Querer é vencer

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Ângelo Andrade

Foto: Wilson Albino Perereira

Por Wilson Albino Pereira

Já se passaram 17 anos desde que ele trocou o “Óxente” de Vitória da Conquista pelo “Uai sô”, de Belo Horizonte. As necessidades de concluir o segundo grau e ingressar numa faculdade foram os motivos para o êxodo. Ângelo Andrade, 34, enfermeiro formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é baiano de nascimento, alma e coração, mas mineiro por escolha.

Quem vê as postagens com declarações positivas e as fotos do Face de Ângelo, nas quais o atleta sempre aparece sorridente, não faz ideia de quanta garra ele precisou ter, a fim de provar, primeiro para si e depois para quem duvide, que querer e vencer são palavras similares.

Quando criança, ele foi atropelado por um veículo que invadiu a calçada. Ao volante, a personificação da irresponsabilidade: um motorista alcoolizado. Se as lembranças relacionadas ao acidente há tempos estão sepultadas, as cicatrizes trazem à tona e dimensionam quanta violência houve no momento do impacto.

Nos últimos 28 anos, Ângelo passou por inúmeros procedimentos cirúrgicos. Além de tudo isso, passou por incontáveis sessões de fisioterapia. Desde menino, a dor é recorrente em sua vida – tanto no passado, em períodos pós-operatórios, quanto no presente, já que Ângelo tem desvio na coluna, outra sequela do acidente.

Após a amputação, o maior incentivo para a prática de esportes veio dos pais, que matricularam Ângelo no judô. “Em nenhum momento vi a deficiência como algo limitador. Muito pelo contrário, encaro como um desafio a mais”, afirma.

Com a mudança para Belo Horizonte, a prática esportiva ficou em segundo plano. A dedicação à carreira acadêmica, ao trabalho ou aos estágios consumia boa parte do tempo. A vida sedentária resultou em sobrepeso, e, por tabela, aumento da dor cervical.

Ângelo se assustou ao notar que pesava 92 quilos. “Minha primeira atitude foi iniciar uma caminhada, depois, consultar um médico para saber se eu poderia retomar outras atividades físicas”, lembra.

De acordo com o esportista, o acompanhamento nutricional, aliado aos exercícios, ajudou-o a perder peso e ganhar qualidade de vida. “Todo começo ou recomeço tem suas dificuldades. Manter-se firme nos propósitos exige disciplina. Retomei, a princípio, com caminhadas noturnas, alternadas e curtas”, diz. “Mais tarde, gradativamente, aumentei a frequência, a duração e a intensidade”.

Diversificação

Depois de experimentar a caminhada, Ângelo tornou-se nadador e, em seguida, zagueiro em um time de futebol, no qual quase todos os jogadores são amputados. Atualmente, ele também é voluntário na Associação Mineira de Desportos para Amputados, a AMDA-MG.

As caminhadas, a natação e o futebol deram outro rumo à vida de Ângelo. O novo condicionamento físico possibilitou que o atleta praticasse corridas de rua com percurso de 5 e 10 quilômetros. Entretanto, a maior conquista se relaciona à meia maratona. “Hoje, corro 21 quilômetros”, conta, orgulhoso.

“O custo da prótese apropriada para corridas é alto demais. Infelizmente, o governo não oferece ajuda para tal aquisição”, alega. Em seu dia a dia, a prótese que usa para caminhar é a mesma das corridas. É com esta perna mecânica adaptada, e com o auxilio de duas muletas, que o esportista participa das competições.

Além da melhoria do condicionamento físico, o esporte trouxe outros benefícios à vida de Ângelo: “Olha, o difícil é te dizer o que a prática esportiva ainda não me trouxe”.

Por meio da corrida, por exemplo, a história do atleta foi registrada em um livro, Eu amo correr, lançado pela Editora Mol. É por meio da corrida que o esportista voltou a jogar fotbol. Também foi por meio da corrida que Ângelo conheceu uma cantora, e com ela construiu uma amizade. “Sempre que podemos, corremos juntos”, conta.

A amizade lhe proporcionou uma de suas mais fortes emoções. Ângelo contou que, certa vez, de férias em sua cidade natal, foi a um show da cantora e amiga Zélia Duncan. Ao vê-lo na plateia, ela pediu licença ao público e contou a história de Ângelo, a quem dedicou uma canção. “Quando vi e a ouvi cantando ‘Por isso corro demais’, pensei que ia flutuar”.

Segundo o atleta, ninguém deve olhar para as pessoas que possuem deficiência com “coitadismo”. “Quando corro, fico feliz ao ser aplaudido e incentivado pelo público, mas meu combustível vem de minha vontade de ultrapassar limites,” explica.

Ângelo diz que exercitar-se com frequência pode até causar desconforto no início, mas os benefícios, em longo prazo, são incontáveis. “É bom lembrar também que, para iniciar, só é preciso uma coisa: coragem”, resume.

Sobre o esporte, Ângelo Andrade declara: “É meu alicerce, minha alegria, minha filosofia de vida, minha forma de inclusão. Se houve momentos em minha vida nos quais pensei em recuar, foi para tomar mais impulso e, assim, ir além!”.

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Ângelo Andrade

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8 comentários sobre “Querer é vencer

  1. Cássia disse:

    “Ninguém deve olhar para as pessoas que possuem deficiência com “coitadismo”(…) Meu combustível vem de minha vontade de ultrapassar limites,” Que história linda! texto brilhante, parabéns Wolson!

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  2. Wilson José Pereira disse:

    Um herói !! Uma justa qualidade, para Ângelo, após ler seu testemunho . O dicionário define herói como um indivíduo que se destaca por um ato de extraordinária coragem, valentia, força de caráter e que passa a ser admirado por muitos. Apesar de toda a circunstância que o impedia Ângelo tinha a escolha de não fazer nada e se entregar, ou olhar o horizonte das oportunidades e fazer sua vida valer a pena apesar de tudo. Determinado, corajoso e com ousadia, Ângelo optou construir um alicerce sólido mesmo que a princípio não visse diante de seus olhos, mas sabia dentro de si,que poderia chegar lá. Isto chama-se fé. Fé é quando a razão e a lógica dizem para você ficar onde está mas você prossegue. No entanto uma fé, transformada em ação. Prosseguir vencendo obstáculos sejam eles o tamanho que seja, exige a exclusão de nosso dicionário da vida, a expressão “eu desisto”. O próprio Ângelo nos mostra,” que nos momentos da vida em que ele pensava em recuar, foi para tomar mais impulso e ir além. Evidentemente que todos temos problemas e situações de turbulências em nossas vidas, mas será que tudo isso é motivo para entregar-mos a guarda e desistir ? A nossa vida é uma corrida constante e o mais interessante é que nessa corrida não tem apenas um vencedor, sempre aparece alguém para correr ao nosso lado, para nos motivar a prosseguir e vencer. Ângelo ao encontrar uma amiga e faz a seguinte afirmação: que a amizade lhe proporcionou uma de suas mais fortes emoções. Ângelo, construiu dentro dele sonhos, ele teria que ser o primeiro de todos a acreditar, sobre um alicerce sólido dia a dia foi conquistando ,construindo o que um dia ele viu como oportunidades. Ângelo é um herói, e você também pode ser.

    Wilson Pereira – Curando com um Sorriso

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