalhar em uma rádio em Nepomuceno. Em 1982 mudou-se para BH. A ideia era iniciar suas atividades na Rádio Cultura, ou melhor dizendo, na rádio EXTRA FM, que devido algumas questões burocráticas, só entrou no ar em 1987.

Até que a rádio EXTRA FM iniciasse regularmente suas transmissões, Pascoal inaugurou outras duas Rádios, a Terra, da qual o cantor Roberto Calos era sócio, e a rádio  Antena 1.  Época em que surgiram as ideias embrionárias para compor um programa que é sucesso há 26 anos.

No final da década de 1980 o Brasil vivenciou intensas mudanças políticas. Meio às Diretas já e à Nova Constituição, Milton Teodoro da Silva deu início ao programa mais irreverente e inteligente de todos os tempos –  O Acorda Pascoal .

O programa trazia as marcas de seu criador: era versátil, inovador e despretensioso.  Além de divertir e informar também conscientizava o cidadão.  Tudo isso, mais músicas e piadas talvez façam parte da fórmula do sucesso que agradou a um público composto por todas as idades.

Além de apreciar pão de queijo e frango com quiabo, Milton Teodoro da Silva  também traz outras mineiridades:  Valoriza e celebra as amizades, luta por boas causas e fala o que pensa. Sempre fez da honestidade sua maior bandeira. O radialista extraordinário com 39 anos de carreira, o formador ou o transformador de opiniões, o pai amoroso, o marido dedicadíssimo, o cidadão cumpridor de seus deveres, sonhador incorrigível, o torcedor do Fabril Esporte Clube, o homem Milton Teodoro da Silva é antes de tudo um guerreiro incondicional, e que atravessou os medos, anunciou, enfrentou e venceu com honrarias e glórias  o temido câncer, além é claro, encorajou milhares a proceder igual

* O nome Pascoal foi inspirado no LP do Evandro Mesquita, lançado em 1986.

Prata da Casa ou As Vitórias da Madame

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Foto: Wilson Albino Peereira

A mão que no passado esteve calejada por causa da lida rural é a mesma que hoje se vale da caneta na hora das anotações. Lúcia de Lacerda Coelho Paula, 51, aprendeu cultivando lavouras que, a vida é um eterno cuidar.

‘A madame’, como é  carinhosamente chamada por sua equipe, trabalha no UNI-BH, Centro Universitário de Belo horizonte há 22 anos. “Aqui preparei o solo, lancei as sementes e acompanhei o germinar de minha nova história”, diz.

Iniciou suas atividades profissionais ainda na época FAFI-BH. Era contratada como telefonista, mas, prontificava-se em substituir a secretária, a auxiliar de serviços gerais e, até o porteiro sempre que necessário.

Lúcia é Graduada em Gestão de RH, atualmente é a líder da Infraestrutura no Campus Antonio Carlos. Perguntada para que serve o setor ao qual lidera, responde que: “Serve para servir, já que valoriza, respeita e cuida bem do efetivo pessoal e da estrutura física”.

Além disso, a ‘Infra’, torna o ambiente mais aconchegante para os alunos, professores e funcionários. Lucia é muitíssimo grata à bolsa de estudos oferecida pela faculdade. “É graças a este incentivo do UNI-BH que telefonistas se transformam em gestoras, porteiros em engenheiros, ou auxiliares de limpeza em designers, tal qual ousaram sonhar um dia”.

Arte serve para quê, mesmo?

Wilson Albino Pereira

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Já duvidei que pergunta puxasse pergunta, mas quem cursou a disciplina “Arte e Estética” e conheceu as ideias de Pierre Cabanni, Anne Cauquelin e Ferreira Gullar compreendeu que a arte tem finalidades diversas: narrar, provocar, situar, contextualizar, ordenar e, inclusive, entreter.

Ao assistir um filme, quem se acomoda na poltrona diante de uma tela de cinema ou TV sabe, antecipadamente, que tudo não passa de encenação. No entanto, se, mesmo assim, a pessoa se indignar, chorar, xingar ou questionar, então, já foi provocada. O gancho arpado da arte, aquele ponto de interrogação em forma de anzol, acaba de fisgar mais um.

Quem se atraca a um livro, de qualquer gênero literário, e, com ele em punho, esquece o mundo lá fora, ao mergulhar verticalmente na história, tem consciência de que as coisas escritas ali podem não corresponder com a realidade. Mas quantas vezes o leitor se identifica com algum personagem e, a partir do livro, se pergunta: quem sou? De onde venho? Para onde irei após meu último brado? Qual meu papel social? Quais meus valores e minha visão de mundo? Qual minha opinião em relação a tal assunto? O que trago em minha bagagem cultural? Em contato com a arte, o leitor pode produzir respostas bem diversas, e complexas.image

A arte estrutura aspectos narrativos, linguísticos, rítmicos e estéticos, dentre outros. Por meio dela, aponta-se o estilo ou a completa ausência dele. Na arte, é possível encontrar informação ou diversão, dúvida e fé, certezas contrárias nascidas da mesma literatura religiosa. Quem busca respostas claras, elucidação e doutrinação por meio da arte talvez saia mais confuso. A arte também possui seus labirintos.

Por meio da arte, o homem renasceu senhor de si, das ciências, das serras, dos ares e dos mares. Ali, o homem registra sua eterna inquietação, sua incansável busca. O descontentamento humano com o presente, o sonho de retroceder no tempo para mudar o passado, e a tentativa de vislumbrar o futuro também são todos sentimentos deflagrados pela mesma arte.image

A arte proporciona conscientização sociopolítica quando incita a critica, quando facilita a compreensão e as idealizações, quando o homem se percebe falível nos ideais, perecível ao tempo e sujeito a ser escravo de seus próprios desejos e vícios. Neste ponto, a arte se faz mais presente do que nunca. Ela assume a vez do espelho, que revela parte da complexidade humana.wpid-20141126_145611-1.jpg.jpeg

Talvez haja, na arte, registro que possa explicar ou questionar o desejo que alguns homens têm de abreviar ou alongar a existência. O mais incrível é que o conjunto de transformações eterniza desenredos. Por meio da própria arte, alguns homens se tornam eternos.

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Antes, durante e depois

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(Warley, Danilo,Miriane, Igor, Rúbia, eu, Christian NOSSO ÚLTIMO TIG – foto: Paula Alves

Wilson Albino Pereira

“Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente, aprende”. Assim falou João Guimarães Rosa, pelos lábios de Riobaldo, no clássico Grande Sertão: Veredas. Às vezes, por ignorar esse dizer, alguns alunos, no momento da apresentação do TIG, o Trabalho Interdisciplinar de Graduação, preferem olhar para o próprio sapato, ou para o telhado, ou para qualquer outro lugar. A ideia é fugir do olhar avaliador. Enfileirados, silenciosos e apreensivos, testa a testa com os professores, dez minutos parecem uma eternidade.

