A arte de cuidar dos mortos

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Foto: Emerson Ferreira

Wilson Albino Pereira

Pontualmente às 19h, e, em noites alternadas, ele veste o jaleco e separa numa bandeja as seguintes ferramentas de trabalho: pinça grande e pequena, bisturi, tesoura, dissecadores, aspirador, agulha em ‘S’ e linha.

Antes de iniciar sua participação no intervalo que existe entre o falecimento e o enterro,  Cássios Ferreira dos Santos, 43, tanatopraxista, empurra uma maca até o necrotério. Ao sacar do ‘gavetão’, um cadáver, ele confere etiqueta, laudo e corpo.

Sua função é retardar os fenômenos cadavéricos. Trocando em miúdos, é obrigação de Cássios impedir que vermes, inchaços, ou vazamentos de líquidos escuros e fétidos venham a ‘estragar’ o velório. “Amo o que faço! O trabalho é simples demais, basta ser vocacionado para tal”. afirma.

“É claro que, ter bons pulmões para suportar o odor que os corpo exalam, não cair nas ‘armadilhas’ da mente pois, o medo pode estragar tudo, e o mais importante,  colocar amor em tudo que fizer, são coisas que ajudam”, explica.     

Ao ser retirado do necrotério, se os olhos do falecido estiverem semiabertos, dão aspectos de vivo ao morto. Logo em seguida o cadáver é levado a uma sala reservada, ali, nu, o corpo é filmado, A intenção é constatar se há sinais de ferimentos. É, também, uma forma da funerária se resguardar, caso algum parente acuse a empresa de ter provocado lesões no defunto.

Suicidas, afogados, baleados enfim, sem exceção, todos são tratados de forma igual depois que se descobre a causa mortis, a hora do falecimento e do enterro. Frio, azulado e endurecido, o finado é acomodados numa mesa de superfície metálica. “Quase nunca tenho tempo de pensar, que horas antes, aquelas pessoas estavam vivas. Corro contra o tempo para não atrasar a cerimônia de despedida dos parentes”, diz.     

No instante em que Cássius falava sobre a higienização dos corpos, perguntei se ele já havia presenciado casos de necrofilia*. “Isso nunca”, categorizou. “Sabe, ao contrário do que os leigos no assunto pensam, aqui, corpos não são violados, puxados ou arremessados, a presença de câmeras impede qualquer ato fora do protocolo”, completa.       

Dado o primeiro banho, em seguida duas incisões são feitas nas artérias carótida e jugular. Através destes cortes, à medida que o sangue é drenado, uma mistura feita com hidróxido de benzeno, álcool metílico, sorbitol, tetraborato de sódio, eritrosina, glicerina e corante, o tanatofluido, é bombeado para dentro do sistema circulatório, provocando assim a morte das bactérias e o a enrijecimento do corpo.

Antes de costurar as incisões e vedar com algodão os orifícios do finado, um aparelho de nome vara trocadora, ligado a uma bomba de sucção, é introduzido no adomem através de um pequeno furo feito abaixo do umbigo.Com o auxílio dessa ferramenta, todos os líquidos e semilíquidos existentes no cavidade abdominal são retirados.

Perguntado em que pensa enquanto trabalha, Cassius respondeu: “Sinceramente? Me concentro muito antes de iniciar os procedimentos. Uma vez começado o serviço, não penso em mais nada. Nem durante e nem depois”, informa.

“Sempre que falo sobre o meu trabalho, percebo o preconceito nos rostos, nos gestos e nas brincadeiras das pessoas. É uma arrogância besta, sabe? Confesso  que às vezes, atitudes dessa natureza me deixa chateado. O povo nem imagina que no fim do fim, tudo e nada valem o mesmo preço”, lamenta.

Talvez, por causa da pressa, ou por falta de interesse, ou por qualquer outro motivo, deixa-se de prestar atenção em gente que faz do trabalho uma arte. São estas pessoas, que por meio da ética, vocação e seriedade, encontram prazer em intervir, inclusive, nos fenômenos biológicos.

 * Atração sexual pelos cadáveres.

* Funcionário responsável por realizar o preparamento do compor para o velório.


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