Amor no ofício

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Efigênio Mendes Foto: Wilson Albino Pereira

A entrevista durou pouco mais de uma hora. Neste período lembrou-se facilmente de nomes, datas e fatos. Ao longo da conversa, não se ouviu nenhum ‘ã?’ ou ‘hen?’. Trocando em miúdos, aos setenta e cinco anos de idade, Sr. Efigênio Mendes, técnico em rádio eletrônica, está ‘tinindo.’

Homem de rotina, como ele próprio se considera, em dias alternados, caminha ou pedala. Depois, segue para Rua Cruzeiro do sul, número ‘meia um’, local onde funciona sua oficina, “Aqui é minha bagunça organizada. Só eu sei entender minha confusão”, revela. À tarde é o momento do garimpo. Hora em que sai a procura de sucatas eletrônicas ao longo da Rua Itapecerica.

“Aqui é a bobina de realimentação, aqui está a resistência, nestes pontos estão as conexões, explica o senhor profissional. Por meio da entonação e dos gestos, percebe-se que não é de hoje que ele transformou ofício em prazer.

Os gramofones, principalmente aqueles fabricados por volta de 1905, as radiolas de 1950 e gravadores do modelo Akai, multipistas, 16 canais, fabricados em 1975, são aparelhos que ele conhece bem melhor por dentro que por fora.

As máquinas que chegam escangalhadas, após receber os reparos advindos de mãos experientes, saem da loja em pleno funcionamento. “Os donos, quase sempre colecionadores, alegram-se ao encontrar suas relíquias totalmente restauradas”, pontua.

Aos doze anos se interessou por concertar rádios, fez um curso e não parou mais. “Ainda não encontrei aparelhagem que eu não conseguisse dar jeito”, fala orgulhoso. As empresas atuais só fabricam rádios transistorizados, “O jeito é modificar as poucas peças que encontro”, afirma.

Se meios aos descartes eletrônicos vê-se uma válvula ‘cansada’, termo usado pelo Sr. Efigênio, “A única opção é inverter sua voltagem, isso pode garantir sobrevida ao  aparelho e à peça”, esclarece. O concerto pode gerar felicidade simultânea. Tanto o colecionador, quanto o técnico responsável pela manutenção, compartilham da mesma alegria. Quando perguntado qual a razão de trabalhar tanto, ele respondeu: “Amo e me divirto com o que faço, além disso, recebo pelo concertos.”, informa.

Ele nasceu com catarata congênita, a doença torna o cristalino opaco. Durante boa parte de sua vida, tudo o que leu foi em braile. Entretanto, após cirurgia, passou a enxergar mas, bem pouco, e, só do olho direito. “O lugar onde encontrei apoio foi no Instituto São Rafael, lá aprendi a me virar”, alega. Apesar da baixa acuidade visual, Ele afirma que isso não o atrapalha. As duas luminárias e as lupas se tornaram ferramentas essenciais, são elas que possibilitam os concertos.

Ouvir rádio é sua maior distração, o faz durante todo o tempo. Nostálgico, lembrou-se de orquestras que tocavam tango. Recordou-se também de programas que marcaram sua vida, dentre estes, “Relíquias Brasileiras”, apresento Aprígio Penido Neto na Rádio América, e “Noites que não voltam mais”, produzido e apresentado por Geraldo Tavares na Rádio Inconfidência.

Ao falar do encerramento das atividades da Rádio Guarani FM, Sr. Efigênio se emociona. “Ainda me restou a Itatiaia e a Inconfidência”, informa. Quando a nostalgia quase lhe embargou as palavras, de súbito ele desse: “ah menino… quero lhe mostrar uma joia.”

Quem ainda não ouviu dizer que quando idosas, as gentes regressam à meninice? Pois bem, pelo menos com o Sr. Efigênio, pude constatar exatamente isso. Ele não conseguiu, e nem quis disfarçar sua alegria ao apresentar alguns de seus xodós:

 “-Olha este rádio, foi fabricado em 1952, feito com peças genuinamente brasileiras. Brasileiras ouviu?”, enfatiza. “Atente para o detalhe, olhe a alça, reparou bem na alça?! É acrílico. Percebe?! ACRÍ-LI-CO”, repete. “Sinta o peso, sinta! Compreenda que este era um rádio portátil, entende? Indaga”. Sr. Efigênio fez questão de abrir o rádio, fiquei surpreso ao ver que o ‘recheio’ do aparelho era cor de ouro.

Minutos depois, Sr. Efigênio Mendes, um ‘carioca amineirado’, retomou fôlego e, repetiu a mesma dose de empolgação ao apresentar-me outra valiosa peça de sua coleção. “Olha este outro rádio! Olha! Que beleza! É de 1940, atente para o seguinte detalhe” continua…

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8 comentários sobre “Amor no ofício

  1. Carolina Lobo disse:

    Parabéns pela matéria Wilson, seu jeitinho suave de escrever torna o jornalismo ainda mais encantador. É lindo ver pessoas que se dedicam e amam o que fazem! ❤

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