Antes de iniciar as apresentações no Circuito Acadêmico, o palavrório da gente reunida ali era capaz de inundar meio mundo. Os ocupantes da Cidade do conhecimento, apesar da tensão, celebraram o saber.

Cada grupo é diferente na composição, e, principalmente, na escolha dos temas. Idênticos? Só medos, incertezas e sonhos. Naquele vasto e fértil campo das experiências, não há conceito visto em sala de aula que não possa ser aplicado.

Por exemplo, qualquer gesto, mesmo o mais sútil, para ser interpretado, recebe “o luxuoso auxílio” da Semiótica. Uma lágrima rebelde, fujona e quente pode significar alegria por causa do êxito, fruto do esforço coletivo, ou pode, também, significar tristeza porque o grupo sabe que a “coisa” não foi sensacional.

Afora isso, o choro pode significar ódio dos equipamentos que funcionaram perfeitamente nos quinze minutos anteriores, porém, simplesmente, entraram em pane. Nesse rol de desacertos, quem ocupa o topo da lista são as caixas de silêncio, e não de som, já que emudecem como num passe de mágica.

Também entram nesse time fabricador de prantos, computadores, pen drives e CDs, que, sem mais nem menos, resolvem “pirraçar”: travam e fazem até os mais incrédulos acreditarem nas mil vezes malditas leis de Murph. Aí o choro é convulso.

Ah, e se alguém faz aquela pergunta – “O que mais falta dar errado?” – como nem tudo é “tão ruim que não possa piorar”, um transformador “estourado”  basta para tornar luz em trevas. Aí, a choradeira é grupal.

Transpostas as barreiras, os temores se transformam em recordações que, quando evocadas, provocam os risos. O resto, a festança cuida de converter em doce aquele gosto salgado que as lágrimas, rebeldes, fujonas e quentes, insistem em deixar no paladar das gentes.

A arte de cuidar dos mortos

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Foto: Emerson Ferreira

Wilson Albino Pereira

Pontualmente às 19h, e, em noites alternadas, ele veste o jaleco e separa numa bandeja as seguintes ferramentas de trabalho: pinça grande e pequena, bisturi, tesoura, dissecadores, aspirador, agulha em ‘S’ e linha.

Antes de iniciar sua participação no intervalo que existe entre o falecimento e o enterro,  Cássios Ferreira dos Santos, 43, tanatopraxista, empurra uma maca até o necrotério. Ao sacar do ‘gavetão’, um cadáver, ele confere etiqueta, laudo e corpo.

Sua função é retardar os fenômenos cadavéricos. Trocando em miúdos, é obrigação de Cássios impedir que vermes, inchaços, ou vazamentos de líquidos escuros e fétidos venham a ‘estragar’ o velório. “Amo o que faço! O trabalho é simples demais, basta ser vocacionado para tal”. afirma.

“É claro que, ter bons pulmões para suportar o odor que os corpo exalam, não cair nas ‘armadilhas’ da mente pois, o medo pode estragar tudo, e o mais importante,  colocar amor em tudo que fizer, são coisas que ajudam”, explica.     

Ao ser retirado do necrotério, se os olhos do falecido estiverem semiabertos, dão aspectos de vivo ao morto. Logo em seguida o cadáver é levado a uma sala reservada, ali, nu, o corpo é filmado, A intenção é constatar se há sinais de ferimentos. É, também, uma forma da funerária se resguardar, caso algum parente acuse a empresa de ter provocado lesões no defunto.

Suicidas, afogados, baleados enfim, sem exceção, todos são tratados de forma igual depois que se descobre a causa mortis, a hora do falecimento e do enterro. Frio, azulado e endurecido, o finado é acomodados numa mesa de superfície metálica. “Quase nunca tenho tempo de pensar, que horas antes, aquelas pessoas estavam vivas. Corro contra o tempo para não atrasar a cerimônia de despedida dos parentes”, diz.     

No instante em que Cássius falava sobre a higienização dos corpos, perguntei se ele já havia presenciado casos de necrofilia*. “Isso nunca”, categorizou. “Sabe, ao contrário do que os leigos no assunto pensam, aqui, corpos não são violados, puxados ou arremessados, a presença de câmeras impede qualquer ato fora do protocolo”, completa.       

Dado o primeiro banho, em seguida duas incisões são feitas nas artérias carótida e jugular. Através destes cortes, à medida que o sangue é drenado, uma mistura feita com hidróxido de benzeno, álcool metílico, sorbitol, tetraborato de sódio, eritrosina, glicerina e corante, o tanatofluido, é bombeado para dentro do sistema circulatório, provocando assim a morte das bactérias e o a enrijecimento do corpo.

Antes de costurar as incisões e vedar com algodão os orifícios do finado, um aparelho de nome vara trocadora, ligado a uma bomba de sucção, é introduzido no adomem através de um pequeno furo feito abaixo do umbigo.Com o auxílio dessa ferramenta, todos os líquidos e semilíquidos existentes no cavidade abdominal são retirados.

Perguntado em que pensa enquanto trabalha, Cassius respondeu: “Sinceramente? Me concentro muito antes de iniciar os procedimentos. Uma vez começado o serviço, não penso em mais nada. Nem durante e nem depois”, informa.

“Sempre que falo sobre o meu trabalho, percebo o preconceito nos rostos, nos gestos e nas brincadeiras das pessoas. É uma arrogância besta, sabe? Confesso  que às vezes, atitudes dessa natureza me deixa chateado. O povo nem imagina que no fim do fim, tudo e nada valem o mesmo preço”, lamenta.

Talvez, por causa da pressa, ou por falta de interesse, ou por qualquer outro motivo, deixa-se de prestar atenção em gente que faz do trabalho uma arte. São estas pessoas, que por meio da ética, vocação e seriedade, encontram prazer em intervir, inclusive, nos fenômenos biológicos.

 * Atração sexual pelos cadáveres.

* Funcionário responsável por realizar o preparamento do compor para o velório.


Capitã dos olhares

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Michelle Sá foto: Wilson Albino

Por Wilson Albino Pereira

“Tô atrasada mas, tô chegando. Perdi a hora aqui. Me desculpa? Vou chegar às 11h, tá? Tô correndo aqui. Tô indo. Você espera?”, estas palavras foram escritas por Michelle Sá na terça-feira, 13 de abril de 2015, e, enviadas às 10:15h por meio do menssenger.

Foi também na mesma data que, atravessei pela primeira vez, os umbrais da porta que dá acesso ao prédio de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, (UFMG), local escolhido por Michelle para conceder entrevista. Logo na entrada saudei ao porteiro que, retribuiu o cumprimento, em seguida, percorri um corredor largo que desemboca numa espécie de espaço de convívio.

