Na encruzilhada dos sentimentos

foto de arquivo

Por Wilson Albino Pereira

Cavaleiro solitário, último trabalho de Gonzaguinha, e sua segunda produção independente, teve lançamento póstumo, pois o artista morreu durante uma turnê pelo sul do Brasil, em abril de 1991. O motivo: uma caminhonete Chevrolet F400 no meio do caminho.

Ao final do texto, talvez você sinta vontade de ouvir as músicas deste CD, há ‘aboios’ e letras que fogem ao padrão gramatical. Portanto, despir-se dos preconceitos linguísticos, rítmicos e poéticos é condição essencial a quem se dispuser a mergulhar fundo nesse mar, ora agitado, ora estável, mas, sempre repleto das mais controversas emoções.

Depois que se aperta o play, ouve-se três segundos de aplausos, e, nos 50 minutos subsequentes, a sensação que se tem é de que o som ganha cor, sabor e fragrância. A voz de Gonzaguinha e a sonoridade do violão se entrelaçam, e dessa cumplicidade brotam louvores ao amor, ao humanismo e à vida. O disco reúne partes de dois shows, um realizado em Belo Horizonte, outro em Brasília.

O CD contém apenas 12 faixas, a maior parte feita de sucessos consagrados por intérpretes bastante conhecidas, como Maria Bethânia e Simone. Algumas canções remetem a dilemas e paixões, o que provoca a sensação de que foram compostas ontem. É o caso de ‘Um homem também chora’, faixa 3, cuja letra aponta o carinho e o trabalho como sendo coisas indispensáveis à vida de qualquer ser humano.

Na faixa 3, há mais duas canções atemporais. ‘É’, por exemplo, deixa transparecer o ponto de vista político, o que o artista considerava primordial para favorecimento da coletividade. “Gonzaguinha era um companheiro das esquerdas”, tal qual, afirmou o ex-presidente Lula. A outra música ‘O que é o que é’, tem a ver com o significado e a importância da vida para cada um.

Já, em ‘Gentileza’, canção que ocupa a faixa 5, Gonzaguinha, antes de cantar, explica ao público por que fez a música. Trata-se de uma homenagem a um pai de família que perdeu esposa e filhos em um incêndio, e que depois do ocorrido, viveu para apenas para distribuir flores e pregar o amor a toda gente.

Fotografia é o nome da faixa de número 7. É mesmo um retrato das lembranças infantis. As imagens evocadas pela letra contrapõem alegrias e tristezas, já que o Morro de São Carlos, lugar onde Gonzaguinha passou parte da meninice, era o espaço da liberdade, mas também, era um lugar onde ocorriam violências diversas.

“[…] chega de temer, chorar, sofrer, sorrir, se dar, e se perder e se achar […]” este é um trecho de ‘Não dá mais para segurar’, também conhecida como ‘Explode coração’, faixa 11. Nesta canção, dúvidas e certezas se defrontam e, entrecruzam-se, e por vezes colidem-se. Talvez, seja esta a encruzilhada de sentimentos que nos revele um Gonzaguinha diferente daquele vencedor de  festivais universitários e militante político. O artista que foi capaz, inclusive, de realizar shows no ABC Paulista, a fim de arrecadar fundos para fortalecer as lutas sindicais.

Os fãs de Gonzaguinha, ao ouvirem o bolero nostálgico e suave ‘Começaria tudo outra vez’, faixa 12, a última música do CD, talvez, perguntem: e se naquela manhã de segunda, 29 abril, Gonzaguinha não tivesse assumido a direção do Monza SE, cor bordô, ano 1990? E se tivesse escolhido outra BR, que não fosse a 280, quilômetro 181? E se a velocidade do veículo na hora da batida não fosse 150 km/h? E, se uma caminhonete F400, branca, 1980, não tivesse cruzado o seu caminho?  E se a colisão de frente não tivesse causado a fratura da primeira e da segunda vertebras da coluna cervical? E se as costelas quebradas não tivessem lhe perfurado os pulmões? E se a causa mortis não tivesse sido secção de medula e traumatismo craniano? Será que Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, o Gonzaguinha, completaria 70 anos no dia 22 de setembro de 2015?

‘E’ e ‘Se’, são dois operadores argumentativos. O primeiro é de adição, soma a favor de uma mesmo conclusão. O segundo é de condição, indica uma hipótese para a realização ou não de um fato qualquer. São sinais gráficos pequeninos, mas, lado a lado auxiliam na criação de perguntas, às quais, provavelmente, nunca ninguém obterá respostas.

 Minhas histórias dusoutros,

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3 comentários sobre “Na encruzilhada dos sentimentos

  1. Ricardo Albino disse:

    Lendo seu texto eu cantei baixinho algumas das canções dele que marcam minha vida dentre as quais O que é o que é,Perna no mundo e Sangrando.Obrigado por mostrar que a poesia musicada deixa sempre vivo a obra,a voz e o sentimento do poeta.

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