Desejos

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Os Amantes – René Magritte

Por: Wilson Albino Pereira

“Eu sonhei encontrar uma mulher, num apartamento vazio, um apartamento de ninguém, um lugar sem personalidade e fazer amor com ela sem saber quem é. Queria repetir este ato sexual à exaustão”. Esta fala do cineasta Bernardo Bertolucci é a resposta à pergunta: como surgiu a ideia para realização de “O último tango em Paris?”

Em 14 de outubro de 2016, o filme, eleito pelos críticos como um dos mais eróticos e poderosos da história do cinema, completará 44 anos. A primeira exibição da obra foi no encerramento do Festival de Cinema de Nova York, em 1972. Ao término da sessão, o diretor foi aclamado. No Brasil, o filme foi censurado. A estreia só foi possível dez anos mais tarde.

Exatos dois minutos e quinze segundos é o tempo que dura a primeira cena em que Paul e Jeanne, respectivamente, Marlon Brando e Maria Schneider, parecem atordoados de tesão. (E as outras cenas, as mais longas, depois? O que dizer sobre elas?) Se, na vida real, não havia paixão entre os atores, em cena estavam afinados. Difícil dizer se o que rolou foi apenas a representação de uma “transa casual”. Resfolegantes, gementes e inflamados, ambos ateiam fogo também nos espectadores. 

A beleza do filme não está concentrada apenas nos três elementos – um homem, uma mulher e um apartamento caótico. O encanto da obra não é só o jogo sexual fundamentado na liberdade com preservação do anonimato mútuo. A magia do longa-metragem, definitivamente, é maior que a polêmica envolvendo a manteiga, que além de deixar o pão mais saboroso, no filme serve para outro fim muito mais criativo – imagine!

A grandiosidade desta obra está representada pelo conjunto. Ora no enquadramento, ora na linguagem, orana delicadeza dos gestos ora na violência dos atos, ora em Eros, ora em Psique, ora em cores quentes ora em cores ocres, etc. Afora tudo isso, há um ataque direto ao falso moralismo e ao conservadorismo católico. Em “O último tango em Paris, Bertolucci preparou o terreno para obras ainda mais ousadas, é o caso de O Império dos Sentidosde 1976, do diretor Nagisa Oshima. Abro aqui um parêntese: nos dias atuais, com a facilidade de acessar tudo e muito e além, os filmes citados parecem até ingênuos.

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