Lá dentro é amplo. Quem avança em linha reta,  passa por uma arquibancada que, também serve de degrau e margeia uma sala retangular e funda, na qual velhas cadeiras e mesas de madeira pintadas de amarelo contrastam com chão, que é vermelho. Já a iluminação do ambiente fica por conta dos raios solares, estes atravessam uma cúpula semitransparente, e, ‘derrama’ luz em todas as direções.

A principio pensei em tomar um café mas, mudei de ideia. Acomodei-me no “degrau/arquibancada” de frente para saída, e de olhos bem abertos, feito dois girassóis, constatei que ali estavam reunidas  as gentes de visuais mais diferentes que já havia visto.

Cinco rapazes barbudos e cabelos trajando camisetas e calças estampadas conversavam amistosamente. Destes, três usavam brincos e eram tatuados. Todos eram consumidores de cigarro e café.

À minha frente, um trio feminino roubou minha atenção. Uma das moças pintara os cabelos na cor cereja, a segunda, na cor cenoura e a ultima, tingira as madeixas na cor pink. Até tentei fingir naturalidade mas,  volta e meia, meu olhar ‘tropeçava’ na intensidade daqueles tons.

Enquanto me sentia um estranho, já que o único sem percing, tatuagem ou tinta nos cabelos era eu, percebi que de longe alguém me olhava. Ela caminhou lentamente e com uma voz tímida indagou:

 “- Wilson?!”  Respondi que sim, daí se apresentou: sou Michelle!

Ao me levantar e estender-lhe a mão a fim de cumprimenta-la, senti uma sutil recusa. Ao invés da saudação tradicional, ela acolheu-me com um abraço e um sorrisão. Depois rumamos para uma área externa onde havia sol, sobras e silêncio.

Mal nos acomodamos e iniciei com o clássico pedido:

 – Identifique-se, por favor?

Em poucos minutos, falou-me de muitas coisas. Dentre estas, que faz parte de vários projetos em defesa da mulher, que “não é fácil atuar em frentes feministas”, e ainda, que  “a mulher não quer nem mais, nem menos, só a igualdade de direitos mesmo.”

Segura, Michelle Sá explica a importância da política na vida de quem luta para conseguir ao menos ser notada e ouvida. “A política é uma forma de dizer não à opressão, de quebrar o estereótipos como ‘feminazi’,  e,  sobretudo,  de dar um basta à ‘objetificação’ da mulher, declara.”

Outra questão abordada por Michelle Sá é o direito de escolha. “Querer ou não ser monogâmicas, querer ou não ter marido, querer ou não ser mãe. São escolhas muito simples e soam como coisas muitos radicais pois, a estrutura social é machista, afirma.”

A feminista crê que, se os homens respeitarem os direitos de escolha da mulher, talvez seja possível um equilíbrio entre feminismo e machismo. “Ao longo da história nossos direitos foram limados. Houve muita perseguição, houve muita brutalidade mas, também houve muita resistência, diz.”

A atriz aposta na conscientização por meio da arte para promover a mudança. As Bacurinhas, por exemplo, projeto do qual Michelle faz parte e muito se orgulha porque, discute a feminilidade. As intervenções ocorrem nas ruas, embaixo de viadutos ou em praças. Nuas, oito atrizes apresentam fatos do cotidiano, e por meio da arte, expõe aos gritos os abusos que as mulheres vivenciam diariamente.

De acordo com Michelle, quem assistiu à performance, dentro da mostra ‘Diversas’, convenceu-se de que a mulher não é só uma bu**, é muito mais que uma vagina.  Elas têm sentimentos, sonhos, objetivos… “Precisamos ser ouvidas, e principalmente respeitadas” declara.

Perguntada sobre a importância da internet na difusão das ideias, Michelle Sá, ficou alguns segundos em silêncio, depois declarou o seguinte: “A internet democratiza pois, alcança os anônimos na sociedade e estes, municia com vez e voz. É a materialização da autonomia. Vai além, mas tanto serve para denunciar abusos, quanto para convocar para movimentos.”

As intervenções políticas e a artísticas que Michelle ajuda a promover têm razão de ser: conscientizar a o povo de que liberdade, igualdade e sororidade* são tão essências tal qual o oxigênio que nos mantem vivos. Michelle Sá tem de altura 1,60 e pesa 55 kg. Fragilidade??? Só aparência. A atriz segue firme na luta, sempre e sempre capitando os olhares.

* Sororidade – irmandade entre as mulheres.

 

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Edu sem fronteiras

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Foto: Wilson Albino Pereira

Wilson Albino Pereira

“Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda” (Cecília Meireles).

Se pudesse, Eduardo Martins de Carvalho, 22 anos, estudante, gastaria as veredas passeando por esse mundão. Primeiro, seus pés ‘beijariam’ o solo, depois, ignorariam escorregões, topadas e perfurações. Se sentisse câimbras, cravaria ainda com mais força os pés no pó desse chão, e, diria para si: “Estou proibido de desistir”. Em suas andanças, ia constatar que muito além do que seus olhos podem ver, tudo é horizonte.

Só no mundo do faz de conta, Eduardo exerce, plenamente, seu direito de ir e vir.  Em seus sonhos fica de pé, anda ou corre sem precisar ser ajudado por familiares, ou por braços solidários de estranhos. Em sua imaginação, ele baila sem os incômodos tutores*, esses aparelhos que, comprimem demais seus tornozelos, a ponto, inclusive, de deixa-los em carne viva.

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*Tutor de Sarmiento

Eduardo demorou a nascer, e, isso causou-lhe paralisia cerebral, de acordo com as explicações de sua mãe, Dona Darci. Por esse motivo, diariamente, ele faz fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. Atualmente, são necessários quatro ônibus para chegar aos destinos e cumprir sua agenda lotada de tarefas. Para regressar ao lar, são necessárias outras quatro conduções.

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Disputa no Sul de Minas rendeu ouro a Edu.

Além dos estudos e da natação, Eduardo também se dedica a jogar bocha, um esporte que requer tanto habilidade quanto inteligência. “É mesmo apaixonante. Precisa ter mais jeito que força”, afirma. Já perdeu a conta de quantos campeonatos participou. Quando perguntado qual é o segredo para conquistar tantas medalhas, ele diz que, não há segredo, é só querer. Edu ainda informa que, mesmo febril, ou com dores nos rins, e até mesmo com sangramento nasal, jamais abandonou uma competição.

Em uma conversa amigável, Eduardo abre o sorriso, a porta da casa  e do coração. Entusiasmado, fala de coisas diversas, dentre essas, ler e escrever poesias. Também fala sobre seus sonhos, da importância da internet como ferramenta de inclusão social, e por fim, segreda amores.

