Além da Aparência

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Por: Wilson Albino Pereira

“Ah, você quer dinheiro? Vá trabalhar, vagabundo!”, berrou a mulher com um rapaz, que trajava camisa xadrez cheia de remendos, jeans descorado e calçava sapatos tão velhos, tão velhos que já não era mais possível identificar-lhes a cor. Em resposta, o moço juntou as mãos, em sinal de oração, e disse: “Obrigado! Thanks! Merci!”. E saiu.

O fato aconteceu em Contagem, na estação do metrô. Era sexta-feira e passava de 18h horário de pico. No meio daquele inferno sonoro, pensei que minha audição havia me enganado. Parti atrás de provas. Distraí-me e o perdi de vista. Encontrei-o, literalmente, na sarjeta. Contava moedas, as que, muito a contragosto, algumas pessoas lhe doaram.

Mesmo sem combinar, cumprimos cada qual o seu papel – entrevistado e entrevistador. Em lugar de dizer “Pode se identificar para mim, por favor?”, falei: “Ei amigo, tudo bem?”. Antes de sorrir e responder que sim, me olhou nos olhos. Em minutos, me falou seu nome e me contou sua vida. Era nigeriano, professor de idiomas, porém, aluno em português. (Aliás, vocês sabiam que, na Nigéria, há 521 idiomas?!)

White, de 34 anos, veio ao Brasil em busca de melhorias, mas nada fluiu. Dormia na rua há tempos. Não me pediu dinheiro. Mesmo assim, ofereci. Ele recusou. A justificativa? Apesar das humilhações, conseguira o bastante para café da manhã, almoço e jantar, no dia seguinte, em um restaurante popular. A quantia? R$ 3,75.

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