A colisão no beijo da mulher aranha

Por Wilson Albino Pereira

Se não estou enganado, no quarto período de Jornalismo, li um texto de Bruno Souza Leal sobre o poder das narrativas. Parafraseando o autor, trata-se de uma forma de explicar, compreender, agrupar e interligar emoções que se encontram não só em espaços e tempos diferentes, como, também, em mundos existentes só na imaginação.

O filme “O beijo da mulher aranha”, dirigido por Hector Babenco, explora muito bem os limites (ou a falta de limites) da narrativa. Foi muito premiado, inclusive, com prêmios no Oscar e no Festival de Cannes, na categoria “melhor ator”, para William Hurt, em 1986. A ideia, contudo, é comentar não só o enredo do filme, mas, também, a narrativa. Ela explicita que ali se passa uma trama dentro de uma trama.

Realizado em São Paulo, o longa tem cenário simples e orçamento modesto, mas a atuação de William Hurt (no papel de Molina) e Raul Julia (na pele de Valentin) é mesmo emocionante. E pensar que ambos aceitaram, como pagamento, apenas as passagens e estadias, pois se apaixonaram pelo roteiro.

Parte da história é assim: Molina é gay e foi condenado por corrupção de menores. Valentin é prisioneiro político, machista e sarcástico. Os dois estão encarcerados na mesma cela. O choque de opiniões entre eles é inevitável. Molina usa a imaginação para fugir da realidade. Mesmo tão diferentes, será que um ou outro personagem vai parafrasear Guimarães Rosa e dizer, em algum momento, “[…] pois eu morro e vivo sendo amigo seu!”? Para saber esta e outras coisas, é preciso assistir ao filme.

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