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Livros e rascunhos

Os textos escritos por Eduardo apresentam assuntos do cotidiano. Têm poesias e crônicas relacionados ao amor e à amizade. Já renderam pelo menos dez livros que, são reproduzidos sob encomenda e, distribuídos de forma independente.

Já conquistou boas amizades e troca ideias, diariamente, com pessoas residentes em outros estados. Tudo graças às redes sociais.“De outra forma, talvez, isso nunca seria possível”, alega.

Eduardo não se recorda qual foi a última vez que foi vitima de preconceito. diz que faz questão de perdoar e esquecer quaisquer ofensas. Prefere rememorar os bons momentos, as palavras carinho e incentivo que sempre recebe dos parceiros.

Se as limitações físicas dificultam a agilidade, a rapidez do raciocínio compensa o que falta. No pensamento, Edu é mesmo ligeiro. Suas respostas surgem no rastro das minhas perguntas…

Eu: Qual é seu maior sonho?

Ele: Ah, são muitos mas, andar sem precisar de ajuda, estudar direito, me casar e constituir família, são alguns deles.

Eu: Qual seu escritor preferido?

Ele: Cecília Meireles, pois adoro as poesias dela.

Eu: Qual a pessoa que você admira?

Ele: pode ser duas?

Eu: Claro.

Ele: Minha avó, Maria Marta Martins que, é tudo pra mim, e minha professora Sônia Queiroz, que me ensinou a ler e me incentiva a todo momento.

Eu: Qual é o artista que você mais curte?

Ele: Zezo, ‘o cantor apaixonado’, o melhor do mundo! Ah, conhecer ele também faz parte da minha lista de sonhos.

Eu: você disse que está apaixonado…?

Ele: É isso mesmo. Estou perdidamente, loucamente apaixonado. O nome dela é…

Infelizmente, caros leitores, não estou autorizado a revelar…

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Sorridente e esperançoso, Eduardo segue a vida.

A arte de cuidar ou Humanismo contagiante

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Regina Coeli Magalhães Rodrigues – foto arquivo pessoal

     “Porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Romanos 11:29)

Wilson Albino Pereira

Ela havia terminado um plantão de 24h, e pacientemente, aguardava o esposo quando, percebi em suas mãos duas pastas, uma sacola e uma bolsa. Ofereci ajuda. Ela aceitou. Quis saber meu nome, informei. Mas, quando perguntei o nome dela… Um sorriso capaz de iluminar uma sala precedeu a resposta:

“– É Regina.”

A delicadeza de seus gestos situou-me – ali reluzia uma lady –, só apresentava semelhanças com pinturas harmoniosas. Afora isso, fui flagrado pela fragrância do perfume “L’aqua di Góia”, seu predileto. Ainda hoje, se alguma brisa ‘desavisada’ traz aquele cheiro, o passado “se faz presente”. Mesmo com o saguão onde funciona a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) lotado, naquela manhã, só ela se destacava.

No momento em que Regina já ia embora, porteiros, auxiliares de limpeza e alguns médicos, seus colegas de profissão, lhe acenaram. Ela sorriu e acenou de volta. Daquele minuto em diante, colhi informações relacionadas à mulher que, humaniza a atmosfera quando trata a todos ‘amigueiramente’, sem ressalvas, distinções ou fingimentos.

Demorou pouco até eu descobrir que Regina é natural de Bom Despacho, formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e, é casada há mais de 30 anos com Júlio César Albertino Rodrigues, advogado. Também soube que, da união nasceu um casal de filhos, e que Regina já tem um netinho.  Ademais, sei que ela gosta do cheiro de terra molhada, prefere a cor bege, ama bacalhoada, abacaxi, laranja, mexerica e, torce para o Cruzeiro.

Regina Coeli Magalhães Rodrigues é múltipla. Tanto que, este texto poderia ser sobre: a) esposa; b) mãe; c) filha; d) avó; ou e) professora universitária. Embora partilhar saberes também seja sua paixão, o que de fato norteia sua vida é o amor que sente pela família.

Portanto, angulações diversas poderiam ser dadas a este perfil mas, foquei na Regina médica, humanista e inclusiva.  A profissional que se imagina sempre em lugar de outrem na agonia da dor. O ser humano que sente por meio do olhar quando, alguém pertencente ao grupo de trabalho, não está emocionalmente legal. Regina valoriza as qualidades, crenças e desejos alheios.

A Drª Regina ocupa o cargo de médica reguladora na Central de Internações de Belo Horizonte, (CINT-BH).  É auxiliada por equipes  que buscam leitos em hospitais especializados. Seu ofício requer tato e minúcia pois, as vagas disponibilizadas nunca atendem a demanda. Ao encontrar os leitos almejados, Regina, que tem a fé como o alicerce da vida, contagia a todos, quando agradece a Deus entre lágrimas, sorrisos e orações.

Vale ressaltar que muitos pacientes infartados, oncológicos, renais ou portadores do vírus HIV, por exemplo, se conseguem internação,  é, de acordo com a Doutora, mérito da equipe que, já inicia os plantões ‘engrenada’, motivada, empática… Cuidar de gente é mesmo uma arte. Algo impossível de expressar só por meio de palavras.

Indiferente nunca, soberba jamais. Mesmo ao final dos plantões de 24 horas, seu olhar emana ternura. “Meu trabalho é minha vida. Sou muito feliz com a escolha da minha profissão”, afirma. Se  quisesse, já poderia ter se aposentado há pelo menos sete mas, não consegue se ver longe de suas atividades. Seu nome é Regina Coeli Magalhães Rodrigues porém, há quem a considere a Doutora  amor.

A Única Em Milhares

Wilson Albino Pereira

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Foto Wilson Albino Pereira

Rima rara

Poema nascente

Oscilas entre luz e gente

Formosa forma

Afável flor

És tudo e mais

És abrigo, alegria e calor

És a cura para qualquer dor

Grandiosa graça

Amostra de paraíso 

As floradas em dia de sol ou

Em noites enluaradas

Cultuam seu riso

Alma romântica

És a única em milhares

Esplêndida

Cativante

Magistral

Vital

  

Para Bem Além de “Gênero”

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Casamento de Douglas Drumond e Luiz Silva Foto Arquivo pessoal

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Por: Wilson Albino Pereira

“Foi ótimo. Em 14 de março de 2015, me casei com Luiz Antônio da Silva, na Igreja Escandinava, em São Paulo. A cerimônia religiosa foi celebrada pela pastora Lana, mas um juiz de paz também esteve presente, o que conferiu legitimidade jurídica ao ato.” É assim que o jornalista e empresário Douglas Drumond relata seu casamento.

Dois dias antes, S. M, produtora cultural, formada em comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também se casou: “Minha companheira e eu vivíamos juntas há 30 anos. Não houve festa, apenas um juiz de paz e duas testemunhas vieram até nossa casa para oficializar a união”.

