Uma dose de alegria

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Juliana Oliveira Foto Wilson Albino

Por: Wilson Albino Pereira

Há pelo menos dez anos que, Juliana Oliveira, 31, especialista em gestão pública de turismo abraçou uma causa: levar uma dose de alegria aos hospitais, orfanatos e creches por meio de contação de história, poesia e música. No momento em que Jujuba, a palhacinha interpretada por Juliana, entra nos corredores da oncologia infantil no Hospital Das Clínicas, alguns rostinhos se iluminam, em meio  a dor, a criançada sorri.

Quando Jujuba para diante dos leitos e diz: “Oi genti!!! Podi entrá, genti? Podi genti?!” Se, lá de fora, gostosas gargalhadas são ouvidas, então,  está concedida a permissão para ingressar  nos leitos, nas vidas e nos corações das pessoas ali reunidas.

Lili, a bonequinha que Jujuba manipula, cobra beijos na mesma proporção em que os distribui. Enquanto a criançada fixa os olhares nas gracinhas feitas pelo pequeno embrulho confeccionado com pano, linha e espuma, Jujuba se dirige aos pais, que deixaram seus lares em cidades interioranas. Abandonaram inclusive, a si próprios, com a intenção de tratar a enfermidade que avança contra os filhos.

De algumas coisas Juliana faz questão: ofertar abraços acolhedores e, afirmar que não está ali com a finalidade de levar religião. Contudo, quem aceita interseção espiritual por meio de oração, é prontamente atendido.

Aos responsáveis pelas crianças, há sempre uma palavra amiga, uma mensagem de conforto, esperança e avivamento. Nos ambientes diversos, Jujuba com um sorriso farto e olhos muito brilhantes, afirma e reafirma: “Tenha força mãe, tenha força pai, porque Deus é contigo. Tenham ânimo porque, estamos lado a lado nesta batalha!”    

O relógio marcava 15h, quando o pequeno dedo indicador de Pedro Henrique* apontou no rumo da porta do quarto. Em seguida, o mesmo dedinho se recolheu rapidamente, como se tivesse vida própria… como se tivesse ido chamar os demais dedos. Depois, a palma da mãozinha virou-se para cima, e, juntos, indicador, médio, anelar e mínimo se esticaram e encolheram por vezes seguidas.

Para compreender o ato, não foi necessário dizer nada pois, qualquer um sabe que aquele gesto significa – ‘vem, vem cá, vem!’ Protagonizado por um menino e uma palhacinha, o fato ocorreu no domingo, 10 de maio, Dia das mães.

Aos olhos de muita gente, o episódio passou despercebido. A cena durou 10 segundos, se tanto. Parece pouco, contudo, foi tempo de sobra para encharcar de lágrimas as vistas do contador dessa história…

Às vezes, nos quartos, o som da TV se mistura aos apitos emitidos pelos aparelhos, que monitoram os dados vitais de cada um daqueles que inspiram cuidados.  Se a sonoridade torna o lugar diferente, os uniformes emprestados pelo hospital aos pacientes e parentes, iguala tudo. Ali, naquele lugar, não há espaço para vaidades.

As gentes, pequeninas ou grandes, tentam se solidarizar mutuamente. A sensação de que o tempo pirraça quando insiste em não passar, dá abertura para pensamentos negativos, e estes aumentam a angustia, provocam ansiedade e turbinam os pavores. Os sentimentos contraditórios acabam reprimidos por não haver a quem confidencia-los. Tudo isso potencializa a sofrimento.

A emoção vivenciada no limite deixa a todos contritos. Se de um lado alguns filhos têm medo de morrer, do outro têm pais com medo de viver sem o filho que foi tão ansiosamente aguardado e, talvez por causa das circunstâncias, a cada segundo é mais amado.

A tristeza cede lugar a alegria quando a moça e sua trupe, todos vestidos com trajes e adereços multicoloridos, adentram os quartos.  Daí por diante, o que se vê é puro humanismo. O amor ao próximo é transformado em ação. Isso explica como e porque as boas ações fazem ‘florescer poesia, chover música e alastrar a contação de historias’.

Enquanto se transforma na Palhaça Jujuba, Juliana Oliveira pensa na atenção e alegria que levará às crianças e seus familiares. Jamais se sentiu desmotivada, mesmo quando visitava mais de 10 quartos em companhia de mais três pessoas. “Não desisti pois, acredito na importância desse trabalho”, afirma.

Durante dez anos participando realizando visitas, Juliana coleciona histórias como, por exemplo, a de um menino de 5 anos, que há meses  está internado, e o pai o acompanha. “Ele fica com seu violãozinho nos dias das nossas visitas, não enxerga, mas sabe tocar, e, é bem participativo, sorri muito quando cantamos. nem parece que está em um hospital”, admira.

Juliana afirma, que seu maior medo é se tornar insensível diante da dor alheia. Ela também diz que a atitude daquele menino a leva a refletir sempre pois, as pessoas não valorizam o bem mais precioso que possuem, que é a vida. 

“Um sorriso de cada criança em um ambiente hospitalar faz cada dia valer a pena”, revela. Talvez esta última frase resuma a razão pela qual gente como Juliana e sua equipe passe parte de suas vidas se dedicando a projetos importantes como o Curando com um sorriso.

* Pedro Henrique é um nome fictício.

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17 comentários sobre “Uma dose de alegria

  1. Ricardo Albino disse:

    Amigo,a arte de contar histórias funciona como um remédio para quem ouvi e também em doses até maiores para o coração e a alma de quem faz o bem ao contar.Mais uma vez lhe digo que me enxerguei parte do seu belo texto.Muito agradecido

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  2. Elisa disse:

    Eu conheço muito bem essa palhaçinha tão alegre e sorridente. E ela é assim sempre, não só no hospital. Ela é um exemplo de bem viver. Admiro muito esse trabalho que ela faz, pois ele leva alento e esperança a essas crianças e familiares tão sofridos, nos hospitais. Parabéns Jujuba pelo magnífico trabalho que vem realizando! Que Deus te dê muita luz, saúde e paz para você continuar nesse caminho!
    Parabenizo também à bela reportagem sobre o trabalho do “Curando com um sorriso “! São essas atitudes que precisam ser divulgadas para inspirar outros a fazerem o mesmo.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Cássia André disse:

    Parabéns Wolson! Mais uma vez você com detalhe e riqueza nas palavras me emocionou. Jujuba o trabalho de vocês é admirável! Que Deus continue abençoado e capacitando a todos do curando com um sorriso. Amo e admiro muito vocês.

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