Aos poucos, parece que as necessidades das minorias têm se firmado. S. M. garante que, há 3 décadas, era algo impensável o fato de duas mulheres ou dois homens se casarem. “No meio cultural, não sofri preconceito. As pessoas sabiam, olhavam de forma diferente para nós, mas ninguém falava nada”.

S.M. e a companheira nem chegaram a cogitar a ideia de adotar uma criança. “Ficamos com muito medo do que a sociedade poderia fazer com a cabeça de nosso filho”, destaca. Douglas e Luiz Antônio sonham com a adoção, mas a ideia de inseminação artificial ainda é estudada. Para o jornalista, não há diferença entre famílias hetero ou homossexuais. “O importante é que se definam os papeis”, acredita. Ao longo da vida, Douglas sofreu diversos preconceitos, inclusive, no meio familiar, já que seu pai o abandonou ainda na adolescência.

Panorama atual

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013, no Brasil, realizaram-se 3.701 casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Destes, 1.926 entre mulheres (52%) e 1.775 entre homens (48%). A maior proporção de casamentos homossexuais concentra-se no Sudeste (65,1%). O estado de São Paulo reúne 80,8% do total da região e mais da metade do país: 1.945 casórios homoafetivos, ou  52% do total nacional, apenas em 2013, seguido por Rio de Janeiro (211) e Minas Gerais (209).

As pessoas favoráveis ao casamento gay acreditam que seja uma questão de justiça, pois garante direitos. Além disso, no que se refere às crianças, se adotadas, elas serão educadas e receberão afeto e atenção, além de aprender valores – atitudes bem contrárias às de tantos casais héteros, que concebem e, em muitos casos, simplesmente abandonam os filhos.

Quem reprova a união homoafetiva, geralmente, aponta dedos acusadores, apela para a moral e os bons costumes e considera o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo uma ameaça à família, à sociedade e à saúde psicológica das crianças a serem adotadas. Os simpatizantes do polêmico projeto “Cura Gay” são provas disso. “Depois da união civil, virá a adoção de crianças por parceiros gays, a extinção das palavras pai e mãe, a destruição da família”, afirmou o deputado Marco Feliciano.

Desde 14 de março de 2013, por 14 votos favoráveis e apenas 1 contra, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou o ato que obriga cartórios a realizar qualquer tipo de união homossexual no país. A decisão aconteceu dois anos após esse tipo de união ter sido aprovada, unanimemente, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). De acordo com o artigo primeiro da resolução: “É vedado às autoridades competentes [nesse caso, os cartórios] a recusa de habilitação, celebração de casamento civil ou de conversão de união estável em casamento entre pessoas de mesmo sexo, Resolução nº 175, de 14/05/2013, aprovada durante a 169ª Sessão Plénária do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)”.

No mundo

Em 24 de maio de 2015, na Irlanda, em referendo, 62% dos votos foram favoráveis ao casamento gay, resultado importante para a comunidade internacional, pois se trata de um país católico onde, até 1993, homossexuais eram punidos com prisão. Em certos países árabes, quem se relaciona, sexualmente, com alguém do mesmo sexo, ainda corre sérios riscos de passar o resto da vida trancafiado. Em Uganda e na Nigéria, gays são tratados como subanimais.

Nos Estados Unidos, o quadro é bem diferente. Além do distrito da Columbia, 37 estados americanos aprovaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo, 26 por decisão judicial, oito por lei estadual e três por voto popular. Reportagem da BBC Brasil mostra que, desde 2013, a Suprema Corte decidiu que gays casados devem ter direitos aos mesmos benefícios que casais heteros.

No estado da Georgia, nos EUA, isso representa, atualmente, uma conquista política e uma grande movimentação financeira, pois, a partir da decisão, criaram-se muitas agências matrimoniais com exclusividade para gays.

Algumas pessoas assumidamente gays concederam entrevista a esta reportagem e toparam falar sobre homoafetividade e preconceito.

Confira os depoimentos:

Bruno Fernando, estudante, de 25 anos, ressalta: “Falar sobre união homoafetiva só não é tabu quando o assunto está relacionado ao filho do vizinho ou ao amigo. As relações no meio GLS não são tão duradouras. Sonho em me casar, mas não desejo cerimônia pomposa. Também sonho em ter um filho, deve ser algo mágico, mas adotar crianças, sobretudo as que foram abandonadas, pode ser uma maneira de criar cidadãos mais conscientes e menos preconceituosos”.

 

L., 27, técnico Industrial, vive um relacionamento estável há quatro anos. As famílias de ambos sabem, aprovam e apoiam. Ainda assim, considera a união homoafetiva um tabu. “Evitamos carinhos em público. Nunca sofri discriminação, mas, com tanta gente louca à solta, o melhor é prevenir.” S. L. nunca pensou em ter filhos ou em se casar. Sonha com a compra da casa, com independência financeira e em ser feliz.

Pós-graduado em Fisioterapia e professor universitário, H. S. diz já ter sofrido preconceito, inclusive de outros gays. Namora, mas não vive com o parceiro. Tem pretensões de se casar e de festejar o momento. “União homoafetiva é um assunto delicado. De um tempo para cá, abriu-se um espaço maior. Entretanto, falta habilidade para lidar com o tema de forma natural. Acredito que a estrutura familiar entre héteros e gays nada tenha a ver. Sou gay e meus pais são héteros. O Chicão (Francisco de Ribeiro Eller) é hétero e suas mães, Cassia Eller e Maria Eugênia Vieira Martins, eram gays”.

L., 20, estudante de publicidade, sonha com casamento, benção e festa. Não só a homofetividade, mas o sexo também é tabu. Contudo, dependendo do lugar e das pessoas que estão na conversa, talvez deixe de ser tão polêmico. “Para dar esta entrevista, pensei muito, pois já sofri preconceito quando criança. Talvez porque era mais aparente meu jeito afeminado.”

M.E, 29, auxiliar administrativa e estudante de serviço social: “A homoafetividade não deixou de ser um tabu. É fácil perceber o quanto as pessoas ainda se incomodam ao falar sobre o assunto, mesmo nos ambientes acadêmicos, onde esperávamos que as pessoas tivessem a mente mais aberta”. Em sua opinião, o que une duas pessoas é o amor, o respeito e o companheirismo. “Minha namorada e eu sonhamos em viver numa sociedade onde as pessoas se importem mais com problemas relevantes, não gastando energia em se preocupar com relacionamentos que não afetam em nada a vida pessoal de cada um. Sonhamos, também, em adotar duas meninas. Pretendemos educá-las, a fim de que não se tornem pessoas preconceituosas”.

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Camilo Santos interpretando sua personagem – Janecrilza Jane Capotão – Foto arquivo pessoal

Camilo Santos, 30, ator profissional, ganha a vida por meio das apresentações que faz em palcos paraibanos. Via rede social, informou que nunca foi vítima de preconceito por ser gay. Não sonha em se casar ou em adotar filhos, mas em ser feliz e poder se relacionar muito bem com quem está a seu redor. Ele acredita que uma família formada por héteros ou homossexuais em nada se diferencia. “O importante é que, na base familiar, haja respeito, educação e o mais indispensável: amor”.

Problema, desafio ou oportunidade?

Wilson Albino Pereira

Quem se aproxima da porta que dá acesso à sala 115 do bloco B7, no Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), campus Estoril, consegue visualizar toda parede lateral direita e parte do teto da sala, cuja cavidade é oval.  Nesse ambiente, alguns objetos ficam em mais evidência do que os móveis bege de escritório – a exemplo de uma pedra negra, que, de acordo com explicações do colecionador, é um pequeno pedaço de granito em sua forma bruta. Também há uma pintura abstrata – na qual é impossível explicar se o vermelho invade o azul (ou o contrário) – e, por fim, um pequeno cacto muito verde e quase sem espinhos.

Mal adentrei o lugar e o futuro engenheiro ambiental se apresentou. A atitude proativa trouxe consigo, talvez, a maior marca da mineiridade: a desconfiança. Magno André de Oliveira perguntou-me, então: “Essa matéria… será publicada onde, mesmo? Qual é o objetivo disso, hein?  Você é funcionário do UniBH? Você está perto de se formar? Em que período está?”. Esclarecidas as dúvidas, tratei logo de inverter os papéis e parti para o questionamento. Afinal, não é o meu perfil que interessa aos leitores.

Estudante de Engenharia Ambiental no UniBH, Magno nasceu em 14 de março de 1989, em Dom Silvério, cidade a 180 km  de Belo Horizonte. De acordo com o  Censo do IBGE 2010, o lugar possuía 5.193 habitantes e ocupa área de 195 km². Ao deixar a terra natal, em 2008, seu objetivo era se formar em Medicina. Estudou muito, mas, como não alcançou o alvo, o jeito foi mudar de sonho. Aconselhados por parentes, prestou vestibular na Universidade Federal de Minas Gerais, para Direito, passou e cursou o primeiro período. Embora tenha conseguido ótimas notas, abriu mão do curso, pois não se adaptou bem.

Ele se orgulha de já ter publicado dois artigos científicos e exposto diversos trabalhos em importantes congressos, como o de Ouro Preto e o de Ipatinga. Todos os trabalhos realizados estão diretamente relacionados a duas riquezas incalculáveis: o solo e a água. O interesse por assuntos referentes ao meio ambiente foi decisivo para que Magno optasse por fazer Engenharia Ambiental. Em um mesmo ano, prestou três vestibulares e foi aprovado em todos. Na mesma época, também passou em um processo seletivo de emprego. Escolheu estudar e trabalhar no UniBH. “Além de não precisar me deslocar, ainda havia uma coisa muito importante: a bolsa ofertada pela Instituição, sem a qual eu não conseguiria dar sequência a meus estudos”, conta.

Recentemente, ganhou o prêmio Santander com seu Trabalho de Conclusão de Curso, que gira em torno de uma questão essencial: diminuir os impactos ambientais causados pelos corantes usados pela indústria têxtil, uma vez que a água contaminada é descartada diretamente nos rios. Além de exterminar a vida aquática, os resíduos contaminam também o solo. Tal fato representa grande perigo para a população ribeirinha.

A solução proposta por Magno é tratar a água com minerais existentes na natureza, antes que esta retorne aos leitos dos rios. O dióxido de ferro e o dióxido de titânio degradaram 100% dos corantes tartarazina e rodamina, além do azul de metileno. Em apenas 24 horas de tratamento, a água já está pronta para ser reutilizada.

Vida incessante

Além de participar de núcleos de iniciação científica, de trabalhar e estudar, de segunda a sexta-feira, Magno dá aulas particulares aos sábados e domingos. É fácil constatar que ele tem um ritmo de vida puxado, e que o caminho trilhado para alcançar a premiação ofertada pelo banco Santander foi bastante árduo. “Houve dias, por exemplo, em que estudei o projeto durante 11 horas. Fiz curtíssimos intervalos para descanso. Fiquei esgotado”, lembra.

Ao falar da sensação de sufocamento e da pressão que às vezes sente no tórax – possível  efeito da rotina estressante –, Magno compara o dia a dia da gente urbana e do povo do campo. “Tudo aqui é  muito diferente”, conclui.  Recordar os pais que ainda moram na pacata Dom Silvério arranca-lhe suspiros “Às vezes, a saudade, os medos e as incertezas tiram meu sono, mas guardo bem meus sentimentos. Não choro por causa disso”, afirma.

Quando perguntado sobre o momento da premiação, Magno fica em silêncio por alguns instantes. “Foi uma confusão de sentimentos, sabe? Lembro-me de ter ficado atordoado, e, em seguida, paralisado. Palavras que descrevam todas as sensações, eu, sinceramente, desconheço”, afirma.

Segundo Magno, ao ouvir seu nome e sua colocação, foi como se a instituição, os mestres e os demais membros da equipe galgassem, a seu lado, degrau a degrau, até chegar ao palco. “Assim que coloquei as mãos no troféu e o ergui, foi como se todos que participaram dessa longa trajetória tocassem-no e o erguessem junto a mim”, descreve, emocionado.

Em conversa que durou pouco mais de meia hora, Magno André de Oliveira revelou, entre outras coisas, que o livro que mais gostou é o Homem que calculava, de Malba Taham. Além disso, considera a vida uma alquimia. Ele, aliás, é colecionador de pedras e, agora, se prepara para o mestrado. Católico, tem como ídolos Steve Jobs e Renato Russo.

Magno se dedica de corpo e alma aos projetos que inicia e sente saudade do lar e dos pais. É ansioso, tem medos e incertezas. “Tudo o que foi conquistado, até agora, é mérito de uma grande equipe. O segredo do sucesso é fazer o que se gosta. O projeto vencedor é, ao mesmo tempo, um problema, um desafio e uma oportunidade”, ressalta.


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Uma dose de alegria

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Juliana Oliveira Foto Wilson Albino

Por: Wilson Albino Pereira

Há pelo menos dez anos que, Juliana Oliveira, 31, especialista em gestão pública de turismo abraçou uma causa: levar uma dose de alegria aos hospitais, orfanatos e creches por meio de contação de história, poesia e música. No momento em que Jujuba, a palhacinha interpretada por Juliana, entra nos corredores da oncologia infantil no Hospital Das Clínicas, alguns rostinhos se iluminam, em meio  a dor, a criançada sorri.

Quando Jujuba para diante dos leitos e diz: “Oi genti!!! Podi entrá, genti? Podi genti?!” Se, lá de fora, gostosas gargalhadas são ouvidas, então,  está concedida a permissão para ingressar  nos leitos, nas vidas e nos corações das pessoas ali reunidas.

Lili, a bonequinha que Jujuba manipula, cobra beijos na mesma proporção em que os distribui. Enquanto a criançada fixa os olhares nas gracinhas feitas pelo pequeno embrulho confeccionado com pano, linha e espuma, Jujuba se dirige aos pais, que deixaram seus lares em cidades interioranas. Abandonaram inclusive, a si próprios, com a intenção de tratar a enfermidade que avança contra os filhos.

De algumas coisas Juliana faz questão: ofertar abraços acolhedores e, afirmar que não está ali com a finalidade de levar religião. Contudo, quem aceita interseção espiritual por meio de oração, é prontamente atendido.

Aos responsáveis pelas crianças, há sempre uma palavra amiga, uma mensagem de conforto, esperança e avivamento. Nos ambientes diversos, Jujuba com um sorriso farto e olhos muito brilhantes, afirma e reafirma: “Tenha força mãe, tenha força pai, porque Deus é contigo. Tenham ânimo porque, estamos lado a lado nesta batalha!”    

O relógio marcava 15h, quando o pequeno dedo indicador de Pedro Henrique* apontou no rumo da porta do quarto. Em seguida, o mesmo dedinho se recolheu rapidamente, como se tivesse vida própria… como se tivesse ido chamar os demais dedos. Depois, a palma da mãozinha virou-se para cima, e, juntos, indicador, médio, anelar e mínimo se esticaram e encolheram por vezes seguidas.

Para compreender o ato, não foi necessário dizer nada pois, qualquer um sabe que aquele gesto significa – ‘vem, vem cá, vem!’ Protagonizado por um menino e uma palhacinha, o fato ocorreu no domingo, 10 de maio, Dia das mães.

Aos olhos de muita gente, o episódio passou despercebido. A cena durou 10 segundos, se tanto. Parece pouco, contudo, foi tempo de sobra para encharcar de lágrimas as vistas do contador dessa história…

Às vezes, nos quartos, o som da TV se mistura aos apitos emitidos pelos aparelhos, que monitoram os dados vitais de cada um daqueles que inspiram cuidados.  Se a sonoridade torna o lugar diferente, os uniformes emprestados pelo hospital aos pacientes e parentes, iguala tudo. Ali, naquele lugar, não há espaço para vaidades.

As gentes, pequeninas ou grandes, tentam se solidarizar mutuamente. A sensação de que o tempo pirraça quando insiste em não passar, dá abertura para pensamentos negativos, e estes aumentam a angustia, provocam ansiedade e turbinam os pavores. Os sentimentos contraditórios acabam reprimidos por não haver a quem confidencia-los. Tudo isso potencializa a sofrimento.

A emoção vivenciada no limite deixa a todos contritos. Se de um lado alguns filhos têm medo de morrer, do outro têm pais com medo de viver sem o filho que foi tão ansiosamente aguardado e, talvez por causa das circunstâncias, a cada segundo é mais amado.

A tristeza cede lugar a alegria quando a moça e sua trupe, todos vestidos com trajes e adereços multicoloridos, adentram os quartos.  Daí por diante, o que se vê é puro humanismo. O amor ao próximo é transformado em ação. Isso explica como e porque as boas ações fazem ‘florescer poesia, chover música e alastrar a contação de historias’.

Enquanto se transforma na Palhaça Jujuba, Juliana Oliveira pensa na atenção e alegria que levará às crianças e seus familiares. Jamais se sentiu desmotivada, mesmo quando visitava mais de 10 quartos em companhia de mais três pessoas. “Não desisti pois, acredito na importância desse trabalho”, afirma.

Durante dez anos participando realizando visitas, Juliana coleciona histórias como, por exemplo, a de um menino de 5 anos, que há meses  está internado, e o pai o acompanha. “Ele fica com seu violãozinho nos dias das nossas visitas, não enxerga, mas sabe tocar, e, é bem participativo, sorri muito quando cantamos. nem parece que está em um hospital”, admira.

Juliana afirma, que seu maior medo é se tornar insensível diante da dor alheia. Ela também diz que a atitude daquele menino a leva a refletir sempre pois, as pessoas não valorizam o bem mais precioso que possuem, que é a vida. 

“Um sorriso de cada criança em um ambiente hospitalar faz cada dia valer a pena”, revela. Talvez esta última frase resuma a razão pela qual gente como Juliana e sua equipe passe parte de suas vidas se dedicando a projetos importantes como o Curando com um sorriso.

* Pedro Henrique é um nome fictício.

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Amor no ofício

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Efigênio Mendes Foto: Wilson Albino Pereira

A entrevista durou pouco mais de uma hora. Neste período lembrou-se facilmente de nomes, datas e fatos. Ao longo da conversa, não se ouviu nenhum ‘ã?’ ou ‘hen?’. Trocando em miúdos, aos setenta e cinco anos de idade, Sr. Efigênio Mendes, técnico em rádio eletrônica, está ‘tinindo.’

Homem de rotina, como ele próprio se considera, em dias alternados, caminha ou pedala. Depois, segue para Rua Cruzeiro do sul, número ‘meia um’, local onde funciona sua oficina, “Aqui é minha bagunça organizada. Só eu sei entender minha confusão”, revela. À tarde é o momento do garimpo. Hora em que sai a procura de sucatas eletrônicas ao longo da Rua Itapecerica.

“Aqui é a bobina de realimentação, aqui está a resistência, nestes pontos estão as conexões, explica o senhor profissional. Por meio da entonação e dos gestos, percebe-se que não é de hoje que ele transformou ofício em prazer.

Os gramofones, principalmente aqueles fabricados por volta de 1905, as radiolas de 1950 e gravadores do modelo Akai, multipistas, 16 canais, fabricados em 1975, são aparelhos que ele conhece bem melhor por dentro que por fora.

As máquinas que chegam escangalhadas, após receber os reparos advindos de mãos experientes, saem da loja em pleno funcionamento. “Os donos, quase sempre colecionadores, alegram-se ao encontrar suas relíquias totalmente restauradas”, pontua.

Aos doze anos se interessou por concertar rádios, fez um curso e não parou mais. “Ainda não encontrei aparelhagem que eu não conseguisse dar jeito”, fala orgulhoso. As empresas atuais só fabricam rádios transistorizados, “O jeito é modificar as poucas peças que encontro”, afirma.

Se meios aos descartes eletrônicos vê-se uma válvula ‘cansada’, termo usado pelo Sr. Efigênio, “A única opção é inverter sua voltagem, isso pode garantir sobrevida ao  aparelho e à peça”, esclarece. O concerto pode gerar felicidade simultânea. Tanto o colecionador, quanto o técnico responsável pela manutenção, compartilham da mesma alegria. Quando perguntado qual a razão de trabalhar tanto, ele respondeu: “Amo e me divirto com o que faço, além disso, recebo pelo concertos.”, informa.

Ele nasceu com catarata congênita, a doença torna o cristalino opaco. Durante boa parte de sua vida, tudo o que leu foi em braile. Entretanto, após cirurgia, passou a enxergar mas, bem pouco, e, só do olho direito. “O lugar onde encontrei apoio foi no Instituto São Rafael, lá aprendi a me virar”, alega. Apesar da baixa acuidade visual, Ele afirma que isso não o atrapalha. As duas luminárias e as lupas se tornaram ferramentas essenciais, são elas que possibilitam os concertos.

Ouvir rádio é sua maior distração, o faz durante todo o tempo. Nostálgico, lembrou-se de orquestras que tocavam tango. Recordou-se também de programas que marcaram sua vida, dentre estes, “Relíquias Brasileiras”, apresento Aprígio Penido Neto na Rádio América, e “Noites que não voltam mais”, produzido e apresentado por Geraldo Tavares na Rádio Inconfidência.

Ao falar do encerramento das atividades da Rádio Guarani FM, Sr. Efigênio se emociona. “Ainda me restou a Itatiaia e a Inconfidência”, informa. Quando a nostalgia quase lhe embargou as palavras, de súbito ele desse: “ah menino… quero lhe mostrar uma joia.”

Quem ainda não ouviu dizer que quando idosas, as gentes regressam à meninice? Pois bem, pelo menos com o Sr. Efigênio, pude constatar exatamente isso. Ele não conseguiu, e nem quis disfarçar sua alegria ao apresentar alguns de seus xodós:

 “-Olha este rádio, foi fabricado em 1952, feito com peças genuinamente brasileiras. Brasileiras ouviu?”, enfatiza. “Atente para o detalhe, olhe a alça, reparou bem na alça?! É acrílico. Percebe?! ACRÍ-LI-CO”, repete. “Sinta o peso, sinta! Compreenda que este era um rádio portátil, entende? Indaga”. Sr. Efigênio fez questão de abrir o rádio, fiquei surpreso ao ver que o ‘recheio’ do aparelho era cor de ouro.

Minutos depois, Sr. Efigênio Mendes, um ‘carioca amineirado’, retomou fôlego e, repetiu a mesma dose de empolgação ao apresentar-me outra valiosa peça de sua coleção. “Olha este outro rádio! Olha! Que beleza! É de 1940, atente para o seguinte detalhe” continua…

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Guia passo a passo de: como edificar uma Capital

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Foto: Wilson Albino Pereira

Por Wilson Albino Pereira

Invada e aproprie-se dos horizontes

Delimite várzeas, bosques e montanhas

Cultive roças e crie gados

Atraia vizinhos

Meça uma área de 50 km²

Analise o solo

Classifique os recursos naturais

Importe ideias

Faça projetos

Use bons materiais nas edificações

Delegue funções administrativas

Estratifique, divida as camadas sociais

Defina papeis urbanos, suburbanos e rurais

Busque entre europeus recém-chegados arquitetos, marceneiros e artistas

Sobrando estrangeiros, meta-os de dia em lavouras, à noite em favelas

Ache empreendedores, gringos ou nacionais

Dê casas aos funcionários públicos ainda moradores da velha capital

Promova educação, saúde e cultura

Construa hospitais, cemitérios e casas de tolerância

Ps:. Orgulhe-se de si. Admire seus feitos. Só não fique frustrado se, a frase positivista “ORDEM E PROGRESSO”,  for substituída por bagunça e retrocesso.

A praça ainda é nossa?

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Foto: Wilson Albino Pereira

Por Wilson Albino pereira

Os desavisados que passam por ali têm, subitamente as narinas invadidas pelo fedor proveniente da urina e das fezes de quem vive no local. À luz do dia, prostitutas e travestis “em fim de carreira”, se vendem por cinco reais, ou até por menos. Em certos dias, um maço de cigarros é o pagamento pelos serviços sexuais prestados.

Desgrenhados e envolvidos em cobertores imundos, mendigos, alcoólatras e ‘craqueiros’ transitam no centro e no entorno do espaço público. Alguns marcham e batem continências, outros ninam a si próprios mas, a grande maioria vive em estado catatônico, contemplando o nada.

Não devia mas, essa é a rotina entre os cruzamentos das Avenidas Santos Dumont e Paraná, e das Ruas Curitiba e Caetés. Essas coordenadas correspondem à localização da Praça Barão do Rio Branco, popularmente conhecida como a Praça da Rodoviária.

O que era para ser belo se apresenta como grotesco. Tal fato inverte a lógica em alguns espaços públicos na Capital das alterosas. Talvez, nada destoe mais que o nome Liberdade em Equilíbrio, título do monumento feito de concreto armado, que mede 21m e ocupa a área central dessa praça. Em seu interior, na parte coberta da escultura, viciados em drogas disputam um espaço a socos e ponta pés.

Não é preciso ser especialista para perceber que, meio às arvores, serras e botecos, os espaços públicos, mais precisamente as praças, apresentam considerável redução no número de frequentadores. “Os tóxicos tornaram este lugar uma desgraça.” São palavras de Antônio Fernandes, 66, aposentado.  “Há 20 anos, não era essa pouca vergonha não. Tem gente que desembarca do ônibus na rodoviária e ao passar por aqui é assaltado. Quem mora aqui, se vier à praça para arejar as ideias, corre até o risco ser assassinado. Acho que não tem como piorar mais”, lamenta.

Ao longo da semana, as celebrações de cultos, a venda de produtos homeopáticos ou as apresentações de mágica dividem o ambiente. Os roubos, as brigas e o consumo de drogas ocorrem frequentemente. O que aumenta a sensação de insegurança vivenciada pelos belorizontinos.

Ilza Maria, 54, vendedora, afirma que “Cidadão honesto, gente trabalhadora, não fica parada ali, naquele antro.” De segunda a sábado, ela atravessa a Praça Barão do Rio Branco só para ‘encurtar’ caminho, informa. Diz já ter visto tanta coisa acontecer ali que nem é bom recordar. “Para servir o senhor deus crack, tem gente capaz de tudo, até matar.” Informa.

A inexistência de mares ou excesso de bares serviu para popularizar ainda mais a fama da cidade planejada e inspirada à imagem e semelhança de Washington nos Estados Unidos, entretanto a violência, o tráfico de drogas e a prostituição alcançaram patamares alarmantes e talvez irreversíveis. Por isso, a população da Cidade Jardim busca diversão em lugares mais seguros. Depois de passada onda dos ‘rolezinhos’, shoppings tem sido opção. “Será mesmo que a praça [ainda] é do povo como o céu é do condor”, tal qual afirmou Castro Alves?